Comecei o livro admirando a escrita da autora e sua narrativa, temos a visão de Emma, numa narrativa dos fatos. Ela conta como estava num momento extremamente feliz de sua vida, a preparação para seu casamento, suas melhores amigas e família.
Antes de me livrar do robe de seda, olhei para o espelho e de repente puxei a franja para trás, afastando-a da testa e expondo uma leve cicatriz na linha do cabelo. Corri um dedo sobre a pele branca e ligeiramente elevada e fechei os olhos por um breve instante, rememorando como ela surgira ali. Aquela noite havia marcado todos nós e, embora eu fosse a única que ainda trazia um lembrete visível no rosto, nada nunca mais foi o mesmo para nenhum de nós desde então. Muitas vidas foram modificadas naquela noite, muitos futuros foram reescritos.
"- Eu amo você, Emma - disse ele com ternura. - E sinto muito mesmo que você tenha tido que dizer primeiro. Eu não devia ter deixado que isso acontecesse. Mas, se serve de consolo, eu senti primeiro. E senti por muito, muito tempo."
Na volta da despedida de solteira, ela e suas amigas sofrem um acidente de carro e o surgimento de Jack, um completo estranho que ao se deparar com a cena corre em auxilio dos ocupantes do carro acidentado. Com o decorrer dos fatos pós acidente, vivi um momento de pura aflição, por causa de um sentimento de enorme empatia. Eu me vi no lugar da personagem, vivendo algo que só quem viveu em situação tão parecida pode entender e sentir. Mas a história é tão boa e o livro tão bem escrito que não queria abandonar, parei e fui perdi informações (não spoilers) pra quem tinha lido se a história seria só aquele momento. Não era.
“Seria de esperar que algum sinal, qualquer que fosse, marcasse o dia em que sua vida irá mudar.”
Felizmente. Contudo me colocou em xeque; várias coisas que eu não tinha me permitido parar para pensar, me vi com 34 anos e minha cota de drama e perdas na vida real, que se fossem num livro eu não gostaria de ler. Mas eu como quem sabe a dor da perda, do luto, vivo um dia de cada vez, porque a vida tem sempre um bom motivo pra continuar. Como num livro em que você é o autor e personagem precisa admitir o fato que não pode mudar o final. Não tem a opção reescrever.
"Deixei que o cabelo voltasse ao lugar enquanto o espelho captava e refletia uma imagem cintilante do meu anel de noivado banhado em um feixe de raios solares outonais. Na noite do acidente, era outro anel que eu usava, mas ele acabara no fundo de um despenhadeiro. Uma longa história. E, sob muitos aspectos, inadequada. Mas não tanto quanto me apaixonar por um estranho misterioso. Eu tinha lido todos os livros e revistas disponíveis sobre casamento, mas nenhum deles parecia tratar desta questão particularmente delicada: o que fazer quando, quinze dias antes do seu casamento, você de repente se vê apaixonada por dois homens?"
Perdão, perda, paciência.. a os "P"s da vida. Mas um boa constatação é notar que a vida sempre dá mais do que tira. E eu ganhei, ganhei muito nessa vida. Inclusive uma grande amiga que pacientemente me ouvia, enquanto eu desesperadamente tentava me convencer de que eu estava bem. Até o dia que vi que ela entendia meu desespero em dizer aquelas palavras. Depois percebi o quanto ela é importante pra mim quando num momento horrível me vi lingando pra ela, como se o fato dela me dizer, lamento, tornasse aquilo um pouco melhor.
"Este é o problema com a morte: não existe um guia de etiqueta sobre o que fazer em momentos dolorosos como a hora de dar condolências à alguém. Na verdade, ninguém sabe como reagir nem tampouco quer se aproximar demais da ferida aberta que é visível nos que ficam, como se aquilo pudesse ser contagioso."
E Emma de certo modo, também vive essa mesma experiência com Caroline, com as voltas de seu casamento adiado e de todas as repercussões do segredos que vão sendo revelados a medida que as consequências do pós acidente vão acontecendo e a presença cada vez mais forte de Jack. A dor que as unia poderia ser aquela que poderia dar fim a uma amizade da vida inteira, daquelas desde sempre. Ver isso de forma tão clara, e tão bem tratada no livro foi de certo modo muito revelador e esclarecedor de como a dor de fato pode nos cegar. O momento que Emma tem que perdoar e seguir em frente fez meu coração parar por um minuto, senti o mesmo frio e de certo modo o mesmo sentimento de paz, naquele adeus.
