Estranho, nenhuma das resenhas que encontrei conseguiu me agradar de
verdade. Talvez porque seja um livro difícil de resumir apenas pela sua
história. Sim, o início é um tanto confuso, mas, pensando bem, a
personagem também está confusa. Brek Cuttler acorda sozinha em uma estação
de trem deserta, sem entender como chegou ali e sem saber sequer qual é o
destino daquela viagem.
Enquanto tenta recuperar a memória e entender o
que está acontecendo, o leitor vai descobrindo as coisas junto com ela.
E acho que é justamente aí que o livro começa a funcionar, o ritmo demora
um pouco para engrenar, mas apenas o suficiente para nos colocar dentro
daquele universo e, quando a história finalmente se revela, fica difícil
não querer entender onde tudo aquilo vai chegar. James Kimmel Jr. constrói
uma narrativa que mistura mistério, espiritualidade e questões jurídicas
para mexer com algumas das coisas mais arraigadas em nós: justiça, culpa,
perdão e julgamento.
Brek é uma advogada e, depois de descobrir que está morta, recebe uma
função bastante peculiar no pós-vida: defender almas durante o Julgamento
Final. A proposta já seria interessante por si só, mas o que torna a
história realmente instigante é perceber que a justiça daquele lugar não é
tão simples quanto imaginamos. Assim como acontece com as leis humanas,
existem lacunas, circunstâncias, histórias que não conhecemos e verdades
que podem mudar completamente a maneira como enxergamos alguém.
Foi impossível não pensar um pouco em 'As Cinco Pessoas que Você
Encontra no Céu', de Mitch Albom. Existe aqui também essa ideia de que
nossas vidas estão conectadas a outras vidas de maneiras que nem
sempre conseguimos perceber. Vivemos acreditando que conhecemos
determinada história, determinada pessoa ou determinado acontecimento,
mas enxergamos apenas uma pequena parte do quadro. E, quando julgamos
com base nessa visão incompleta, podemos cometer erros enormes.
O livro trabalha justamente com essa perspectiva. Até que ponto
conhecemos alguém antes de condená-lo? Até que ponto nossas escolhas,
aparentemente pequenas, interferem na vida de outras pessoas? E será
que uma pessoa pode ser definida pelos seus piores atos? Uma das
coisas que mais me chamou a atenção foi o exercício proposto aos
personagens, em que eles são colocados no lugar daqueles que
consideram seus algozes. É uma ideia muito poderosa porque nos obriga
a olhar para o outro lado da história.
Outro ponto que me tocou bastante foi a maneira como o livro coloca
lado a lado coisas aparentemente impossíveis de conciliar. O amor de
uma mãe e o seu extremo oposto, o ódio racial, entram pela mesma porta
para serem julgados por seus atos. E, nesse momento, a história deixa
de ser apenas sobre uma advogada tentando entender o próprio pós-vida
e passa a ser sobre nós mesmos e a maneira como escolhemos julgar os
outros.
O livro não é perfeito. O começo pode parecer confuso e o ritmo leva
um tempo para encontrar seu lugar. Mas, para mim, isso acabou
fazendo parte da experiência. Conforme Brek vai descobrindo o que
aconteceu e entendendo seu papel naquele novo mundo, nós também
vamos reorganizando aquilo que achávamos que sabíamos.
No fim, fica uma história emocionante, cheia de mistério e com uma
proposta que vai muito além do simples julgamento entre céu e
inferno. É uma reflexão sobre culpa, misericórdia, amor, perdão e
sobre o quanto nossas certezas podem ser frágeis quando não
conhecemos a história inteira. Super recomendo a leitura. É
daqueles livros que, além de contar uma história, fazem a gente
parar por alguns minutos depois de fechar a última página. Obrigada Jaqueline adorei😘💕
Ficha Técnica do Livro
- Título original: The Trial of Fallen Angels
- Autor: James Kimmel Jr.
- Tradução: Alice Klesck
- Editora: LeYa
- Páginas: 320 fls.
+ Ler Sinopse
O julgamento que mudará a sua vida, ou melhor, a sua pós-vida... A jovem
advogada Brek Cuttler está sentada sozinha no banco de madeira de uma
estação de trem deserta. Não se lembra como chegou lá, muito menos qual é o
destino final de sua viagem. Em pouco tempo, Brek descobrirá que, na
verdade, está morta...
Isso provocará mais perguntas que respostas: o que provocou sua morte? Como
aceitar a irrevogabilidade da morte que representa o afastamento de sua
família e de todas as pessoas que ama? Pode a justiça divina apresentar
tantas incongruências quanto às leis humanas? Mais do que isso, ela
descobrirá que foi escolhida para integrar o seleto e talentoso grupo de
advogados defensores das almas durante o Julgamento Final, onde se determina
se o réu passará o restante da eternidade no céu ou no inferno...




.png)
.png)


Nenhum comentário:
Postar um comentário