“Três Mortes”: o autor examina como
o final da vida pode ser distinto ao descrever a morte de uma velha
senhora, de um cocheiro e de uma árvore.
Com a leitura, a constatação do que tínhamos por nivelador dos seres mostra apenas que, mesmo ela (a morte), as diferenças revelam. Dando ao texto, que deveria ser simples, tantas camadas que emocionam, à medida que cada uma é revelada.
Enquanto acompanhamos a luta pela vida da velha senhora, vemos a calma aceitação por parte do cocheiro. Mas não é só na luta pela vida que notamos como cada um age de modo diferente, vemos que o dinheiro muda até mesmo a faceta da morte, porque enquanto a uns o monumento é de grande ostentação, a tentar manter a memória viva de quem partiu, para os menos afortunados é apenas um marco de onde foi depositado o corpo. E por fim a árvore que, de todas as vidas e mortes do texto, foi a que mais me marcou pelo significado.
"Um mês depois erigiu-se um jazigo de pedra sobre a sepultura da morta. Sobre a do cocheiro ainda não havia nenhuma campa, apenas uma relva verde-clara brotava do montículo de terra, único vestígio de um homem que havia passado pela existência."
Os entraves da civilização e da natureza retornam em “Kholstomier”, conto sobre um puro-sangue que, para decepção de seu dono, nasceu
malhado.
Foi meu conto favorito. É uma lição não apenas de vida, mas de humanidade, mesmo quando fala da falta desta. Confesso que quanto mais eu lia mais me sentia em uma verdadeira aula. Claro que o recurso de escrita, de usar um animal para dar voz a essas lições, além de tornar o texto mais poético, serve também para o exercício de aprendizado mais verdadeiro.
É uma leitura prazerosa, mas longe de ser leve, é densa, cheia de substância, por isso é para ser lida gradualmente, avançando a medida em que assenta seus significados em quem ler. O fato de o autor quase nos convencer que o cavalo está contando a história é um destaque que merece ser feito, porque é de uma perfeição que beira ao absurdo do brilhantismo.
E mostra como nós enquanto seres humanos precisamos urgentemente reaprender a viver, porque entramos em um modo de apenas existir e nessa existência o “ter” se torna o mais importante. Os diálogos entre os humanos no fim da história mostram que a vaidade e o egoísmo são facilmente percebidos nos diálogos.
“O diabo” narra uma história de amor
atormentada pelo ciúme.
Nunca eu poderia imaginar que a escalada dos acontecimentos tomaria aquele rumo. Ainda com o coração aos pulos ante o fim, veio a virada e eu que não havia me recuperado fiquei sem fala e completamente cativa dessa história.
Afinal, enquanto tratamos “o diabo” como uma entidade, podemos atribuir-lhe a culpa de nossas falhas, mas quando temos a consciência de que os frutos de nossas ações são de nossa única e exclusiva responsabilidade, temos um entendimento mais significativo de nossas ações e atitudes, incluindo aquelas que fogem a moral e aos costumes. Preciso dizer que, após ler o texto de apoio, esse conto ganha ainda mais força e mais impacto no pós-leitura.
"Muitas vezes em seu íntimo se alegrava por essa libertação, e eis que de repente aquele acaso, que parecia insignificante, vinha lhe revelar que não estava livre. Atormentava-se nesse momento não pelo fato de estar outra vez subordinado àquele sentimento, de desejá-la — nem queria pensar nisso —, mas porque o sentimento ainda estava vivo dentro dele, porque era preciso estar em alerta. No íntimo, não havia nem sombra de dúvida de que acabaria por vencê-lo."
“Falso cupom” condensa as ideias do
escritor sobre a religião, a utopia e o modo como a fé e o Estado se
relacionam.
Um conto poderoso sobre o que hoje é conhecido como "efeito borboleta". De pequeno ato viu-se a frente de si uma enorme sucessão de fatos. E, para mim, uma linda prova de como a verdade liberta.
Algumas passagens, para mim, foram motivo para horas de conversa e reflexão com meu pai, que renderam ótimas discussões a respeito do que é fé, religião e a zona cinzenta que as pessoas criam entre a Bíblia e as regras de prática dos ensinamentos. Dá um certo desânimo perceber que críticas a ações da época dos “czares” ainda sim são tão atuais e facilmente aplicadas ao “estado laico”.
Mas, ainda assim, a atitude de uma pessoa causa uma repercussão tão grande na vida de tantas pessoas, que quando o autor nos mostra que uma ação ruim repercute destruindo, uma ação boa repercute não apenas construindo, mas mudando de forma positiva a vida de muitas pessoas.
“Depois do baile” traz a produção tardia
de Tolstoi em um conto sobre política e moral, entremeado por uma paixão
arrebatadora.
Quem realmente somos entre os discursos e ações? O quanto uma ação desmente uma fala ou uma atitude antagoniza com outra atitude igualmente nossa? Em um baile, a “persona” social de uma mesma pessoa que, em um momento posterior, aplica um espancamento bárbaro de um soldado desertor com finalidade disciplinadora. O qual retira todo o encantamento de outra, quando impressionou de forma positiva ao dançar uma valsa com a filha. Essa dualidade de atitudes não é apenas colocada em primeiro plano, assim como “tudo ser uma questão do acaso”.
"Pois bem, vocês dizem que o homem não pode compreender por si só o que é bom, o que é mau, que tudo depende do meio, que o meio devora tudo. Eu, porém, penso que tudo depende do acaso."
Lindo, denso e atemporal, um encerramento deslumbrante. O posfácio é rico e uma adição a obra.
Ficha Técnica do Livro
- Título em inglês: The Devil and Other Stories.
- Autor: Liev Tolstói
- Tradução: Beatriz Morabito, Beatriz Ricci e Mayra Pinto
- Editora: Companhia das Letras
- Páginas: 192 fls.
- Ano: 2020




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