Leitura Compartilhada :: O quinze

Existem livros que começam muito antes da primeira página. Começam numa paisagem, numa lembrança, numa história que atravessou gerações. Em O quinze, a seca de 1915 chega à literatura pelas mãos de uma jovem Rachel de Queiroz, que transformaria uma memória do Ceará em seu romance de estreia.

De 14 a 28 de março de 2024, esta será a nossa 62ª Leitura Compartilhada do Lendo com Elis. Vamos acompanhar Rachel de Queiroz pelo sertão cearense, entre caminhos, fazendas, retirantes, afetos e escolhas, descobrindo juntos uma história que nasceu de uma experiência muito próxima da própria autora.

Que tal preparar um café, escolher um cantinho confortável e vir conversar sobre O quinze com a gente?


🖋️ SOBRE A AUTORA

Rachel de Queiroz nasceu em Fortaleza, em 1910, mas sua infância foi profundamente marcada pelo sertão cearense. Em 1915, quando tinha apenas quatro anos, sua família deixou o Ceará em razão da grande seca daquele ano. A experiência desse deslocamento permaneceria na memória da escritora e, anos depois, encontraria forma literária em O quinze.

A relação de Rachel com a escrita começou cedo. Aos quinze anos, concluiu o curso normal no Colégio da Imaculada Conceição e, ainda adolescente, aproximou-se do jornalismo. Em 1927, publicou seus primeiros textos no jornal O Ceará usando o pseudônimo Rita de Queluz, antes de se tornar redatora efetiva.

Quando O quinze foi publicado, no final de 1930, Rachel tinha apenas vinte anos. O romance era sua estreia e, embora tivesse sido lançado inicialmente em uma pequena edição financiada pela própria autora, rapidamente chamou a atenção no cenário literário brasileiro. A partir dali, Rachel construiria uma longa trajetória como romancista, cronista, dramaturga e tradutora.

Décadas mais tarde, em 1977, ela se tornaria a primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira 5. Entre suas obras estão João Miguel, Caminho de pedras, As três Marias, Dôra, Doralina e Memorial de Maria Moura.

📖 A OBRA E SEU CONTEXTO

Antes de ser um livro, O quinze foi uma lembrança. A seca de 1915, que Rachel conheceu ainda criança, tornou-se o cenário de seu primeiro romance. Mas a autora não constrói uma narrativa limitada à descrição da estiagem. A história acompanha diferentes personagens e caminhos, aproximando experiências individuais de um acontecimento que atinge toda uma comunidade.

Entre essas histórias estão Conceição, jovem professora que passa as férias na fazenda da família, e seu primo Vicente, ligado à vida no sertão. Em outro núcleo, acompanhamos Chico Bento e sua família, obrigados a enfrentar as consequências da seca e a procurar um caminho possível para sobreviver.

É justamente esse movimento entre diferentes perspectivas que dá forma ao romance. De um lado, estão os afetos, as escolhas e as diferenças entre pessoas que vivem realidades próximas, mas não necessariamente compartilham os mesmos desejos. De outro, está a caminhada dos retirantes diante de uma paisagem que vai se tornando cada vez mais difícil.

Publicado em 1930, O quinze surgiu em um momento de transformação da literatura brasileira. Ao lado de obras como A bagaceira, de José Américo de Almeida, ajudou a fortalecer uma ficção voltada para problemas sociais e para diferentes realidades do país. Anos depois, Adonias Filho lembraria que os romances de Rachel e José Américo haviam aberto, naquele momento, um novo caminho para a ficção brasileira.

Há também uma particularidade bonita na origem do livro: sua autora ainda era muito jovem quando decidiu transformar aquela memória da seca em literatura. A primeira edição teve apenas mil exemplares e foi impressa em Fortaleza, às expensas da própria Rachel.

A edição que servirá de referência para a nossa Leitura Compartilhada é a da José Olympio, publicada em 2016, com novo projeto gráfico e 208 páginas.

