Há livros que nos convidam a entrar em mundos extraordinários. Outros fazem algo ainda mais delicado: nos lembram que a imaginação também pode morar nas pequenas tradições de uma família.
Nesta Leitura Compartilhada, vamos abrir uma dessas pequenas portas para o encantamento com Cartas do Papai Noel, de J.R.R. Tolkien.Antes de criar hobbits, elfos, anéis e terras distantes que conquistariam gerações de leitores, Tolkien já construía mundos para um público muito especial: seus próprios filhos. Durante mais de vinte anos, ele escreveu cartas como se fossem enviadas diretamente do Polo Norte, assinadas pelo Papai Noel e acompanhadas de desenhos, selos, envelopes e histórias sobre os acontecimentos daquele lugar tão distante.
Então, prepare o chá, acomode-se em algum cantinho confortável e venha conversar conosco sobre uma leitura que tem cheiro de Natal, infância e papel antigo. 🎄☕
🖋️ J.R.R. Tolkien: o professor que nunca deixou de imaginar
John Ronald Reuel Tolkien nasceu em 1892, na atual África do Sul, e passou a maior parte da vida adulta na Inglaterra. Foi escritor, filólogo, artista e professor universitário, construindo uma carreira acadêmica dedicada especialmente às línguas e literaturas antigas.
Em Oxford, onde lecionou por décadas, seu interesse por mitologia, línguas, lendas e literatura medieval alimentou a criação de mundos que posteriormente se tornariam fundamentais para a fantasia moderna.
Tolkien ficou mundialmente conhecido por O Hobbit e O Senhor dos Anéis, mas sua produção literária não se limitou à Terra-média. O autor também escreveu poemas, contos, histórias infantis, desenhou e pintou, além de criar inúmeras línguas e sistemas de escrita. Aqui encontramos um Tolkien mais íntimo. Não o grande escritor diante de seus leitores, mas o pai que, ano após ano, inventava novas aventuras para manter viva a magia do Natal dentro de casa. A criatividade do autor não ficava restrita à literatura publicada, aparecia também em desenhos, histórias, ilustrações, alfabetos e brincadeiras criadas para sua família
📖 De 1920 a 1943: quando o Papai Noel escrevia para os Tolkien
A história de Cartas do Papai Noel começou em 1920. Naquele ano, John, o filho mais velho de Tolkien, tinha apenas três anos. O menino queria saber onde Papai Noel morava e, a partir dessa pergunta aparentemente simples, Tolkien criou uma tradição familiar que continuaria por mais de duas décadas.
Todos os anos, entre 1920 e 1943, seus filhos recebiam cartas supostamente enviadas do Polo Norte e não eram apenas textos. Tolkien criava a aparência de correspondências verdadeiras, com envelopes, selos, carimbos, diferentes tipos de letra e desenhos. A caligrafia do Papai Noel era propositalmente trêmula, como se fosse realmente a escrita de um homem muito velho vivendo em um lugar gelado.
A família também cresceu ao longo desse período. Depois de John vieram Michael, Christopher e Priscilla, e as cartas foram acompanhando as diferentes fases da infância dos filhos e naturalmente, o Polo Norte de Tolkien também foi crescendo. Papai Noel ganhou companheiros e ajudantes, entre eles o atrapalhado Urso Polar, além de outros personagens como o elfo-secretário Ilbereth. As cartas passaram a formar, pouco a pouco, uma espécie de pequena mitologia natalina particular.
É interessante perceber que esse universo não nasceu como um livro, não havia uma narrativa planejada para publicação. Eram cartas familiares, escritas ao longo de anos, acompanhando as perguntas, as idades e as expectativas das crianças e por isso, quem sabe, a melhor maneira de lê-las seja justamente como aquilo que foram em sua origem: pequenos presentes deixados sobre a lareira.
Antes de ser literatura, estas cartas foram uma brincadeira de pai para filhos. E talvez seja justamente por isso que tenham sobrevivido tão bem ao tempo.
Mas existe ainda uma camada histórica especialmente interessante, as cartas atravessam um período turbulento da história europeia. Algumas foram escritas durante o intervalo entre as duas guerras mundiais; outras, durante a Segunda Guerra Mundial. Aos poucos, os acontecimentos do mundo real começam a deixar suas marcas também naquele Polo Norte imaginário.
