Há livros que atravessam gerações sem perder a capacidade de nos surpreender. Livros que chegam até nós carregando a fama de grandes clássicos, mas que, quando finalmente abrimos suas páginas, podem revelar personagens, sentimentos e conflitos que continuarão muito vivos.
É com esse espírito que vamos embarcar em nossa próxima Leitura Compartilhada: Jane Eyre, de Charlotte Brontë.
Entre 10 de setembro e 14 de novembro de 2018, vamos acompanhar Jane em sua trajetória e, página após página, descobrir uma personagem que precisará aprender muito cedo a encontrar sua própria voz.
Então prepare o chá, acomode-se e venha conversar conosco sobre uma das personagens mais marcantes da literatura inglesa.
🖋️ Sobre a autoria
Charlotte Brontë nasceu em Thornton, Yorkshire, em 21 de abril de 1816. Terceira filha do reverendo Patrick Brontë, ela cresceu ao lado das irmãs Emily e Anne e do irmão Branwell, em Haworth, no norte da Inglaterra. As três irmãs se tornariam nomes fundamentais da literatura mundial.
Charlotte conhecerá desde cedo tanto as limitações impostas às mulheres quanto a necessidade de trabalhar para sobreviver. Será professora e governanta, experiências que contribuirão para sua compreensão das condições de vida e das expectativas sociais dirigidas às mulheres de seu tempo.
Quando publicar Jane Eyre, em 1847, Charlotte não assinará o livro com seu próprio nome. Sob o pseudônimo Currer Bell, dará a Jane uma voz íntima, apaixonada e muito pouco disposta a aceitar o lugar que a sociedade terá reservado para uma mulher.
A escolha do pseudônimo não será casual. Charlotte terá consciência do preconceito enfrentado pelas mulheres escritoras e temerá que o fato de ser mulher interfira na maneira como sua obra será recebida.
E haverá uma pequena curiosidade deliciosa nessa história: Currer, Ellis e Acton Bell serão os pseudônimos usados pelas três irmãs Brontë para publicar seus primeiros trabalhos. Charlotte será Currer, Emily será Ellis e Anne será Acton.
Charlotte morrerá relativamente jovem, em 31 de março de 1855, mas deixará uma obra que ultrapassará em muito o curto período de sua vida. Além de Jane Eyre, publicará Shirley e Villette. Seu primeiro romance, The Professor, será publicado postumamente.
📖 A obra e seu contexto
Publicado originalmente em 1847, Jane Eyre chegará aos leitores com o título Jane Eyre: An Autobiography, apresentado como uma autobiografia editada por Currer Bell. A primeira edição será publicada em três volumes pela Smith, Elder & Co., em Londres.
A história acompanhará Jane desde a infância até a vida adulta. Órfã, criada em um ambiente familiar pouco acolhedor e posteriormente enviada para um rígido internato, ela encontrará na educação uma possibilidade de construir uma vida diferente daquela que parecerá destinada a ela.
Já adulta, Jane se tornará governanta de Adèle, protegida de Edward Rochester, proprietário de Thornfield Hall. A convivência entre os dois se transformará em uma relação marcada por atração, conflitos, diferenças sociais e segredos.
Mas reduzir Jane Eyre a uma história de amor será perder justamente uma das maiores riquezas do romance.
Jane desejará amar, mas também desejará ser respeitada. Ela quererá trabalhar, pensar, escolher e ter autonomia. E será justamente essa combinação entre sentimento e independência que poderá fazer com que sua trajetória continue despertando tantas conversas.
“Jane Eyre” será, ao mesmo tempo, romance de formação, história de amor e narrativa gótica, construída em torno da jornada de uma mulher que se recusará a desaparecer dentro das expectativas dos outros.
A obra pertencerá ao contexto da Inglaterra vitoriana, período marcado por profundas transformações sociais e econômicas. A posição das mulheres, as diferenças de classe, a educação, o trabalho feminino e as convenções morais estarão incorporados à narrativa.
A própria profissão de governanta ocupará uma posição bastante peculiar naquela sociedade: a mulher que exercer esse trabalho possuirá educação suficiente para circular entre famílias abastadas, mas não necessariamente terá o dinheiro ou o status social que lhe permitirão pertencer àquele mesmo mundo.
E talvez seja justamente aí que Jane se tornará tão interessante. Ela estará constantemente entre lugares, classes e expectativas, tentando descobrir onde poderá existir sem abrir mão de quem é.
