Leitura Compartilhada :: Lilith: Um romance (Lilith: A Romance)

Há livros que nos convidam a sentar tranquilamente para uma conversa. Outros puxam uma cadeira, apagam algumas luzes e nos conduzem por uma porta que talvez fosse melhor deixar fechada.

É por esse segundo caminho que vamos seguir nesta Leitura Compartilhada, entre 25 de abril e 4 de junho de 2022, nossa companhia será Lilith: Um Romance de George MacDonald, uma obra publicada originalmente em 1895 e considerada uma das criações mais sombrias, estranhas e profundas do autor.

Prepare o café, o chá ou aquilo que costuma acompanhar suas leituras, porque esta não parece ser uma história que queira simplesmente ser lida. Ela quer ser atravessada, ao final, talvez ainda estejamos tentando descobrir exatamente por onde passamos.


🖋️ George MacDonald: o avô de muitos mundos fantásticos

George MacDonald nasceu em 1824, em Huntly, Aberdeenshire, na Escócia. Foi poeta, romancista, pastor congregacional e um escritor profundamente interessado nas relações entre imaginação, espiritualidade e natureza. Ao longo da vida, publicou mais de cinquenta volumes entre romances, poemas, contos, ensaios e sermões.

Sua formação religiosa foi importante para sua literatura, mas MacDonald não se acomodou às respostas teológicas mais rígidas de seu tempo. Durante sua primeira experiência como pastor, suas ideias sobre o amor inclusivo de Deus chegaram a desagradar parte da congregação e contribuíram para sua saída do ministério. A partir daí, dedicou-se cada vez mais à literatura, às palestras e ao ensino.

É justamente essa combinação entre fé, imaginação e questionamento que torna sua obra tão particular, MacDonald é frequentemente lembrado como um dos grandes precursores da fantasia moderna. Seus livros ajudaram a abrir caminhos que seriam percorridos posteriormente por escritores como C. S. Lewis e J. R. R. Tolkien.

C. S. Lewis, em especial, reconheceu publicamente a importância de MacDonald para sua formação imaginativa. Ao recordar a leitura de Phantastes, Lewis afirmou que o livro havia 'batizado sua imaginação'. E talvez seja justamente essa uma das melhores portas de entrada para compreender Lilith: não estamos diante de uma fantasia criada apenas para nos levar para longe da realidade. Para MacDonald, imaginar também era uma maneira de enxergar mais profundamente aquilo que existe dentro de nós.

📖 Lilith: quando uma biblioteca esconde uma passagem para outro mundo

A história começa com o sr. Catavento, um homem que vive praticamente alheio às grandes questões da existência. Sua vida parece organizada, confortável e distante de qualquer necessidade de transformação.

Inspirando-se em tradições e imagens da mitologia judaica e combinando-as à sua visão cristã, MacDonald constrói uma narrativa em que aparecem Adão, Eva e a própria Lilith, mas sem transformar essas figuras em simples personagens de uma releitura bíblica.

O que está em jogo é maior: queda, egoísmo, liberdade, sofrimento, amor, morte, arrependimento e redenção. A passagem pelo espelho funciona, então, como muito mais do que um recurso fantástico. É também uma passagem para dentro de perguntas que o protagonista, até então, sequer parecia interessado em fazer.

E se o verdadeiro mundo fantástico não estiver do outro lado do espelho, mas dentro de nós?

É esse tipo de pergunta que faz de Lilith uma leitura especialmente interessante para uma conversa coletiva. Porque talvez cada leitor atravesse esse espelho de uma maneira diferente.

🕰️ Uma fantasia vitoriana muito diferente do que esperamos da fantasia

Lilith foi publicada em 1895, quando George MacDonald já se aproximava dos 70 anos e estava chegando ao fim de sua trajetória como grande escritor de ficção. O romance seria seu último grande trabalho de fantasia.

A história surgiu de um processo bastante longo de criação. Em 1890, MacDonald registrou em um caderno um texto ainda sem título que posteriormente daria origem ao romance. A versão inicial correspondia a apenas uma parte do que viria a ser o livro publicado cinco anos depois, que passou por diversas etapas de revisão e ampliação.

