Há livros que parecem feitos para serem lidos devagar, entre uma xícara de chá e uma boa conversa. Emma, de Jane Austen, é certamente um deles.
Nesta Leitura Compartilhada, vamos conhecer Emma Woodhouse, acompanhar suas certezas, seus enganos e suas tentativas bastante particulares de organizar a vida amorosa de quem está ao seu redor. E, entre visitas, conversas, bailes, pequenas intrigas e grandes equívocos, talvez descubramos que Jane Austen tinha muito mais a dizer sobre nós do que uma história de amor aparentemente tranquila poderia sugerir.
Prepare o chá, escolha seu cantinho favorito e venha para Highbury.
🖋️ Sobre Jane Austen
Jane Austen nasceu em 16 de dezembro de 1775, em Steventon, Hampshire, filha de um clérigo anglicano e uma das oito crianças da família. Começou a escrever ainda jovem e viveu em uma época em que a literatura publicada por mulheres enfrentava limitações e expectativas bastante específicas.
Seus romances nasceram justamente desse universo aparentemente pequeno das famílias, das visitas, dos casamentos e das relações sociais. Mas é dentro desses espaços que Austen encontra um material literário extraordinariamente rico: dinheiro, classe social, educação, expectativas sobre as mulheres, casamento, reputação e, sobretudo, a maneira como as pessoas enxergam umas às outras.
Austen publicou seus romances anonimamente durante a vida. Razão e sensibilidade, seu primeiro romance publicado, surgiu em 1811 identificado apenas como escrito "por uma dama". Orgulho e preconceito, Mansfield Park e Emma vieram depois. Somente após sua morte, em 1817, Persuasão e A Abadia de Northanger foram publicados sob seu nome.
A autora morreu aos 41 anos, em julho de 1817, deixando seis romances completos que atravessaram dois séculos e continuam sendo lidos, discutidos e adaptados em diferentes partes do mundo.
E talvez uma das melhores maneiras de compreender seu talento seja lembrar que, em seus livros, quase nada precisa acontecer em escala grandiosa para que tudo seja importante. Uma visita, uma conversa ou uma escolha aparentemente banal pode revelar uma sociedade inteira.
📖 A obra e seu contexto
Publicado em dezembro de 1815 pela editora John Murray, Emma foi o quarto romance publicado por Jane Austen. A página de rosto trazia a data de 1816, embora o livro tenha chegado ao público ainda em dezembro de 1815.
A história se passa principalmente em Highbury, uma comunidade rural fictícia de Surrey, e acompanha Emma Woodhouse, uma jovem bonita, inteligente, rica e bastante satisfeita consigo mesma.
Emma não tem qualquer pressa para se casar. Afinal, possui uma vida confortável, um pai a quem é muito ligada e uma posição social privilegiada. Existe, porém, uma atividade que lhe interessa particularmente: interferir na vida amorosa das outras pessoas.
Depois de acreditar que teve sucesso ao aproximar sua antiga governanta, Miss Taylor, de Mr. Weston, Emma decide que encontrou sua verdadeira vocação: ser casamenteira. Sua nova amiga, Harriet Smith, rapidamente se transforma em seu principal projeto. O problema é que Emma é muito mais segura de seu próprio julgamento do que deveria ser.
"Uma heroína que ninguém, exceto eu mesma, vai gostar muito."
A famosa observação atribuída à própria Austen antes de escrever o romance já funciona como uma pequena provocação. Emma não foi criada para ser uma heroína perfeita. Pelo contrário: sua vaidade, sua posição social e sua confiança exagerada em suas próprias interpretações fazem parte daquilo que torna sua trajetória tão interessante.
Por trás das conversas sobre casamento e das pequenas movimentações sociais, Austen observa uma sociedade em que o casamento estava profundamente ligado à segurança econômica e à posição social das mulheres. As possibilidades de escolha feminina eram limitadas, e relações, reputações e patrimônios estavam constantemente entrelaçados.
Escrito entre janeiro de 1814 e março de 1815, Emma pertence ao período da Regência inglesa, marcado por transformações sociais e políticas importantes. Austen, porém, não precisa transformar seu romance em uma narrativa histórica para registrar seu tempo. Ela faz isso observando as pessoas: quem pode escolher, quem precisa aceitar, quem é ouvido, quem é ignorado e quem acredita saber mais do que realmente sabe.
