Olá! Entrei numa daquelas ressacas literárias em loop. Dá vontade de ler tudo e não ler nada, e ainda tem aquele medo de começar e abandonar algum livro antes mesmo de considerar que começou, porque seria injusto. Bem, quem nunca? Nessa hora eu apelei para um cura-ressaca, a Adriana, do Meu Passatempo Blablabla, e mais uma vez estou eu aqui pronta para a próxima!
Sobre o livro? Bem, é um chick-lit Sophie Kinsella de qualidade. E, como sempre, no começo meu Jesus, quanta vergonha alheia! Teve hora que eu ria de nervoso. Samantha consegue se colocar em situações tão absurdas que você fica naquela dúvida entre rir, sentir vergonha por ela ou querer entrar no livro para ajudá-la.
"Se aprendi uma coisa com tudo que me aconteceu, é que não existe essa coisa de maior erro da existência. Não existe essa coisa de arruinar a vida. Por acaso a vida é uma coisa muito resistente."
Samantha Sweet é uma advogada corporativa brilhante, dinâmica e completamente dedicada à carreira. Ela trabalha em uma grande firma, vive sob pressão e está prestes a alcançar aquilo pelo qual trabalhou durante tanto tempo: tornar-se sócia. O problema é que, justamente quando parece estar chegando onde sempre quis, comete um erro gigantesco que pode custar milhões à empresa. Transtornada, Samantha sai sem saber muito bem para onde está indo e acaba chegando a uma casa onde é confundida com uma candidata a empregada doméstica. E, numa sucessão de acontecimentos que só mesmo Sophie Kinsella poderia transformar em uma situação tão engraçada, ela aceita o emprego.
Só tem um pequeno problema: Samantha não sabe ser empregada doméstica. Não sabe cozinhar, não sabe usar direito a máquina de lavar, não sabe passar roupa e não faz a menor ideia do que fazer com boa parte dos equipamentos de uma cozinha. A mesma mulher que é capaz de lidar com questões jurídicas complexas não consegue lidar com um ferro de passar. Meu Jesus novamente!
Mas logo a história mostra que Samantha não é apenas alguém muito sem noção e cheia de azar. Tadinha. E, além da simpatia, a empatia pela personagem cresce junto. Quando você percebe, já está íntima da pessoa, torcendo para que ela consiga se encontrar no meio daquela confusão toda. Sim, ela era uma advogada de sucesso, inteligentíssima e tudo mais. Só que, na vida, muitas vezes o que fala alto são os poréns. E é aí que a história, além de leve e divertida, ganha aquele tom de assunto sério sendo tratado de um jeito quase despretensioso.
Porque, por trás de toda a vergonha alheia, das trapalhadas domésticas e das crises de riso, existe uma mulher que precisa diminuir o ritmo, encontrar-se, apaixonar-se e descobrir para que serve um ferro de passar. E vai ficando cada vez melhor. Samantha sempre acreditou que o trabalho era a parte mais importante da vida. Ela vive para a carreira, para os resultados, para a próxima conquista. Até que, de repente, se vê afastada de tudo aquilo que conhecia e obrigada a experimentar uma rotina completamente diferente. E é justamente nessa mudança que começa a perceber que existe muito mais na vida do que aquilo que ela passou anos tentando conquistar.
Amei as tiradas que mostram que podemos viver sem existir. Podemos ser tão focados em uma coisa que esquecemos de olhar o quadro geral. Tão preocupados em chegar a algum lugar que deixamos de perceber onde estamos. Tão ocupados tentando construir a vida que imaginamos querer que não conseguimos enxergar a vida que está acontecendo enquanto fazemos isso. Sam precisa aprender que estar ocupada não é necessariamente o mesmo que estar vivendo. E talvez essa seja uma das coisas mais legais do livro. Ela não precisa apenas aprender a lavar roupa ou fazer um bolo. Precisa reaprender a olhar para a própria vida.
Também gostei muito da maneira como a história trabalha as escolhas. Porque nenhuma decisão precisa ser tão definitiva a ponto de não podermos mudá-la enquanto houver vida, enquanto houver um novo dia. Às vezes escolhemos um caminho porque acreditamos que é o certo. Depois mudamos, descobrimos coisas sobre nós mesmos e percebemos que aquilo que queríamos há alguns anos talvez não seja exatamente aquilo que queremos agora. E tudo bem. Mudar de direção não significa fracassar.
"Posso ir ao pub, posso ter planos para o fim de semana, posso me sentar no jardim por meia hora com os pés para cima... e isso não faz mal. Não tenho mais pressão constante. Não estou estressada. E isso me serve."
E no meio disso tudo ainda tem o romance. Porque, claro, é Sophie Kinsella. A transformação de Samantha também passa pelo encontro do amor e pela descoberta de uma vida que ela sequer sabia que poderia desejar. E o romance funciona justamente porque acontece dentro dessa mudança maior, sem ser apenas uma história de amor colocada ali para fechar a conta.
No fim, 'Samantha Sweet, Executiva do Lar' é um livro divertido, leve e cheio de situações que fazem a gente rir. Mas também é daqueles que vão colocando algumas verdades no meio da história enquanto a gente está distraído, achando que veio apenas para se divertir.
"- Acho que você usava um modelo diferente – acrescenta com sabedoria enquanto ela se trava de novo. - Cada uma tem seus truquezinhos."
Amei a ideia de que a vida pode ser mais leve, menos corrida, menos sofrida, desde que a gente esteja disposto a viver. Samantha precisa aprender a usar uma máquina de lavar, descobrir como funciona um ferro de passar, fazer bolos e sobreviver a situações que jamais imaginou enfrentar. Mas, enquanto aprende essas coisas, vai descobrindo outras muito maiores. Aprende sobre ela mesma, sobre amor, sobre escolhas, sobre sucesso e sobre a diferença entre estar ocupada e estar vivendo.
Foi uma leitura que chegou para mim como cura-ressaca e acabou entregando um pouco mais do que eu esperava. Ri, passei vergonha junto com Samantha, torci por ela e, em alguns momentos, parei para pensar na minha própria relação com aquilo que chamamos de sucesso, produtividade e vida. Porque talvez a vida não esteja sempre pedindo que a gente faça mais. Talvez, às vezes, ela só esteja pedindo que a gente pare um pouco e olhe para onde chegou, para quem está ao lado, para aquilo que gosta, para aquilo que deixou de fazer e para a possibilidade de escolher de novo.
No final das contas, talvez Samantha não tenha aprendido apenas para que serve um ferro de passar. Talvez tenha aprendido que a vida não precisa ser uma corrida para valer a pena.
Ficha Técnica do Livro
- Título original: The Undomestic Goddess
- Autora: Sophie Kinsella
- Tradução: Alves Calado
- Editora: Record
- Páginas: 384 fls.
- Ano: 2015




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