Há livros que chegam até nós como uma história e, depois de algumas páginas, já parecem uma casa conhecida. Anne de Green Gables é um desses livros.
Para esta Leitura Compartilhada, vamos atravessar as estradas de Avonlea, conhecer Green Gables, acompanhar uma menina ruiva de imaginação inesgotável e descobrir, juntos, por que Anne Shirley continua conquistando leitores de diferentes idades e gerações.
Prepare o chá, escolha um cantinho confortável e venha conversar sobre livros, personagens, sonhos e todas aquelas pequenas coisas que fazem uma história permanecer conosco muito depois de terminada.
“É maravilhoso quando encontramos pessoas que pensam como nós.”
🖋️ Sobre a autora
Lucy Maud Montgomery nasceu em 30 de novembro de 1874, em Clifton, na Ilha do Príncipe Eduardo, Canadá. Depois da morte de sua mãe, quando ainda era muito pequena, foi criada pelos avós maternos em Cavendish, região que mais tarde se transformaria, na ficção, em parte do universo de Avonlea.
A infância cercada pela natureza, pelos livros e pela própria imaginação deixou marcas profundas em sua escrita. Montgomery começou a escrever muito cedo e publicou seu primeiro poema aos quinze anos. Antes de se tornar romancista, trabalhou como professora e também estudou na Prince of Wales College e na Dalhousie University.
Foi em 1908, porém, que sua vida mudou definitivamente com a publicação de Anne of Green Gables, seu primeiro romance. A história fez de Montgomery uma autora conhecida internacionalmente e deu origem a uma extensa produção literária, incluindo outras histórias de Anne Shirley e diferentes séries e romances independentes.
Ao longo da carreira, Montgomery publicou vinte romances, além de numerosos contos, poemas, artigos e textos autobiográficos. Sua relação com a escrita também ficou registrada em seus diários, que hoje são importantes fontes para compreender tanto sua vida quanto o contexto de sua obra.
Há ainda uma dessas pequenas coincidências literárias que tornam a história da autora ainda mais bonita: muitos dos lugares que marcaram sua infância, como os caminhos, bosques e paisagens de Cavendish, ajudaram a formar o cenário imaginário de Anne.
Green Gables, afinal, nasceu de uma paisagem que Montgomery conhecia intimamente.
📖 A obra e seu contexto
Publicado originalmente em 1908, Anne of Green Gables conta a história de Anne Shirley, uma órfã enviada por engano para a fazenda Green Gables, onde os irmãos Matthew e Marilla Cuthbert esperavam receber um menino que pudesse ajudá-los nos trabalhos da propriedade.
O engano poderia ter sido apenas um problema a ser corrigido. Mas Anne chega carregando muito mais do que seus poucos pertences: leva consigo uma imaginação extraordinária, uma maneira muito própria de enxergar o mundo e uma enorme vontade de finalmente pertencer a algum lugar.
É assim que a menina ruiva começa a transformar a vida dos Cuthbert e, aos poucos, também a pequena comunidade de Avonlea. Entre amizades, rivalidades, travessuras, descobertas e sonhos, Anne cresce em uma paisagem marcada pela natureza e pelas relações de uma pequena comunidade rural da Ilha do Príncipe Eduardo.
A história se passa no final do século XIX, em um ambiente rural canadense que Montgomery conhecia de perto. Avonlea é uma criação ficcional, mas muitos de seus elementos têm raízes na experiência da autora em Cavendish. A própria Parks Canada destaca a influência das fazendas, do litoral, dos caminhos e da vida comunitária da região sobre a imaginação de Montgomery.
O romance surgiu em um período especialmente fértil para a literatura destinada a crianças e jovens. Anne of Green Gables foi publicado no mesmo contexto de outras obras que se tornariam clássicos da literatura infantojuvenil, mas sua protagonista tinha algo particular: Anne era imaginativa, falante, ambiciosa nos estudos, apaixonada por palavras e pouco disposta a caber tranquilamente nas expectativas que recaíam sobre uma menina.
Anne não é apenas uma criança vivendo aventuras. Ela é uma personagem tentando descobrir quem pode ser em um mundo que constantemente lhe diz quem deveria ser.
🕰️ Recepção crítica: ontem e hoje
Anne of Green Gables foi recebido com enorme entusiasmo pelo público logo após sua publicação. Montgomery chegou a se surpreender com a quantidade de críticas favoráveis que recebeu. Em setembro de 1908, registrou que havia recebido cerca de sessenta avaliações: a grande maioria era elogiosa, enquanto apenas algumas eram duras ou negativas.
