Essa história é um convite para parar, respirar e mergulhar num momento que é mais que folhas e água quente, é um ritual milenar e por isso celebrado sem o ritmo acelerado das coisas que fazemos rotineiramente. E, com essa breve explicação sobre o clima da história, vamos ao livro!
"Agora entendo. A magia não está na cerimônia do chá ou na partilha de uma xícara. Está na conexão, na breve união de almas. As folhas de chá são um canal e os ingredientes, as indicações"
A trama começa de uma maneira que lembra outras fantasias, porém rapidamente ganha contornos próprios e a originalidade sobressai de maneira muito interessante. Como disse, a história tem o ritmo do ritual de preparação do chá, que junto a cultura chinesa e a magia ganham contornos próprios, dando não apenas o tom da história, mas cheiros e sabor com a descrição das ervas e das misturas. Confesso, que muitas referências que eu tinha da porcelana chinesa, aos utensílios do serviço de chá ganharam vida lendo essa história que se desenvolve tanto como um thriller político quanto uma fantasia.
"— Tudo em Jia é política, como você logo aprenderá. Em especial os… shénnóng-tú. — Ela balança a cabeça, com desprezo. — Muitos cuja afinidade com a arte Shénnóng é reconhecida vêm de famílias que podem se dar ao luxo de desenvolver seu talento."
Até mesmo quando achei um pouco descritivo demais, algumas cenas me surpreendi como que agilidade a autora mostrou na própria história que eram informações realmente necessárias para trama se desenvolver, deixando o que antes começou parecer ligeiramente cansativo interessante. Adorei como isso foi se desenrolando, porque um dos grandes acertos da história é a personagem Ning mesmo em meio a todos os acontecimentos no meio dos quais se viu "jogada" não perder seu foco inicial que desde o início foi de encontrar um antídoto para salvar sua irmã Shu.
"— Estou aqui só por mim. Minha mãe faleceu no inverno passado, Alteza. — Preciso oferecer uma parte da verdade, e já tinha revelado aquela informação à governanta. — Minha irmã está doente. Sem as duas, minha família passa por dificuldades. Ganhar essa competição, essa posição, vai significar uma vida melhor para minha família."
Apesar de ser uma combinação exótica, a autora explora os diversos sentimentos dos personagens, desde a competição para escolher o novo mestre Shénnóng, seus segredos que podem não só eliminá-la da competição como condenar sua família, seu envolvimento involuntário nas intrigas da corte. Sem esquecer dos falsos aliados que podem pôr em risco seu objetivo de salvar Shu — e a própria vida. Vou terminar dizendo que amei como a autora aborda a força e a resiliência feminina, de várias formas mostra como numa sociedade patriarcal muitas mulheres se dobram, mas não sucumbem e encontram meios de terem sua individualidade assegurada mesmo que a um custo alto e por vezes doloroso.
"É um aviso familiar, como os que papai costumava me dar sobre a capital. Com um peso no coração, percebo que deveria tê-lo ouvido. Mas agora é tarde demais."
Sobre a edição: Além da capa belíssima, conta com: um glossário, guia de pronúncia, lugares dignos de nota, cada qual contendo a palavra em português, em chinês e o conteúdo proposto, como significado, forma de pronunciar ou localização. Com pequenas imagens decorando alguns começos de capítulos, ótima revisão e tradução, a edição ficou mais que linda, facilitou a leitura e tornou a experiência ainda melhor.
Ficha Técnica do Livro
- Título original: Uma Magia Destilada em Veneno
- Autora: Judy I. Lin
- Duologia: Os Livros do Chá #1
- Tradução: Adriana Fidalgo
- Editora: Galera Record
- Páginas: 336 fls.
- Ano: 2022




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