Leitura Compartilhada :: O corcunda de Notre-Dame (Notre-Dame de Paris)

Há livros que chegam até nós carregados de imagens que parecem conhecidas antes mesmo de abrirmos suas páginas. Quasímodo, Esmeralda, a Catedral de Notre-Dame... personagens e lugares que atravessam gerações, adaptações e diferentes versões da história.

Mas será que conhecemos, de fato, o romance de Victor Hugo? É justamente para descobrir o que existe além da história que tantas vezes chega ao cinema, aos desenhos e aos palcos que nos reunimos para mais uma Leitura Compartilhada. Desta vez, viajamos até a Paris medieval e entramos nas páginas de um dos grandes clássicos do Romantismo.

Entre sinos, vielas, multidões, paixões, injustiças e uma catedral que parece observar tudo do alto, vamos acompanhar uma história muito mais complexa do que a imagem do "corcunda" que ficou popular no imaginário coletivo. Prepare seu exemplar, uma xícara de café ou chá e venha conversar conosco.


🖋️ SOBRE VICTOR HUGO

Victor Hugo nasce em Besançon, na França, em 1802, e atravessa praticamente todo o século XIX como poeta, dramaturgo, romancista e também uma figura pública profundamente envolvida nas questões políticas e sociais de seu tempo.

Ainda muito jovem, demonstra talento para a literatura e, aos poucos, torna-se uma das principais vozes do Romantismo francês. A publicação da famosa "Prefácio de Cromwell", em 1827, ajuda a consolidá-lo como um dos líderes da nova escola romântica, que questiona as rígidas convenções clássicas e aproxima o sublime do grotesco, o belo do disforme e o grandioso da vida cotidiana.

Sua obra é marcada por uma forte preocupação humanista. Hugo escreve sobre pobreza, injustiça, liberdade, pena de morte, desigualdade e exclusão, questões que aparecem tanto em seus romances quanto em sua atuação política.

Em "O Corcunda de Notre-Dame", publicado quando o escritor tem apenas 29 anos, essa combinação entre imaginação, crítica social, paixão e interesse pela história encontra uma de suas primeiras grandes expressões.

Victor Hugo transforma a literatura em espaço para olhar justamente para aqueles que costumamos deixar à margem.


📖 A OBRA E SEU CONTEXTO

Publicado originalmente em 1831 com o título "Notre-Dame de Paris", o romance apresenta uma Paris medieval situada em 1482. A narrativa acompanha personagens muito diferentes entre si, mas cujos destinos acabam se entrelaçando em torno da Catedral de Notre-Dame. O título original é importante porque revela algo que as adaptações populares muitas vezes escondem: o protagonista simbólico do romance não é apenas Quasímodo. É também a própria Notre-Dame.

Entre eles estão Quasímodo, o sineiro da catedral; Esmeralda, uma jovem dançarina; Claude Frollo, arquidiácono de Notre-Dame; e Phoebus, capitão da guarda por quem Esmeralda se apaixona. A partir dessas relações, Victor Hugo constrói uma história de amor, desejo, rejeição, violência, preconceito e injustiça. Mas reduzir o livro a uma história de amor seria deixar de lado uma parte essencial do que torna o romance tão interessante.

A própria Catedral de Notre-Dame ocupa um lugar central na narrativa. Ela não funciona apenas como cenário: torna-se uma presença constante, quase uma personagem, testemunhando as paixões, tragédias e transformações da cidade.

E existe ainda outro detalhe fascinante: quando Hugo escreve o romance, a própria catedral encontra-se em estado de deterioração. O escritor é um grande defensor da preservação da arquitetura medieval francesa e utiliza o romance também como uma forma de chamar atenção para a importância daquele patrimônio.

A Paris que encontramos nas páginas de Hugo, portanto, é uma cidade de contrastes. De um lado, a grandiosidade da catedral e dos espaços de poder. De outro, as ruas, os pobres, os marginalizados e aqueles que sobrevivem longe dos privilégios.

A edição da Penguin-Companhia que vamos ler é a primeira edição brasileira publicada em 2018, com tradução de Eduardo Brandão e prefácio de John Sturrock. O volume possui 680 páginas e apresenta uma introdução que chama atenção justamente para a defesa da arquitetura gótica e para as ideias sociais e políticas presentes na obra.


🕰️ RECEPÇÃO CRÍTICA: ONTEM E HOJE

Quando "Notre-Dame de Paris" chega às livrarias, em março de 1831, Victor Hugo já é um nome conhecido no meio literário, mas ainda está longe da dimensão quase mítica que alcançaria posteriormente.

A recepção inicial é bastante positiva, embora o enorme sucesso popular que a obra alcançaria não aconteça de maneira imediata. A primeira edição, publicada por Charles Gosselin, tem tiragem de 1.100 exemplares, e uma nova edição é preparada ainda no mesmo ano.

Entre os escritores, porém, a obra provoca reações apaixonadas. A BnF registra a existência de uma verdadeira oposição entre "hugólatras" e "hugófobos", mostrando como Victor Hugo já despertava entusiasmo e resistência entre seus contemporâneos.

O poeta Alphonse de Lamartine está entre os admiradores. Em 1831, descreve o romance como uma obra monumental e o compara a Shakespeare.

