Olá leitores, home começo com uma pergunta: - Já leram um livro por causa do título? Antes de qualquer informação sobre a obra, o título ficava às voltas do meu pensamento e isso me deixava com cada vez mais vontade de ler. A promessa de ser um livro que trata de temas do universo da mulher só me fez ter certeza de que iria ler. E vou contar o porquê foi uma ótima decisão.
O livro começa com a virada de ano, data bem próxima ao que vivemos e isso me deixou ainda mais instigada com a proximidade dos eventos a realidade. E quanto mais os eventos do livro vão se desenrolando, a linha entre o que é ficção e o que é realidade vai ficando mais tênue deixando a leitura cada vez melhor.
Eu não nomeei as mulheres durante a resenha, porque sou contra a exposição das vítimas. Somente o criminoso dessa história terá seu nome nessa resenha. Espero que você leia e conheça a cada uma das mulheres que ele fez mal e as acolha com suas histórias de dor e tentarem viver com as marcas do relacionamento tóxico que viveram.
Não sei se concordo com a palavra vingança aplicada ao livro, para mim todo o tempo a proposta de justiça na mais fiel concepção da palavra. Outra surpresa foi a forma de a autora colocar a discussão do que é ser mulher? Ela aborda de forma sutil, porém muito assertivas temas como o que faz uma mulher ser mulher ou se ter ou não a capacidade de gerar um bebê te torna mais mulher do que uma mulher que seja estéril, dentre todas as outras perguntas que se ramificam. Confesso que lembrei da célebre frase: "ninguém nasce mulher, torna-se mulher". Ou seja, espere muita representatividade nesse livro.
"Tomado o partido dele mesmo quando não tinha certeza se deveria, deixado que ele se safasse com coisas pelas quais deveria tê-lo confrontado, e foi então que percebeu que era fácil perdoá-lo por prejudicar os outros, porque ela o amava mais que a eles. Ele fora, por muito tempo, a pessoa mais importante da sua vida, até as crianças chegarem. Colocava Jamie acima de Tom, às vezes. Mais vezes do que deveria ter colocado."
Porém, esse livro em essência é sobre Jamie Spellman, um homem que controlou todas as narrativas ― até um segundo antes do fim. Como um homem narcisista (no sentido médico do termo) age sobre suas vítimas e como ele simplesmente continua a agir da mesma forma a cada nova conquista, porque não é sobre amor, é sobre poder e dominação. A autora mostra de forma muito clara as formas de abuso psicológico e de relacionamento abusivo que uma pessoa manipuladora e extremamente carismática impõe. E como a cultura do estupro e de invalidação da vítima, inclusive por outras mulheres, criam uma cadeia de dor e um ciclo de abuso e opressão.
"— A gente chama isso de gaslighting. Ele queria fazer você duvidar da sua percepção das coisas para que tivesse de confiar no que ele dizia ser a verdade.
— Não sabia que tinha esse nome.
— É muito cruel."
Não é um livro fácil de ser lido, porque cada personagem mostra suas cicatrizes, vulnerabilidade e a primeira reação de muitas pessoas será de menosprezar a verdade descritas ou até desacreditar a história, porque a negação é sempre a primeira reação que a sociedade ensina diante a denúncia de que nem todos os romances têm finais felizes e que nem todos os príncipes não são o pior tipo de vilão disfarçado. A analogia religiosa para mim é muito pertinente, porque todos esperam o mal com rabo e chifre e se esquecem que primariamente era um anjo de luz “belo e encantador” e que usa essa aparência para conquistar, cativar e envolver até a sua verdadeira face ser revelada e na maioria das vezes ser tarde demais para a vítima fugir. Tal qual a mosca presa na teia de aranha.
Outro destaque vai para a nomenclatura das principais formas de tortura psicológica que claramente mostra a quem lê que não é algo que ela “inventou” e sim algo estudado pela psiquiatria e nisso existe a representatividade e creio que validação por parte de alguém que esteja vivendo o mesmo e não tenha até a leitura se dado conta. A questão da maternidade é trabalhada em várias formas e todas elas muito verdadeiras, desde que não pode ter filhos, a quem não quer ser mãe e até aquela que sonha desesperadamente com isso. Aqui eu adoraria escrever mais, porém evitemos spoilers.
"Quando ela chorava, o que era frequente, Jamie alternava entre consolá-la e insultá-la, e, quando Josie tentava dizer que era culpa dos hormônios, que seu corpo estava mudando e era normal que ficasse tão emotiva, ele apenas zombava dela."
Vi algumas pessoas reclamando do final e sinceramente entendo os que não gostam desse tipo de fim em uma história, porém os leitores de thriller já estão bem acostumados a essa falta de “e viveram felizes”, afinal o Jaime já começa o livro com sua punição imposta e você se sente cada vez mais “vingada” com isso enquanto lê.
Eu não favoritei por outro motivo, o começo demora um pouco a te prender realmente e senti uma falta de liga no grupo, acabou um pouco polarizado demais. Isso deixou a história ruim? De forma alguma. Espero que muito mais mulheres leiam e conversem comigo, porque essa história tem muito a ser comentado e discutido.
Boa leitura e divirta-se!
Ficha Técnica do Livro
- Título original: Speak of the Devil
- Autora: Rose Wilding
- Tradução: Anna Carla Castro
- Editora: Record
- Páginas: 350 fls.
- Ano: 2023



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