Olá, leitor (a), trago minhas impressões da leitura de
Título pra quê?, da autora Sarah Camilo. Esse
livro é um conjunto de poemas, contos e crônicas que te convidam a refletir,
pensar e caminhar junto com a personagem que é o fio condutor dos
textos.
"Pois é! Agora você é só uma lembrança. Até que uma lembrança bonita. Tudo é passageiro, até mesmo a própria lembrança."
Gostei da metáfora do deserto que é usada nesse livro nos textos
“Os perigos do deserto”
e
“Surtei!”, para se referir a uma caminhada, em um momento da vida. Porque, por mais
que não sejamos sozinhos, nossa vida é sempre decidida por unicamente nossas
opções, escolhas e, claro, as consequências do que fazemos.
Nos primeiros textos, somos levados a um olhar sobre a solidão, em um
primeiro momento de outrem, depois de nossa protagonista e pôr fim a nossa
própria. E onde mais uma figura sozinha seria tão absurdamente solitária que
em meios às terras áridas do deserto? Onde mais observaríamos e teceríamos
suposições e teorias sobre aquela pessoa, que a observando ali?
E assim nos deparamos com o silêncio, a ausência da voz que entoa
palavras e dão vazão às sensações, emoções e pensamentos e, nesse mesmo
contexto de solidão e silêncio, o convite a relembrar o passado, e ver nas
areias do caminho as mesmas que marcam o tempo na ampulheta da vida. O
passado, tão sedutor quando o presente não é belo e todo sorrisos. Que nos
cativa com a memória do que perdemos e que relembra que o tempo é breve como
a vida e quantas surpresas relembrar nos reserva, como em:
“Se cair, Levanta!",
"Terceira Série"
e
"Pai, Meu Pai".
"Só eu. Só você e mais ninguém. Nenhum pedacinho de papel, nenhuma tinta, nenhuma palavra e nada para escrever. Só há o silêncio."
Nessa caminhada vemos em nós as mudanças, as transições e as passagens que
sofremos ao longo dos dias, e nesse caminhar solitário observamos o nascer
do dia, as manhãs, tardes e noites. Que mesmo a Terra é obrigada a se mover,
mudar, transitar entre as mudanças da passagem do tempo. E no momento que as
decisões são tomadas, as escolhas e renúncias feitas, construímos a forma de
nosso presente. Levados a escolher pelo passado e moldando de forma
definitiva nosso futuro, até mudarmos de decisão e fazermos novas
renúncias.
"Foi muito bom viver aquele momento, jamais esquecerei. Anseio por outros melhores. A vida é curta e nenhuma tecnologia acompanha a sua velocidade."
Foi marcante no texto o anseio, o desejo e o completo
desespero pela liberdade. Mesmo em meio ao nada do deserto, entre a
areia nos pés e o sol no céu, o desejo por ser livre é várias vezes trazido
à tona nos textos. Mas sem dúvida me marcou o encontro de pensamento entre
os textos
“Vestida de liberdade”
e a crônica em duas partes de
“Para o dia Nascer Feliz / Escolhas”.
Assim em contos que trazem sentimentos, poemas de empoderamento, liberdade,
feminismo, homofobia, violência, depressão, tristeza e amor; e crônicas
sobre a vida em sociedade e política como pessoa que vive em meio a outras,
fazemos a jornada através do deserto até nos encontrar as portas com a
felicidade. Aquela que habita o viver e não apenas existir. Do dar sem
esperar receber e ser grato pelo que se tem e não pelo que deixou de
ter.
"Cuidado com a palavra nunca é demais. Nunca. Assim como nós, a palavra é um organismo VIVO, ela também pode matar, mas também vivifica."
Durante a leitura vemos as influências da autora durante o texto, como
Clarice Lispector, Legião Urbana, Cazuza, Engenheiros do Hawaii e um toque
de Caetano Veloso, que comprovam que somos a soma do que vivemos e
escolhemos viver, dando proximidade e intimidade com o texto
escrito. Temos uma leitura que nos faz refletir, nos diverte e seduz em
palavras que foram escritas e aquelas que habitam as entrelinhas, que são
lidas no silêncio do não escrito, mas que ganham vida quando experimentamos
ir pouco a pouco respondendo às perguntas desde a do texto que deu título ao
livro, que nos desafia a dizer:
pra que título?
Sobre a edição:
a capa diz muito sobre esse livro que apenas cita a chuva, mas que brinca,
desafia e de certa maneira exalta o sol e a liberdade. As folhas amarelas e
diagramação com letra e espaçamento confortável para a leitura. Ilustrações
lindíssimas que nos fazem parar um momento para, entre um texto e outro,
“ler o texto na imagem”.
Espero que você leia, e permita-se caminhar com nossa personagem. Boa
leitura.
Ficha Técnica do Livro
- Autora: Sarah Camilo
- Editora: Autografia
- Páginas: 80 fls.
- Ano: 2019
+ Ler Sinopse
Simplicidade: é o que descreve esse livro. Nascido em meio às adversidades,
mas, ainda assim, o coração continua pulsante quando o assunto é literatura.
Encontre-se, encontre-se o outro. Quem sabe você não se torne uma pessoa
melhor, não é mesmo? Vale muito à pena! Costumo dizer que para me conhecerem
é preciso me ler, então fiquem à vontade para me conhecer um pouco.
Acredito que a simplicidade torna a vida um pouco mais leve. Voe com as
corujas, fique – se quiser – seja livre! Viva os seus desertos, quando
necessário. Ame e também diga não. Seja humano. Há uma parte de nós que, às
vezes, nos esquecemos. Encontre-a.






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