Carinho não se explica e nem se agradece, sou péssima em dizer adeus. Mas lendo esse livro entendi que ao menos aprendi deixar partir, seja pelo distanciamento em diferentes caminhos da vida ou seja pela separação da morte, mas a todos que amo sempre cuidarei enquanto quiserem estar comigo e aos que não quiserem serei grata pelo tempo que estivemos juntos. Quando chega o momento de Emma decidir entre Richard e Jack, não teve como não segurar as emoções enquanto o coração batia no peito. Mesmo tendo uma torcida descarada por Jack, chega um momento que escolher Richard não parece tão errado. Mas deixar Jack seria certo??
“Seria de esperar que algum sinal, qualquer que fosse, marcasse o dia em que sua vida irá mudar.”
Quando, ouvir única e exclusivamente o coração pode ser a atitude mais sensata e corajosa. Eu vi ao lado de Emma naquele momento torcendo única e exclusivamente por ela, como se juntas também tivéssemos nos tornado amigas enquanto o livro me mostrava como eu lidava com minhas próprias dores e escolhas. Mas nada, absolutamente nada em todo o livro me preparou pra o final dele. A surpresa foi inevitável e mesmo o final não ser o clichê que eu teria gostado tanto eu entendi porque de certo modo ele era tão certo pra esse livro e essa história. Boa leitura e divirta-se!
Ficha Técnica do Livro
- Título original: The Story of Us
- Autora: Dani Atkins
- Tradução: Raquel Zampil
- Editora: Arqueiro
- Páginas: 352 fls.
- Ano: 2016
+ Ler Sinopse
Emma tem 27 anos, é linda e inteligente e vive cercada de pessoas que ama.
Prestes a se casar com Richard, seu namorado desde a época de escola, ela
não poderia estar mais empolgada. Mas o que deveria ser o momento mais feliz
de sua vida de repente vira uma tragédia. Emma sofre um acidente e é salva
por um estranho minutos antes que o carro em que ela viajava explodisse.
Abalada, ela decide adiar o casamento. E nesse meio-tempo descobre segredos
que a fazem questionar as pessoas nas quais sempre confiara – a ponto de
duvidar se deve se casar afinal. Para complicar, ela se sente cada vez mais
ligada a Jack, o homem que a salvou e que não sai da sua cabeça. Jack é
lindo, gentil e divertido, de um jeito diferente de todos que ela já
conheceu. Por outro lado, é Richard quem ela sempre amou... Uma mulher, dois
homens, tantos destinos possíveis. Como essa história vai terminar?
Eu estava indecisa quanto ao cabelo: se o usaria preso ou solto. Então
pensei nas mãos dele deslizando por meus longos fios castanho-avermelhados,
enrolando-os em seus dedos e puxando-me para junto de si. Estava resolvido!
Deixei-o solto, caído sobre os ombros, como de costume. Antes de me livrar
do robe de seda, olhei para o espelho e de repente puxei a franja para trás,
afastando-a da testa e expondo uma leve cicatriz na linha do cabelo. Corri
um dedo sobre a pele branca e ligeiramente elevada e fechei os olhos por um
breve instante, rememorando como ela surgira ali. Aquela noite havia marcado
todos nós e, embora eu fosse a única que ainda trazia um lembrete visível no
rosto, nada nunca mais foi o mesmo para nenhum de nós desde então. Muitas
vidas foram modificadas naquela noite, muitos futuros foram reescritos.
Deixei que o cabelo voltasse ao lugar enquanto o espelho captava e refletia
uma imagem cintilante do meu anel de noivado banhado em um feixe de raios
solares outonais.
Na noite do acidente, era outro anel que eu usava, mas ele acabara no fundo
de um despenhadeiro. Uma longa história. E, sob muitos aspectos, inadequada.
Mas não tanto quanto me apaixonar por um estranho misterioso. Eu tinha lido
todos os livros e revistas disponíveis sobre casamento, mas nenhum deles
parecia tratar desta questão particularmente delicada: o que fazer quando,
quinze dias antes do seu casamento, você de repente se vê apaixonada por
dois homens?



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