Com o passar do tempo, o livro deixa de ser apenas um romance histórico para se tornar uma das grandes referências da literatura francesa. Suas traduções, ilustrações, adaptações para o teatro, cinema e televisão ajudam a manter Quasímodo e Esmeralda presentes no imaginário de diferentes gerações.

🍂 E hoje?

Ler "O Corcunda de Notre-Dame" atualmente também significa olhar para a obra para além das adaptações que popularizaram seus personagens.

Estudos literários contemporâneos observam, por exemplo, a maneira como Hugo trabalha o grotesco, especialmente na relação entre Quasímodo e a catedral.

Também é possível discutir o modo como o romance representa o corpo considerado diferente e a própria construção da ideia de normalidade. A crítica contemporânea encontra na narrativa um espaço importante para pensar deficiência, exclusão, alteridade e a maneira como o olhar social transforma determinadas pessoas em "monstros".

E talvez seja justamente aí que esteja uma das maiores riquezas desta leitura.

Porque, por trás da história que acreditamos conhecer, encontramos perguntas que continuam bastante atuais: quem decide o que é belo? Quem merece ser ouvido? O que fazemos com aqueles que não se encaixam no padrão? Até onde desejo pode se transformar em posse? E quantas vezes julgamos alguém pela aparência antes de conhecer aquilo que existe por dentro?

A relação entre o romance e a própria preservação de Notre-Dame também permanece especialmente interessante. A obra de Hugo contribui para despertar a atenção pública para o estado da catedral e para a importância da arquitetura medieval francesa, deixando um legado que ultrapassa a literatura.

Quase dois séculos depois, a história continua sendo adaptada e reinterpretada. E a própria Notre-Dame permanece profundamente ligada ao imaginário criado por Victor Hugo, algo que ganha ainda mais força quando pensamos na comoção provocada pelo incêndio de 2019 e na reconstrução do monumento.

🔎 Fontes pesquisadas

Para a elaboração das informações sobre Victor Hugo, o contexto histórico da obra e sua recepção, foram consultadas a Bibliothèque nationale de France (BnF), a Académie française, a France Culture, a Académie française – celebração do centenário de Victor Hugo e o estudo acadêmico "Victor Hugo e o grotesco em Notre-Dame de Paris", de Karin Volobuef, publicado pela UNESP.

Também foi consultada a página oficial da edição da Penguin-Companhia das Letras para conferência dos dados bibliográficos da edição escolhida.


🗓️ CRONOGRAMA E DINÂMICA DA LEITURA

Nossa leitura acontece de 12 de novembro a 22 de dezembro de 2019.

Durante esse período, cada leitora e cada leitor acompanha o romance em seu próprio ritmo, mas também tem um espaço para compartilhar impressões, descobertas, personagens favoritos, momentos de indignação e, claro, aquelas passagens que fazem a gente fechar o livro por alguns minutos só para conversar sobre o que acabou de acontecer. 📖☕

A proposta é justamente transformar a leitura individual em uma experiência coletiva. Não precisamos enxergar a história da mesma maneira. Pelo contrário: são as diferentes percepções que tornam uma leitura compartilhada tão especial.

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Capa do Livro

Ficha Técnica do Livro

  • Título original: Notre-Dame de Paris
  • Autor: Victor Hugo
  • Tradução: Eduardo Brandão
  • Prefácio: John Sturrock
  • Editora: Penguin
  • Páginas: 680 fls.
  • Ano: 2018
+ Ler Sinopse
Adaptado inúmeras vezes para as telas e os palcos, este drama medieval de Victor Hugo conta a história da bela Esmeralda, uma cigana adorada por três homens: o arquidiácono Frollo, o corcunda Quasímodo e o capitão Phoebus. Falsamente acusada de tentar matar Phoebus, que quase a violentou, Esmeralda é sentenciada à morte, e salva da forca por Quasímodo, que a defende até o fim.

Para além da questão amorosa, descortina-se uma série de tragédias que falam sobre revolução e luta social, sobre amor e perda, sobre destino e livre arbítrio, protagonizadas por personagens que vão desde o rei da França até os mendigos nos esgotos de Paris. E, no centro de tudo, a grande e onipresente Catedral de Notre-Dame.

O volume inclui uma introdução de John Sturrock, que apresenta o livro como uma história de ideias apaixonadas, escrita em defesa da arquitetura gótica e da democracia, demonstrando que um exterior repulsivo pode esconder uma grande beleza moral.

🍂 AGORA É HORA DE ABRIR O LIVRO

Talvez você chegue a esta leitura lembrando de Quasímodo como o personagem de aparência assustadora. Talvez pense imediatamente em Esmeralda, nos sinos da catedral ou em alguma das muitas adaptações que já assistiu.

Mas agora temos a oportunidade de voltar ao princípio, entrar na Paris de Victor Hugo sem saber exatamente o que vamos encontrar, conhecer personagens que talvez sejam muito diferentes daqueles que imaginamos.E, principalmente, de descobrir por que um romance chamado "Notre-Dame de Paris" continua sendo lembrado tantos anos depois de sua publicação.

"Há histórias que conhecemos antes de lê-las. E há livros que nos fazem descobrir que ainda não conhecíamos a história."

Então, prepare seu exemplar, escolha um cantinho confortável e venha conosco para Paris.

Nossa leitura começa em 12 de novembro. Até lá, nos encontramos entre as páginas, os sinos de Notre-Dame e uma boa conversa sobre livros.

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