🕰️ Recepção crítica: ontem e hoje
Quando Emma chegou aos leitores, Jane Austen já não era uma autora desconhecida para o público leitor, embora sua identidade ainda permanecesse protegida pelo anonimato.
A recepção crítica de Austen durante sua vida foi relativamente pequena. Os romances eram apreciados, mas as resenhas eram poucas e frequentemente se concentravam mais nas lições morais das histórias do que em sua importância literária. Emma, contudo, recebeu uma atenção especial de um dos grandes escritores de seu tempo.
A resenha publicada anonimamente na Quarterly Review, geralmente atribuída a Sir Walter Scott, destacou justamente uma característica que hoje reconhecemos como uma das maiores forças de Austen: sua capacidade de transformar acontecimentos cotidianos em matéria literária.
Scott observou que Austen permanecia próxima dos acontecimentos e personagens da vida comum. Em vez de depender de aventuras extraordinárias, Emma encontrava sua força na observação precisa das relações humanas. A própria Austen considerou a resenha suficientemente favorável para não ter motivos de queixa, embora tenha lamentado que o crítico não tivesse mencionado Mansfield Park.
Mas a história de Emma não terminou com seus primeiros leitores.
Ao longo dos séculos XX e XXI, o romance passou a ser analisado por diferentes perspectivas. Hoje, podemos conversar sobre Emma pensando não apenas no romance e no casamento, mas também em classe social, gênero, autonomia, responsabilidade, autoconhecimento, preconceitos e na maneira como nossas próprias convicções podem distorcer aquilo que enxergamos.
A crítica feminista, por exemplo, abriu novas possibilidades de leitura da obra de Austen, questionando tanto as limitações impostas às mulheres de seu tempo quanto a maneira como suas personagens negociam essas limitações. Em Emma, essa discussão se torna especialmente interessante porque a protagonista possui uma autonomia incomum para uma mulher de sua posição, ao mesmo tempo em que precisa confrontar seus próprios privilégios e preconceitos.
Talvez seja justamente essa capacidade de provocar leituras diferentes que explique a permanência do romance. Emma pode ser divertida, irritante, encantadora e equivocada. Podemos rir de suas certezas e, algumas páginas depois, perceber que talvez nós também estejamos cometendo julgamentos precipitados.
E essa é uma das pequenas armadilhas deliciosas de Jane Austen: quando pensamos que estamos apenas observando Emma, talvez seja a nós mesmos que estamos examinando.
🔎 Fontes de pesquisa
Para esta apresentação, foram consultados materiais da British Library, Morgan Library & Museum, Oxford Academic, Cambridge University Press, Jane Austen Society of North America e estudos acadêmicos brasileiros sobre a recepção crítica e o universo feminino na obra de Austen.
Ficha Técnica do Livro
- Título original: Emma
- Autora: Jane Austen
- Tradução: Rodrigo Breunig
- Editora: L&PM Pocket
- Páginas: 600 fls.
- Ano: 2015
+ Ler Sinopse
Neste que é o romance austeniano por excelência, temos as qualidades magistrais que transformariam seus livros em grandes clássicos da literatura universal: a leveza perspicaz da comédia de costumes, a voz narrativa única, a engrenagem primorosa do enredo, a comicidade dos diálogos e a observação arguta sobre o espaço da mulher num mundo masculino.
🗓️ Cronograma da nossa leitura
Nossa viagem até Highbury aconteceu entre 12 de novembro de 2018 e 13 de janeiro de 2019.
Foram dois meses para acompanhar Emma em suas certezas e enganos, conhecer melhor os moradores de Highbury e, claro, conversar sobre tudo aquilo que Jane Austen coloca nas entrelinhas.
Porque uma leitura compartilhada nunca é somente sobre terminar um livro. É sobre descobrir como a mesma história pode provocar risadas, irritação, identificação, discordância e aquela vontade irresistível de dizer para outra pessoa: "Você também percebeu isso?"
💬 Espaço para a conversa: Grupo de leitura no WhatsApp
Talvez Emma seja uma leitura perfeita para um clube porque, por trás de toda a elegância dos salões, dos passeios e das conversas cuidadosamente escolhidas, existe uma pergunta bastante humana:
Quanto realmente conhecemos as pessoas que julgamos conhecer tão bem?
Então, antes de abrir o livro, prepare o chá.
E, quando Emma começar a fazer suas previsões sobre os corações alheios, talvez seja melhor não confiar demais nas certezas dela. Nem nas nossas.



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