As críticas positivas destacavam especialmente a personalidade de Anne, a sensibilidade da autora para retratar a infância e a capacidade de transformar uma história aparentemente simples da vida rural em uma narrativa encantadora.
O The Globe, de Toronto, chegou a afirmar que o livro seria lembrado e relido quando histórias mais pretensiosas já tivessem sido esquecidas. Outros jornais canadenses, britânicos e norte-americanos também reconheceram o encanto da obra.
Poucos meses depois de sua publicação, o livro já estava em sucessivas impressões e havia se tornado um best-seller. A própria Montgomery registrou em seus escritos a incredulidade diante do sucesso daquela que considerava uma história simples sobre uma comunidade rural da Ilha do Príncipe Eduardo.
Nem toda a crítica, entretanto, foi favorável. A recepção inicial incluiu avaliações negativas, inclusive uma resenha bastante dura publicada pelo New York Times Saturday Review. Ainda assim, essas vozes não impediram que Anne conquistasse leitores e se estabelecesse rapidamente como um fenômeno editorial.
Mais de um século depois, Anne de Green Gables deixou de ser apenas um sucesso editorial para se tornar um clássico da literatura canadense e da literatura juvenil mundial. A obra continua sendo publicada, traduzida, estudada e adaptada. Segundo o governo canadense, o livro já ultrapassou a marca de 50 milhões de exemplares vendidos mundialmente e foi traduzido para 36 idiomas.
E talvez o mais interessante seja perceber que as leituras contemporâneas encontram em Anne questões que ultrapassam a ideia de uma simples história infantil. Pesquisas acadêmicas têm discutido, por exemplo, a relação da protagonista com as expectativas sociais impostas às meninas e a maneira como sua personalidade questiona modelos femininos baseados exclusivamente na docilidade, no espaço doméstico e na obediência. Um estudo brasileiro sobre a obra observa justamente esse caráter de ruptura da personagem em relação ao modelo feminino esperado no contexto em que a história foi produzida.
Porque podemos voltar a Green Gables em diferentes momentos da vida e encontrar uma Anne diferente. Às vezes enxergamos a criança que quer ser aceita. Em outras, a menina que deseja estudar, fazer amizades, ser reconhecida e imaginar possibilidades para o próprio futuro. E, quem sabe, também reconhecemos um pouco de nós mesmos naquela garota que aprendeu que imaginar um mundo melhor pode ser o primeiro passo para encontrar um lugar nele.
🔎 Fontes de pesquisa
Para a elaboração dos textos sobre L. M. Montgomery, o contexto de Anne of Green Gables e sua recepção crítica, foram consultadas fontes como o Parks Canada, o L. M. Montgomery Institute, o Dictionary of Canadian Biography, o projeto acadêmico L. M. Montgomery Online, estudos disponibilizados pelo JSTOR e pesquisa acadêmica brasileira publicada na revista Travessias Interativas.
🗓️ Cronograma e dinâmica da leitura
Nossa viagem para Green Gables acontecerá entre 24 de junho e 28 de julho de 2019.
Durante esse período, vamos ler Anne de Green Gables com calma, respeitando o ritmo de cada leitora e, principalmente, deixando espaço para conversar sobre aquilo que a história desperte em cada um. Porque uma Leitura Compartilhada não precisa ser apenas sobre chegar ao final do livro.
É sobre dividir descobertas, comentar aquela cena que nos fez sorrir, reclamar daquele personagem que nos tirou do sério, perceber detalhes que talvez tivessem passado despercebidos e descobrir que uma mesma história pode morar de maneiras completamente diferentes em cada leitor.
📚 Período da leitura: 24 de junho a 28 de julho de 2019
💬 Grupo de conversa: Participar da conversa sobre a leitura
Ficha Técnica do Livro
- Título original: Anne of Green Gables
- Autora: Lucy Maud Montgomery
- Série: Anne de Green Gables #1
- Tradução: Tully Ehlers
- Editora: Pedrazul
- Páginas: 236 fls.
- Ano: 2018
+ Ler Sinopse
Talvez seja justamente isso que Anne nos ensine: há lugares que começam como sonho, mas se tornam casa quando encontramos pessoas com quem podemos compartilhá-los. 🍂
E Green Gables, de alguma maneira, continua sendo um desses lugares. Boa leitura!



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