Resenha :: Perfeito para o papel (For the Role)

Eu fui gentilmente coagida a ler essa história pela minha irmã, eu amei por isso vim falar dela aqui. Mas, com certeza, num foco totalmente diferente de muitas resenhas.

Posso dizer, sem spoiler, que a história, quando lida do ponto de vista de quem convive com uma pessoa autista, ganha outros contornos. Vemos um homem que se apaixona tentando inserir sua vida amorosa naquela que já existe com o filho, enquanto precisa lidar com seus próprios medos e com a necessidade de preservar uma rotina construída com muito esforço. Ao mesmo tempo, acompanhamos o quanto as terapias com música podem ser uma porta para uma pessoa com TEA se abrir para um novo universo.


"Somos pessoas, não máquinas. Tudo que fazemos é pessoal para alguém."

 


Flint Hopkins é um advogado implacável, viúvo e que hoje cria sozinho seu filho Harrison, de 12 anos e autista. Então, vemos um homem que luta com todas as suas forças para conseguir criar seu filho, que aprendeu o poder das ervas, estudou sobre dieta e alimentos que podem contribuir para surtos, mantém uma rotina rígida e tenta lidar com a entrada do filho na adolescência.

Além do luto, vemos um personagem masculino fazendo aquilo que estamos acostumadas a ver mães, na ficção e fora dela, fazendo: vivendo em função do filho e do trabalho, sem deixar que outras pessoas se aproximem demais para não causarem distúrbios em uma rotina que vem dando certo para os dois. É interessante acompanhar essa dinâmica pela perspectiva de um pai, principalmente porque a história não coloca esse cuidado como algo extraordinário por ele ser homem. Ele simplesmente está ali, fazendo o que acredita ser necessário para o filho.

Hopkins encontra a inquilina perfeita para alugar o espaço sobre seu escritório de advocacia em Minneapolis. Porém, ele não entendeu direito o que seria musicoterapia. Afinal, imaginou música suave e meditação... Até descobrir que Ellen Rodgers, a nova inquilina, toca instrumentos, canta e, para completar, parece ter uma felicidade irritantemente constante. A partir daí, se desenrola o romance entre os dois, mas é justamente nessa relação que a história ganha, para mim, um contorno muito mais interessante.

E talvez seja aí que a história tenha me conquistado de verdade. Porque ela não fala apenas sobre encontrar alguém e se apaixonar. Fala também sobre como nenhum cuidador pode esquecer da própria vida em função do autismo ou de qualquer outra circunstância. Existe uma pessoa antes e além do papel de cuidador, e reconhecer isso também faz parte do cuidado.

As características do autismo são bem abordadas, principalmente quando a história mostra que não existem dois autistas iguais. Harrison tem suas próprias características, necessidades e maneiras de perceber o mundo, e isso ajuda a lembrar que falar sobre autismo também é falar sobre indivíduos, não sobre uma única forma de existir dentro do espectro.

Por isso, 'Perfeito para o Papel' acabou sendo uma leitura que me trouxe muito mais do que eu esperava quando fui, digamos, gentilmente coagida pela minha irmã a começar. Encontrei um romance, sim, mas também uma história sobre luto, paternidade, cuidado, escolhas e sobre o espaço que precisamos abrir para que o amor possa existir sem apagar ninguém.

O amor é sempre uma ponte a ser construída e usada dentro e fora do espectro. Mas tudo começa com um passo de fé.


Capa do Livro

Ficha Técnica do Livro

  • Título original: For the Role
  • Autora: Jewel E. Ann
  • Tradução: Débora Isidoro
  • Editora: AllBook
  • Páginas: 384 fls.
+ Ler Sinopse
Flint Hopkins encontra a inquilina perfeita para alugar o espaço sobre seu escritório de advocacia em Minneapolis. Todos os requisitos foram preenchidos na proposta de Ellen. As referências dela são boas. E ela é bonita. Até...

Flint descobrir que Ellen Rodgers, musicoterapeuta certificada, toca instrumentos musicais. Bongô, violão, canto – nada de Beethoven que se pudesse controlar com fones de ouvido com cancelamento de ruído. O advogado implacável envia um aviso de despejo para a efervescente ruiva que cantarola eternamente, que é sexy demais para o próprio bem. Mas a sorte está do lado de Ellen, e Harrison, o filho autista de Flint, gosta dela à primeira vista. Um pai solteiro não pode competir com violões – e ratos. Sim, ela tem ratos de estimação. Essa mulher...

Ela é irritantemente feliz e tem uma necessidade constante de tocá-lo – ajeitar sua gravata, abotoar sua camisa, invadir seu espaço e bagunçar sua cabeça. Mesmo assim...

Ela precisa ir embora. O relacionamento de desejo e ódio progride para algo bonito e trágico. Essa sexy comédia romântica explora as coisas que queremos, as coisas de que precisamos e as decisões impossíveis que pais e filhos tomam para sobreviver.

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