Há histórias que começam com grandes batalhas, reinos encantados ou criaturas extraordinárias. E há aquelas que nascem de uma situação muito mais simples: uma criança perde seu brinquedo favorito e um pai decide inventar uma história para consolá-la.
Em novembro de 2021, vamos acompanhar Rover, um pequeno cachorro que, depois de uma transformação bastante inconveniente, parte em uma aventura que o levará da praia à Lua e, posteriormente, às profundezas do mar.
Pode parecer uma história pequenina diante dos mundos grandiosos pelos quais J.R.R. Tolkien se tornou conhecido, mas talvez seja justamente essa a graça de Roverando: encontrar a imaginação de Tolkien em uma narrativa íntima, divertida e originalmente contada dentro de casa.
"Algumas das histórias mais encantadoras começam quando alguém simplesmente tenta consolar uma criança."
Então prepare seu cantinho de leitura, uma xícara de café ou chá e venha conversar conosco sobre Tolkien, fantasia, infância e, claro, as aventuras desse pequeno Rover.
🖋️ Sobre a autoria
J.R.R. Tolkien (1892–1973) foi escritor, professor, filólogo e linguista britânico. Nascido em Bloemfontein, na atual África do Sul, mudou-se ainda criança para a Inglaterra e construiu boa parte de sua trajetória acadêmica em Oxford, onde se tornou especialista em línguas e literaturas antigas.
Foi justamente sua paixão pelas palavras, pelas línguas e pelas antigas narrativas que alimentou a criação de mundos como a Terra-média. Ao lado de O Hobbit e O Senhor dos Anéis, Tolkien também escreveu histórias destinadas aos filhos, poemas, ensaios, ilustrações e contos de fadas.
A história nasceu em 1925, durante uma viagem da família Tolkien à cidade litorânea de Filey, em Yorkshire. Michael, então com quase cinco anos, perdeu na praia seu querido cachorrinho de brinquedo. Para consolá-lo, Tolkien inventou uma história sobre um cão chamado Rover, que também acaba perdido depois de ser transformado em brinquedo.
O curioso é que Tolkien não apenas contava histórias. Ele também desenhava. A edição de Roverando reúne algumas das ilustrações feitas pelo próprio autor, aproximando ainda mais o leitor daquele universo que começou como uma história contada para os filhos.
📖 A obra e seu contexto
Originalmente intitulada Roverandom, a narrativa foi concebida em meados dos anos 1920 e posteriormente registrada por Tolkien por escrito. Anos depois, em 1936, o autor chegou a submetê-la à editora George Allen & Unwin. Embora tenha sido considerada uma história bem escrita e divertida, ela não chegou a ser publicada naquele momento.
Foi somente em 1998, décadas depois da criação da história e após a morte de Tolkien, que Roverandom chegou aos leitores em livro, em uma edição organizada pelos estudiosos Christina Scull e Wayne G. Hammond. A primeira edição britânica foi publicada pela HarperCollins.
Rover é um cachorrinho que, depois de morder as calças do mago Artaxerxes, recebe um castigo bastante peculiar: é transformado em um brinquedo. A partir daí, começa uma sucessão de encontros e desencontros. Rover passa pelas mãos de uma criança, perde-se novamente e encontra Psamathos, um feiticeiro-da-areia. Depois, com a ajuda de Mew, uma gaivota, chega até a Lua e conhece o Homem-da-Lua. Mais tarde, sua jornada continua pelo mar, onde encontra novas criaturas e tenta descobrir uma maneira de recuperar sua forma original.
A história é especialmente interessante para quem gosta de observar como a imaginação de Tolkien funcionava antes de conhecermos boa parte de sua produção mais famosa, há jogos de palavras, criaturas fantásticas, referências mitológicas e elementos que dialogam com outras criações do autor. Pesquisadores também identificam aproximações entre Roverando, O Hobbit e textos relacionados ao legendário de Tolkien.
🕰️ Recepção crítica: ontem e hoje
Existe uma pequena ironia na história editorial de Roverando: uma narrativa criada para divertir uma criança levou mais de setenta anos para chegar às livrarias. Quando finalmente publicada, em 1998, a recepção foi relativamente moderada. Algumas críticas reconheceram o charme, o humor e, especialmente, a capacidade de Tolkien de criar imagens vívidas para a Lua e para o mar. Entre os leitores mais familiarizados com sua obra, entretanto, houve maior entusiasmo justamente pelas conexões que a história permite estabelecer com outros textos do autor.
Nem todos foram tão generosos. A Kirkus Reviews, por exemplo, considerou a narrativa excessivamente leve e avaliou que havia pouco material para sustentar o interesse de leitores adultos, mesmo reconhecendo a premissa curiosa e as aventuras do pequeno Rover.
Hoje, Roverando pode ser encarado menos como uma tentativa de encontrar um novo Hobbit e mais como uma oportunidade de observar Tolkien em uma escala diferente. É um conto infantil, sim, mas também é um registro da relação entre um pai e seus filhos e uma espécie de laboratório para ideias, imagens, palavras e criaturas que aparecem em outras partes de sua produção.
Ficha Técnica do Livro
- Título original: Roverandom
- Autor: J.R.R. Tolkien
- Tradução: Rosana Rios
- Editora: HarperKids
- Páginas: 160 fls.
- Ano: 2021
+ Ler Sinopse
🗓️ Cronograma e dinâmica da leitura
Nossa Leitura Compartilhada aconteceu de 11 de novembro a 03 de dezembro de 2021.
Foram algumas semanas para acompanhar Rover em suas viagens e, principalmente, conversar sobre tudo aquilo que uma história aparentemente simples pode despertar. A proposta é ler, observar os detalhes, compartilhar impressões e deixar que a conversa transforme a experiência individual em uma experiência coletiva.
🔎 Fontes de pesquisa
As informações sobre a autoria, origem da história, trajetória editorial e recepção foram conferidas principalmente no Tolkien Estate, em registros bibliográficos da Open British National Bibliography, na Kirkus Reviews e em estudos e referências especializadas sobre Tolkien.
Também foram consultados os dados da edição brasileira disponibilizados pela HarperCollins Brasil e registros bibliográficos da edição traduzida por Rosana Rios.



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