Tal qual herói era dos homens o menos provável, sob o julgamento dos homens. Quem teria fé em um desertor que carrega no corpo a marca de suas mortes, nos sonhos o horror do sangue da guerra e no coração o peso de suas culpas?
'Monge Guerreiro', de Romulo Felippe, é um livro de fantasia que pousa na realidade da Idade das Trevas para contar uma jornada de fé, guerra e busca pela redenção da alma. Em meio a batalhas, conflitos, criaturas míticas e acontecimentos que se aproximam da história, acompanhamos homens que precisam enfrentar não somente os inimigos que estão diante deles, mas também aqueles que carregam dentro de si.
A história começa em um cenário de tensão. Na península de Veneza, o céu está tingido de rubro, o calor emana das águas do Adriático e dezenas de milhares de soldados ocupam as ruas estreitas da cidade. Arqueiros e lanceiros estão preparados, as muralhas são guarnecidas e pontes, canais e praças se transformam em pontos estratégicos de defesa. Todos esperam pela chegada da besta.
É nesse cenário que conhecemos o Monge Guerreiro, um homem marcado pela guerra, pela culpa e pelas lembranças daqueles que morreram pelas suas mãos. Um soldado que recebeu ordens e as cumpriu, mas que agora precisa lidar com as marcas deixadas por suas escolhas. Sua espada não é apenas uma arma. Ela também representa tudo aquilo que ele precisa enfrentar em sua própria caminhada.
Nada nessa história parece estar ali por acaso. Os acontecimentos históricos se misturam à fantasia e à presença de seres míticos, criando uma narrativa que consegue transitar entre aquilo que reconhecemos como realidade e aquilo que pertence ao fantástico. É justamente nessa mistura que o livro encontra sua força. Algumas escolhas do autor também são muito bem-vindas por fugirem de determinados clichês. É o caso da 'noitelonga' e, principalmente, da princesa que, diante das escolhas que lhe são oferecidas, decide lutar pela própria liberdade e mesmo sabendo o preço que precisará pagar por essa escolha, ela não hesita.
Esse é um dos pontos que mais me chamou a atenção durante a leitura. Os personagens não são apresentados apenas como peças de uma grande batalha. Cada um carrega suas próprias escolhas, seus medos, suas dores e suas consequências. E talvez seja justamente por isso que a jornada do Monge Bastian Neville consiga encontrar espaço para falar também sobre nós. Assim como na jornada de Neville, enquanto jovens vivemos sob a proteção da casa de nossos pais. Crescer nos coloca diante da vida adulta, quando nossos erros passam a ser somente nossos e os acertos parecem ser apenas parte da obrigação de seguir caminhando. As dificuldades se transformam em gigantes que querem nos destruir e, muitas vezes, evocar a nossa fé pode ser o maior diferencial entre cair e encontrar forças para levantar e seguir adiante.
O inimigo pode se esconder justamente onde deveria existir acolhida. O amor pode ser ainda mais poderoso que a nossa própria vontade, oferecido sem exigir, mas também cobrando seu preço quando aceito. E cada personagem parece carregar sua própria cruz, seguindo adiante pela fé e pela certeza de que, mesmo nos momentos mais difíceis, não está sozinho.
Os tormentos que assombram a mente do Monge Neville remontam às suas cicatrizes internas. São marcas de uma vida que não pode ser simplesmente apagada. Durante a jornada, porém, vamos conhecendo pouco a pouco o coração desse guerreiro da fé e da espada. E é junto com ele que atravessamos essa fronteira entre a realidade e o fantástico. Aos poucos, o sobrenatural ganha espaço, as criaturas míticas deixam de ser apenas elementos de uma fantasia e passam a fazer parte de uma jornada que fala sobre culpa, escolhas, fé, liberdade e redenção.
'Monge Guerreiro' é uma história épica, mas também é uma história sobre homens tentando encontrar um caminho depois de terem se perdido. É sobre aquilo que carregamos, sobre as batalhas que ninguém vê e sobre a possibilidade de recomeçar mesmo quando acreditamos que já fomos longe demais. Da primeira à última página, a jornada de Bastian Neville nos conduz por guerras, perigos e acontecimentos fantásticos, mas também nos coloca diante de perguntas muito humanas.
Talvez seja justamente aí que esteja a força dessa história. Porque, por trás do monge que carrega uma espada, existe um homem tentando vencer suas próprias guerras. E, de alguma maneira, quando acompanhamos sua caminhada, percebemos que também carregamos as nossas. Uma leitura para quem gosta de fantasia, batalhas, elementos sobrenaturais e personagens marcados por grandes conflitos, mas também para quem acredita que toda jornada, por mais difícil que seja, pode esconder uma possibilidade de redenção.
Ficha Técnica do Livro
- Autor: Romulo Felippe
- Editora: Cavaleiro Negro
- Páginas: 416 fls.





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