"— Se você só ama o que vem fácil para você, vai descobrir que não tem muito para amar. Vá à luta, garota."
"O corpo que eu tenho não deveria determinar o quanto sou digna dos meus sonhos. Parei de me obcecar qual o fato de meu corpo ser muito redondo muito largo ou ter pelanca demais. Porque eu não sou muito de coisa alguma. Sou apenas o bastante. Mesmo quando não me sinto como se fosse."
Diferente do que poderia se imaginar, essa história não continua a partir do desfile, esse agora é uma lembrança para Millie, que aparenta sentir mais que todas as outras pessoas a falta daquela antiga camaradagem surgida entre as garotas durante o concurso de beleza da cidade. Assim, vamos reencontrar todas elas e ver outro lado com Callie, o das super populares. Mais uma vez Julie Murphy trabalha a diversidade como ela realmente é, algo que é muito além do que a maioria sendo invisibilizada pela minoria. Afinal, basta olhar em volta e ver que somos muito mais diversos que o modelo “ideal” que o preconceito tenta manter como parâmetro. Esse livro não é sobre pessoas gordas, é sobre pessoas. Vai além da cor da pele e, ainda sim, tem temas universais a todos como sexualidade, bullying e, claro, pessoas e seu peso.
"E ninguém se importa em lutar pela igualdade ou mudar as regras, a menos que tem algum tipo de conexão. Acho que... bem, é isso que as histórias fazem. Elas conectam as pessoas. As histórias mudam os corações, e os corações mudam o mundo."
Vamos descobrindo que pensar que a grama do vizinho é mais verde é enganoso, todas às vezes. Amei o fato de focar que muitas vezes, de tanto sermos julgados pelo que pensam de nós, começamos a deixar de ser quem somos para atender essas expectativas e isso não trará felicidade a ninguém. Com uma escrita sensível, porém verdadeira e necessária, a autora vai trabalhando cada um dos temas da maneira mais verdadeira possível. Como sempre, fazendo com que a leitura fosse repleta de reconhecimento, identificação e, claro, representatividade. Temos também um livro mais maduro, no sentido das batalhas que cada uma trava, vai muito além de se aceitar gorda ou das vantagens em “ser magra”. A questão aqui não são as limitações a que cada um se impõe, mas as que permitem que imponham. Aquele sentimento de aceitação social, que faz com que deixe de pensar em si, de forma individual, e passar apenas a ser o coletivo. Ou seja, sobre se perder para se encontrar.
"Há muito tempo decidi fazer uma lista de todas as coisas que eu podia controlar, e elas se resumiam a uma só: minha atitude."
Adorei a linguagem usada na trama e os diálogos ganham os toques de modernidade, com mensagens de celular, chats de conversa individual e, claro, em grupo e as redes sociais ganhando cada vez mais protagonismo na vida dos jovens. O choque de gerações também aparece de forma discreta, mostrando que podemos tanto aprender como ensinar com nossos pais e tutores. Amei o final da trama, sem deixar nenhum personagem abandonado ou com um final ridiculamente aberto, mas com ótimos ganchos para uma próxima história. Nada de passes de mágica, o “viveram para sempre”, mas condizente com a trama e a realidade, ao melhor estilo “viveram felizes tanto quanto poderiam ser”. Mais uma vez, a força da amizade e da confiança são destaques, porém é ainda mais forte a mensagem de que as mulheres não precisam ser ini-amigas. Callie cresceu muito ao longo do livro, sem deixar de ser ela mesma, porém a cada nova desconstrução. ela se construía de forma melhorada. Millie aprendeu a verbalizar suas emoções e desejos de uma maneira muito especial, sem começar a ser agressiva ou se perder nesse processo. Foi muito especial acompanhar a jornada delas.
Ficha Técnica do Livro
- Título original: Puddin'
- Autora: Julie Murphy
- Tradução: Heloísa Leal
- Editora: Valentina
- Páginas: 368 fls.
- Ano: 2021



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