📖 Nesta Leitura Compartilhada, vamos acompanhar a família Watson, conhecer as quatro irmãs, observar seus conflitos, expectativas e relações e, principalmente, descobrir o que acontece quando uma história que Jane Austen deixou pelo caminho recebe uma possibilidade de final. Então prepare o café, escolha seu cantinho favorito e venha conversar conosco sobre Austen, romances de época, irmãs, casamentos, aparências e todas aquelas pequenas coisas que tornam uma leitura compartilhada ainda mais gostosa.
E se Jane Austen tivesse terminado 'Os Watsons'? Talvez a pergunta mais interessante seja descobrir o que Lis Wey fez com a oportunidade de responder por ela.
🖋️ SOBRE A AUTORIA
Jane Austen nasceu em Steventon, Hampshire, em 16 de dezembro de 1775. Filha de um reverendo e integrante de uma família numerosa, cresceu em um ambiente no qual a leitura, a escrita e as relações familiares tiveram papel importante em sua formação. Durante a vida, publicou seus romances anonimamente, e foi somente depois de sua morte que seu nome passou a ser associado publicamente às obras que hoje a transformaram em uma das escritoras mais conhecidas da literatura inglesa.
Seu olhar para as relações sociais, especialmente para as expectativas impostas às mulheres, o casamento, o dinheiro, a família e as diferenças de classe, tornou seus romances muito mais do que histórias de amor. Austen observava as pequenas relações do cotidiano com ironia e precisão, transformando conversas, bailes e visitas em espaços onde seus personagens revelavam muito mais do que pretendiam. E é justamente uma dessas histórias interrompidas que encontramos aqui.
Lis Wey, por sua vez, é o pseudônimo da escritora brasileira Adriana, formada em Direito e apaixonada por literatura e romances de época. Em entrevista concedida em 2019, a autora contou que escolheu 'Audácia e Presunção' como o livro de que mais se orgulhava justamente pelo desafio que representou: traduzir uma obra inacabada de Jane Austen e criar uma continuação que dialogasse com o texto original.
A proposta é especialmente curiosa porque Lis Wey não procura simplesmente 'ser Jane Austen'. Ela parte do material deixado pela autora inglesa, realiza sua própria tradução e, a partir do ponto em que Austen interrompeu a narrativa, constrói uma possibilidade de desfecho para aquelas personagens.
📖 A OBRA E SEU CONTEXTO
'The Watsons' foi escrito por Jane Austen provavelmente por volta de 1804, durante o período em que a autora esteve em Bath. O manuscrito sobreviveu sem título, sem divisão em capítulos e com aproximadamente 17.500 palavras. O nome 'The Watsons' foi atribuído posteriormente por seu sobrinho, James Edward Austen-Leigh, quando o texto foi publicado em 1871.
A história acompanha Emma Watson, a filha mais nova de uma família com poucos recursos. Depois de passar anos sendo criada por uma tia, Emma retorna para junto do pai e das irmãs, encontrando uma família marcada por dificuldades financeiras, ressentimentos, expectativas e diferentes maneiras de encarar o casamento.
Elizabeth, Margaret e Penélope possuem personalidades e interesses bastante distintos, e Emma precisa reaprender a conviver com elas enquanto começa a compreender melhor o mundo ao seu redor.Tudo isso ganha um novo contorno quando a jovem participa de um baile e conhece pessoas pertencentes a círculos sociais mais favorecidos, entre elas os Osborne e o senhor Howard.
O cenário pode parecer familiar para quem já passeou pelos romances de Austen: bailes, visitas, diferenças sociais, possibilidades de casamento e famílias preocupadas com dinheiro e reputação. Mas há algo especialmente interessante aqui.
'The Watsons' pertence a um momento anterior aos romances maduros que consagrariam Austen. Estudos sobre o manuscrito apontam que a obra representa uma etapa importante no desenvolvimento de sua escrita, aproximando-se de um tratamento mais realista da vida cotidiana e das dificuldades sociais. E talvez seja justamente por isso que uma história tão incompleta continue despertando tanta curiosidade.
🕰️ RECEPÇÃO CRÍTICA: ONTEM E HOJE
Quando os leitores conheceram 'The Watsons'
Aqui precisamos fazer uma pequena viagem no tempo. Jane Austen morreu em 1817 sem publicar 'The Watsons'. Portanto, não houve uma recepção crítica da obra quando ela foi escrita, nem leitores acompanhando sua publicação durante a vida da autora.