Isso ajuda a explicar uma característica marcante da obra: Lilith não se comporta como uma fantasia convencional, ela é uma espécie de romance de sonho, alegoria, experiência espiritual e conto fantástico ao mesmo tempo. O leitor encontra espelhos, bibliotecas, florestas, criaturas estranhas, crianças, gigantes, mortos, figuras bíblicas e paisagens que parecem obedecer mais à lógica dos sonhos do que às regras de um mundo realista.

E, por trás de tudo isso, existe uma preocupação bastante séria de MacDonald: o que significa ser transformado? A visão religiosa do autor também é essencial para compreender o romance. MacDonald defendia uma forma de universalismo cristão, acreditando na possibilidade de uma restauração final de todos. Em Lilith, essa ideia se mistura a uma visão dura do pecado, da responsabilidade e da necessidade de transformação.

Recepção crítica: uma obra difícil desde o começo

A história de Lilith com seus leitores começou de maneira bastante complicada, o próprio MacDonald não esperava uma recepção popular particularmente favorável. Em uma carta escrita em 1895, pouco antes da publicação, demonstrava acreditar que a obra poderia ser recebida com estranhamento pelo público. Sua esposa, Louisa, também teve uma reação bastante negativa ao manuscrito, considerando a narrativa perturbadora e seu significado difícil de compreender.

A recepção crítica inicial acompanhou esse desconforto. Estudos sobre a história da obra apontam que os primeiros críticos chegaram a tratá-la como uma espécie de aberração dentro da produção de MacDonald. Lilith não oferece ao leitor uma narrativa confortável, linear e facilmente decifrável. Sua linguagem é carregada de simbolismos e suas imagens podem ser belas em um momento e profundamente perturbadoras no seguinte.

Mas a história do livro não terminou com sua recepção inicial, décadas depois, a obra começou a despertar um interesse renovado, especialmente entre leitores e estudiosos interessados na fantasia, no simbolismo religioso e na formação do gênero fantástico moderno. A republicação em 1969, como parte da coleção Ballantine Adult Fantasy, ajudou a recolocar Lilith diante de uma nova geração de leitores.

E entre os admiradores posteriores está W. H. Auden, que valorizava profundamente a imaginação de MacDonald e chegou a comparar Lilith ao melhor de Edgar Allan Poe.

E hoje? Por que ainda ler Lilith?

Talvez uma das coisas mais interessantes sobre Lilith seja justamente o fato de ela continuar dividindo seus leitores, há quem enxergue no romance uma obra-prima da fantasia filosófica, admirando sua imaginação, sua atmosfera onírica e a maneira como transforma questões espirituais em imagens fantásticas.

Há também quem considere a narrativa excessivamente longa, obscura, melodramática ou difícil de acompanhar, e as duas reações podem coexistir. Estudos acadêmicos continuam se debruçando sobre o romance justamente porque seus símbolos parecem resistir a uma única interpretação. Pesquisas sobre sua construção e suas tradições míticas mostram como leitores e críticos vêm tentando compreender a obra desde sua publicação.

Seu legado também pode ser percebido na literatura fantástica posterior. A influência de MacDonald sobre C. S. Lewis é particularmente bem documentada, e sua presença pode ser percebida em temas como mundos paralelos, imaginação espiritual e a transformação do maravilhoso em instrumento de reflexão.

Para os leitores de hoje, portanto, Lilith talvez não seja uma história para simplesmente perguntar 'gostei ou não gostei?'. É uma obra que parece pedir outras perguntas.


Capa do Livro

Ficha Técnica do Livro

  • Título original: Lilith: A Romance
  • Autora: George MacDonald
  • Tradução: José Fernando Cristófalo
  • Editora: Thomas Nelson Brasil
  • Páginas: 384 fls.
  • Ano: 2021
+ Ler Sinopse
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🗓️Nossa Leitura Compartilhada

Período da leitura: 25 de abril a 4 de junho de 2022

💬 Espaço para nossa conversa: Grupo de Leitura Compartilhada no WhatsApp

☕ Agora é hora de atravessar o espelho...

Talvez não exista maneira melhor de começar uma leitura de Lilith do que aceitar que nem tudo será imediatamente compreendido, vamos entrar na biblioteca, olhar para o espelho e seguir a história. Depois, voltamos para conversar, com café, chá, teorias, perguntas, estranhamentos e, quem sabe, algumas respostas.

Porque algumas leituras terminam quando fechamos o livro, outras continuam morando um pouquinho dentro da gente e Lilith parece pertencer à segunda categoria.

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