Um livro maravilhoso, com um marcador perfeito que ganhei no Amigo Livro
ES, em sua 13ª edição, cortesia da Editora Pedrazul. Pamela, de Samuel Richardson, é uma obra epistolar publicada originalmente
no século XVIII e construída inteiramente por meio de cartas. Cada capítulo
corresponde a uma carta, e o tamanho de cada capítulo depende do conteúdo e
da extensão delas.
Mas existe uma particularidade interessante nessa estrutura: como muitas das
cartas de Pamela sequer chegam a ser enviadas e, portanto, não recebem
resposta ficamos durante grande parte da leitura presos à narrativa da
própria protagonista, às suas considerações, aos seus pensamentos, seus
medos e às suas tentativas de compreender tudo aquilo que está acontecendo
e talvez seja justamente isso que torne a leitura tão envolvente.
Pamela é uma jovem de origem humilde que, graças à bondade de uma senhora
rica, recebe educação e passa a trabalhar como criada. Após a morte de sua
protetora, o herdeiro da família, encantado por sua beleza, passa a
persegui-la com a intenção de transformá-la em sua amante só que Pamela não aceita.
Enquanto seu senhor tenta de todas as formas fazê-la ceder, acompanhamos as
inúmeras artimanhas, manipulações e truques de que um homem aristocrata
daquela época podia dispor para conseguir aquilo que desejava de uma mulher
socialmente inferior e praticamente sem proteção e essa é uma das partes
mais interessantes e incômodas da história.
A maior parte do livro é Pamela tentando escapar de um destino que lhe
parece inevitável. Ela espera o próximo ataque, a próxima tentativa, a
próxima armadilha. Planeja fugas, procura maneiras de se proteger e registra
tudo em suas cartas sua preocupação não é apenas preservar aquilo que ela
chama de virtude. É preservar o direito de decidir sobre o próprio corpo e
sobre o próprio futuro.
E, lendo hoje, é impossível não pensar no quanto essa questão continua atual
a obra deixa exposta toda uma estrutura social em que o poder masculino, a
posição econômica e a classe determinavam até mesmo o quanto uma mulher
poderia escolher sobre a própria vida.
O homem que deseja várias mulheres pode ser considerado viril e uma mulher
que age da mesma maneira é chamada de quê? É impossível não pensar nessas
diferenças enquanto se lê Pamela. Mesmo, que não considere uma atitude
correta nem pra um nem para outro sexo.
Talvez a história nos mostre que a roda da sociedade gire muito mais
lentamente do que a ciência e a tecnologia. Mudamos nossas ferramentas,
nossas máquinas, nossa forma de comunicação e tantos aspectos da vida
cotidiana. Mas algumas ideias, preconceitos e estruturas de poder parecem
muito mais resistentes ao tempo.
Depois de acompanhar durante boa parte do livro a perseguição de Pamela,
vemos uma transformação na atitude daquele que inicialmente aparece como seu
algoz. Aos poucos, suas intenções parecem mudar, e aquilo que começou como
uma tentativa de obter à força o objeto de seu desejo passa a caminhar para
uma possibilidade diferente de relacionamento.
Essa mudança é justamente uma das questões que tornam o livro tão
interessante para ser discutido. O que significa uma mudança de intenção
depois de alguém ter ultrapassado tantos limites? Até onde vai a
transformação de um homem acostumado a conseguir aquilo que deseja? E será
que uma intenção diferente é suficiente para apagar tudo o que aconteceu
antes? São perguntas que a leitura inevitavelmente provoca.
Pamela também é uma obra importante para compreender a literatura de sua
época. O romance, que tem como subtítulo A Virtude Recompensada, foi um dos
livros que influenciaram a tradição do romance epistolar e se tornou uma
referência para autores posteriores entre eles, uma das leitoras mais
conhecidas de Richardson: Jane Austen.
E, apesar de ser uma obra do século XVIII, a escrita de Richardson tem uma
capacidade curiosa de nos prender mesmo quando os sentimentos durante a
leitura poderiam nos levar a uma direção oposta.
Ficha Técnica do Livro
- Título original: Pamela; or, Virtue Rewarded
- Autor: Samuel Richardson
- Tradução: Rafael Tages
- Editora: Pedrazul
- Páginas: 392 fls.
- Ano: 2016
+ Ler Sinopse
Best-seller na Inglaterra! Uma obra epistolar, que traz uma heroína serva,
um elenco diversificado, no qual o vilão e o herói se misturam. Em plena
Inglaterra do século XVIII, um patrão aristocrata apaixona-se por uma serva
e cria várias situações para forçá-la a entregar sua pureza a ele. Ela,
contudo, luta para preservar sua virtude, o que o deixa ainda mais decidido
a conseguir o objeto de seu desejo. Uma atração que pode levá-la à ruína. A
obra que traz como subtítulo "A Virtude Recompensada" era de um dos autores
prediletos de Jane Austen.
Quer ler mais sobre Pamela? Pamela Andrews nasceu em uma família de
camponeses no interior da Inglaterra e seu pai, em algum momento da vida,
recebera instrução. Possuidora de grande beleza, Pamela foi vista por uma
rica e boa dama, que, com pena, retirou-a da pobreza dando a ela instrução.
No entanto, quando sua protetora morreu, o herdeiro que veio de Londres
ficou obcecado pela beleza da jovem e passou a cortejá-la para torná-la sua
amante. Para fugir dele, Pamela decide voltar para casa de seus pais, mas
suas cartas foram interceptadas. Sozinha e desprotegida, Pamela foi
implacavelmente perseguida pelo cavalheiro que tentava conquistá-la para
roubar sua virtude. Mas Pamela estava determinada a respeitar seus padrões
morais.




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