🕰️ RECEPÇÃO CRÍTICA: ONTEM E HOJE

A trajetória de O quinze começou com uma surpresa. Uma jovem de apenas vinte anos publicava, em uma pequena edição cearense, um romance que logo alcançaria repercussão no Rio de Janeiro e em São Paulo. A obra recebeu atenção de nomes como Augusto Frederico Schmidt, Graça Aranha e Agripino Grieco e conquistou o Prêmio da Fundação Graça Aranha.

A recepção inicial também ajudou a colocar Rachel de Queiroz no centro das discussões sobre a renovação do romance brasileiro. O livro passou a ser associado à literatura regionalista e à representação dos problemas sociais do Nordeste, enquanto sua autora construía uma carreira que ultrapassaria amplamente esse primeiro romance.

Com o passar do tempo, O quinze permaneceu em circulação e passou a ser lido também a partir de outras questões: as relações entre indivíduo e sociedade, as desigualdades sociais, as experiências de deslocamento e a maneira como diferentes personagens enfrentam uma mesma realidade.

Talvez seja justamente aí que esteja uma das boas perguntas para levar conosco durante a leitura: o que acontece quando uma grande tragédia coletiva atravessa histórias que, até então, pareciam particulares?

Não precisamos chegar à leitura com uma resposta. Podemos simplesmente deixar a pergunta conosco e descobrir o que o romance fará com ela.

🗓️ CRONOGRAMA E DINÂMICA DA LEITURA

Nossa leitura acontecerá de 14 a 28 de março de 2024.

Durante esse período, teremos um cronograma para acompanhar a leitura e um espaço de conversa no Telegram, onde poderemos compartilhar impressões, descobertas, dúvidas e aquelas pequenas coisas que só aparecem quando várias pessoas estão lendo o mesmo livro ao mesmo tempo.

📱 Grupo Lendo com Elis:  Telegram | Lendo com Elis

A proposta é simples: cada pessoa lê no seu próprio ritmo e constrói sua própria relação com a obra. O grupo existe para tornar a leitura mais acompanhada, não mais apressada. Podemos conversar sobre o que estamos encontrando pelo caminho, comparar impressões e descobrir novas possibilidades de olhar para a história.


Capa do livro O quinze, de Rachel de Queiroz

Ficha Técnica do Livro

  • Título: O quinze
  • Autor(a): Rachel de Queiroz
  • Editora: José Olympio
  • Páginas: 208
  • Ano: 2016
+ Ler Sinopse
Um clássico da literatura nacional com novo projeto gráfico Lançado originalmente em 1930, em edição financiada pela própria autora,O Quinze é o romance de estreia da aclamada escritora cearense Rachel de Queiroz. Gerou grande impacto na época não apenas por sua força narrativa, mas também pelo fato de ter sido escrito por uma mulher de apenas 20 anos de idade. Ao narrar as histórias de Conceição, Vicente e a saga do vaqueiro Chico Bento e sua família, Rachel de Queiroz, imortal da Academia Brasileira de Letras, expõe de maneira única e original o drama causado pela histórica seca de 1915, que assolou o Nordeste brasileiro. O Quinze expressa uma questão atual: o duelo entre o homem e a terra. A história da seca nordestina, as expectativas e as angústias que ela provocou são aqui retratadas com simplicidade e força. Para o escritor Antônio Torres ,"Numa prosa simples, viva, comovente, Rachel de Queiroz tece o seu relato em duas linhas de força: a história de um amor irrealizado da mocinha que lê romances franceses e sonha com o moço rude entregue à faina solitária de salvar o seu gado; e a dramática marcha a pé de um retirante e sua família, sonhando chegar ao Amazonas." Este livro é um clássico da literatura brasileira. Foi ele que projetou Rachel de Queiroz na vida literária do país, firmando-a como escritora regionalista, preocupada com as questões sociais. Imperdível."

Agora é hora de abrir O quinze e deixar que o sertão de Rachel de Queiroz apareça aos poucos, sem pressa.

Talvez seja uma leitura para acompanhar com café por perto, algumas pausas pelo caminho e espaço para conversar depois. Porque, quando uma história chega ao grupo, ela deixa de ser apenas uma leitura individual e começa também a ganhar as vozes de quem a compartilha, vamos descobrir juntos o que nos espera em O quinze. 🌿

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