🕰️ Recepção crítica: ontem e hoje
Quando Jane Eyre chegar às livrarias, sua recepção será intensa e contraditória. Haverá críticos que reconhecerão imediatamente a força da narrativa e outros que ficarão profundamente incomodados com a personalidade de Jane, sua independência e aquilo que considerarão uma postura inadequadamente rebelde para uma mulher.
A autora, ainda escondida atrás de Currer Bell, acompanhará atentamente as críticas. Em uma carta aos editores, Charlotte registrará que os jornais falarão favoravelmente do romance e demonstrará satisfação com a recepção que a obra estará recebendo.
O problema estará justamente na dificuldade de muitos leitores e críticos em aceitar a possibilidade de uma mulher ter escrito uma narrativa tão intensa e uma protagonista tão pouco conformada. Alguns chegarão a imaginar que Currer Bell será um homem.
A crítica conservadora de Elizabeth Rigby, publicada posteriormente na Quarterly Review, atacará justamente o caráter considerado rebelde e inadequadamente feminino do romance.
Essa reação dirá tanto sobre a época quanto sobre o livro.
Jane não será uma heroína que simplesmente esperará ser escolhida. Ela trabalhará, desejará, argumentará, sofrerá, errará e estabelecerá limites. Sua busca por igualdade e respeito dentro de uma sociedade que oferecerá às mulheres poucas possibilidades de autonomia ajudará a fazer de Jane Eyre uma obra especialmente provocadora.
Mais de um século e meio depois, a discussão continuará.
Hoje, o romance será frequentemente estudado sob perspectivas relacionadas à autonomia feminina, às relações de poder, à classe social, à religião, ao trabalho e à representação da mulher. A crítica contemporânea também questionará leituras excessivamente simples que transformarão Jane em uma espécie de personagem feminista moderna, lembrando que sua história nascerá de um contexto social e jurídico muito diferente do nosso.
Também surgirão novas leituras de personagens e relações que antes serão tratadas de maneira mais convencional. Estudos contemporâneos, por exemplo, analisarão as relações de poder entre Jane e Rochester e investigarão aspectos de controle e abuso presentes na narrativa.
É justamente essa possibilidade de continuar abrindo novas perguntas que manterá Jane Eyre tão presente.
Talvez um dos maiores encantos de um clássico seja descobrir que o livro mudou menos do que nós.
A cada geração, Jane encontrará novos leitores. E cada leitor chegará a Thornfield Hall carregando suas próprias experiências, fazendo perguntas diferentes e enxergando outros detalhes.
Por isso, mais do que simplesmente reler uma história de amor, nossa proposta será voltar a um livro que há muito tempo conversa com questões que ainda não conseguimos encerrar.
🔎 Fontes pesquisadas
Para a elaboração das informações sobre a autora, a obra, seu contexto e sua recepção crítica, serão consultados materiais da British Library, registros bibliográficos relacionados a Jane Eyre e estudos acadêmicos sobre a recepção vitoriana e o legado contemporâneo do romance.
Ficha Técnica do Livro
- Título original: Jane Eyre
- Autora: Charlotte Brontë
- Tradução: Adriana Lisboa
- Editora: Clássicos Zahar
- Páginas: 750 fls.
- Ano: 2018
+ Ler Sinopse
🗓️ Cronograma e dinâmica da leitura
Nossa Leitura Compartilhada começará em 10 de setembro de 2018 e seguirá até 14 de novembro de 2018.
Durante esse período, vamos acompanhar Jane em sua jornada, conversar sobre os acontecimentos da história e compartilhar nossas impressões ao longo das páginas.
A proposta será justamente transformar a leitura individual em uma experiência coletiva. Cada pessoa poderá chegar à conversa com suas próprias expectativas, descobertas, dúvidas e, quem sabe, algumas opiniões completamente diferentes das dos demais leitores.
Porque uma leitura compartilhada poderá ser muito mais do que simplesmente chegar à última página. Será também a oportunidade de descobrir como cada leitor enxergará um mesmo livro.
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Se você ainda não conhece Jane, esta poderá ser uma ótima oportunidade para descobrir por que a jovem órfã que precisará lutar para conquistar seu espaço no mundo se tornará uma das personagens mais lembradas da literatura.
Vamos abrir o livro, preparar o chá e descobrir juntos o que encontraremos em Thornfield Hall.
Boa leitura e boa conversa!



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