O fragmento só chegou ao público em 1871, mais de cinquenta anos depois da morte de Austen, quando James Edward Austen-Leigh incluiu o texto na segunda edição de sua biografia da tia, 'A Memoir of Jane Austen'.
A recepção inicial foi naturalmente diferente daquela dedicada aos romances completos. Alguns críticos demonstraram interesse pelos manuscritos inéditos justamente por permitirem um olhar sobre o processo criativo de Austen. Ao mesmo tempo, houve avaliações pouco entusiasmadas sobre 'The Watsons', principalmente porque o texto era apenas um fragmento e não apresentava a estrutura acabada dos romances pelos quais a autora já era conhecida.
E por que ainda falamos sobre ele?
Porque o inacabamento acabou se tornando parte de seu fascínio.Hoje, 'The Watsons' é estudado como uma peça importante para compreender o desenvolvimento literário de Austen. O manuscrito permite observar alterações, escolhas e experimentações que ajudam pesquisadores a perceber como sua escrita caminhava em direção ao realismo e à construção dos romances de sua maturidade.
Além disso, a história continuou a despertar a imaginação de outros escritores.A primeira tentativa conhecida de completar 'The Watsons' foi feita por Catherine Hubback, sobrinha de Jane Austen, que publicou sua versão em 1850 sob o título 'The Younger Sister'. Desde então, outras continuações e adaptações foram produzidas, mostrando que a pergunta 'como essa história terminaria?' continua sem uma única resposta definitiva.
É nesse longo diálogo com o texto de Austen que entra Lis Wey. Em 'Audácia e Presunção', encontramos primeiro a narrativa deixada por Austen e, depois, a continuação criada pela autora brasileira. A proposta não é esconder a diferença entre as duas escritoras, mas justamente permitir que uma nova voz converse com uma história que ficou esperando por um final.E isso torna nossa leitura ainda mais interessante: podemos conversar não apenas sobre o que Jane Austen escreveu, mas também sobre o que Lis Wey escolheu fazer com aquilo que Austen deixou.
Uma história inacabada também pode ser uma história aberta. E talvez seja justamente essa abertura que permita que novos leitores continuem encontrando espaço dentro dela.
🔎 Fontes de pesquisa
Para esta apresentação, foram consultados materiais da 'Jane Austen Fiction Manuscripts', da British Library, da Jane Austen Society of Australia, da Jane Austen Society do Reino Unido, estudos acadêmicos publicados pela Oxford Academic e Cambridge University Press, além de informações da edição brasileira e entrevista com Lis Wey.
Ficha Técnica do Livro
- Título original: The Watsons
- Autoras: Jane Austen e Lis Wey
- Série: As irmãs Watson #1
- Tradução: Dri Alevato
- Editora: Papoula Editorial
- Páginas: 226 fls.
- Ano: 2020
+ Ler Sinopse
🗓️ CRONOGRAMA E DINÂMICA DA LEITURA
Nossa Leitura Compartilhada aconteceu entre 11 de janeiro e 7 de fevereiro de 2021.
Durante esse período, a proposta foi caminhar juntas pela história das irmãs Watson, observando não apenas os acontecimentos da trama, mas também as diferenças entre a escrita original de Jane Austen e a continuação criada por Lis Wey.
Como em toda boa conversa literária, o espaço também fica aberto para impressões, personagens que conquistaram nosso coração, aqueles que despertaram ranço, expectativas sobre os romances e, claro, a inevitável pergunta:
O final escolhido por Lis Wey combina com o universo que Jane Austen começou a construir?
☕ PARA LEVAR PARA A LEITURA
'Os Watsons' talvez não seja a Jane Austen que encontramos nos romances mais conhecidos. É uma Austen em processo, experimentando personagens, situações e possibilidades que seriam desenvolvidas de maneiras ainda mais maduras em suas obras posteriores.
E 'Audácia e Presunção' acrescenta uma segunda camada a essa experiência: a oportunidade de conhecer uma interpretação brasileira para aquilo que ficou interrompido.
📖 Por isso, mais do que procurar uma resposta para 'qual seria o verdadeiro final?', talvez valha entrar nesta leitura com uma pergunta diferente:
'Que história pode nascer quando uma escritora deixa uma porta aberta e outra decide atravessá-la?'



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