A própria Baillie Tolkien observa que as cartas registram, de maneira indireta, aspectos da vida inglesa e da própria família Tolkien naquele período. Quando a última carta foi escrita, em 1943, Michael estava no exército havia três anos e Christopher havia ingressado na Royal Air Force, assim, por trás da fantasia natalina, encontramos também um pequeno registro de uma família vivendo um dos períodos mais difíceis do século XX.
🕰️ Recepção crítica: ontem e hoje
Cartas do Papai Noel não nasceu como uma obra destinada ao público.
A publicação só aconteceu depois da morte de Tolkien. A primeira edição apareceu em 2 de setembro de 1976, três anos depois do falecimento do autor, organizada por Baillie Tolkien, esposa de Christopher Tolkien. Naquele momento, o livro recebeu o título The Father Christmas Letters e reunia uma seleção das correspondências, algumas delas editadas ou abreviadas.
A recepção foi positiva, embora mais moderada do que a de outras obras póstumas de Tolkien. Parte da crítica percebeu imediatamente o encanto do material. Jessica Kemball-Cook, por exemplo, chegou a apontar que a obra poderia se tornar um clássico da literatura infantil. A crítica Nancy Willard, do The New York Times Book Review, também recebeu o livro de maneira muito favorável.
Com o passar dos anos, entretanto, o livro ganhou novas edições e passou por uma importante ampliação. Em 1999, Baillie Tolkien e a equipe editorial retornaram aos documentos originais e incluíram muitas cartas, imagens e outros elementos que haviam ficado de fora da primeira publicação. Foi também quando o título passou a ser Letters from Father Christmas, considerado mais adequado como título de livro.
Hoje, a obra é lida não apenas como literatura infantil, mas também como uma janela para o processo criativo de Tolkien e para sua relação com os filhos, e essa talvez seja uma das razões pelas quais ela continua encontrando leitores adultos.
Há quem se encante principalmente pelas ilustrações, pelos envelopes e pela caligrafia, quem prefira acompanhar a construção dos personagens e das pequenas aventuras do Polo Norte e quem leia as cartas como um retrato afetivo de um pai dedicado a preservar, enquanto pôde, o encantamento da infância. A recepção contemporânea também reconhece essa dimensão. O Washington Post, ao revisitar a obra, destacou justamente a longevidade do projeto e o cuidado com que as cartas e desenhos foram reproduzidos nas edições mais recentes.
Já a Los Angeles Review of Books chama atenção para uma mudança curiosa no tom das cartas a partir dos anos 1930, quando as aventuras do Polo Norte passam a refletir, de maneira indireta, a atmosfera mais sombria do mundo real e talvez seja isso que faça deste livro uma leitura tão bonita para o fim do ano. Porque, por trás das histórias engraçadas, dos acidentes do Urso Polar e das confusões do Polo Norte, existe uma pergunta muito humana:
Até quando conseguimos preservar a magia para aqueles que amamos?
Ficha Técnica do Livro
- Título original: The Father Christmas Letters
- Autor: J.R.R. Tolkien
- Edição: Baillie Tolkien
- Tradução: Cristina Casagrande
- Editora: HarperCollins
- Páginas: 160 fls.
- Ano: 2020
+ Ler Sinopse
🗓️ Nossa Leitura Compartilhada
Período da leitura: 28 de novembro a 18 de dezembro de 2022
💬 Grupo de conversa: Participe da conversa sobre a leitura
Talvez Cartas do Papai Noel não seja o livro que esperamos encontrar quando pensamos em J.R.R. Tolkien. Não estamos diante de uma grande aventura da Terra-média, mas diante de algo muito mais doméstico: um pai, uma família, algumas folhas de papel e uma imaginação suficientemente generosa para transformar uma pergunta infantil em uma tradição que durou mais de vinte anos.
Então, nesta leitura, o convite é simples, Vamos abrir as cartas devagar, observar os desenhos, acompanhar as trapalhadas do Urso Polar, conhecer os habitantes daquele Polo Norte tão peculiar e, principalmente, conversar sobre o que existe por trás de tudo isso.
Porque algumas histórias são feitas para salvar reinos e outras são feitas apenas para fazer uma criança acreditar que, enquanto dorme, existe alguém lá fora preparando o Natal. E talvez não exista magia maior do que essa.



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