Há livros que parecem guardar duas cores dentro de si. De um lado, o vermelho das paixões, da ambição, do impulso de conquistar um lugar no mundo. Do outro, o negro das convenções, da religião, das aparências e dos caminhos que uma sociedade reserva para quem nasce longe dos lugares de poder.
É nesse contraste que vamos entrar com O vermelho e o negro, de Stendhal, nossa 72ª Leitura Compartilhada. Entre 18 de setembro e 18 de novembro de 2025, vamos acompanhar uma história ambientada na França da Restauração, quando Julien Sorel, jovem de origem humilde e inteligência incomum, tenta descobrir até onde pode chegar em uma sociedade profundamente marcada pelas diferenças de classe.
Mais do que simplesmente atravessar as páginas de um clássico da literatura francesa, a proposta é descobrir juntos o que existe por trás desse jovem, desse tempo e das escolhas que a narrativa coloca diante de nós.
Prepare o livro, escolha seu cantinho de leitura e venha conversar com a gente. A leitura começa aqui.
🖋️ SOBRE O AUTOR
Henri Beyle nasceu em Grenoble, em 1783, mas entrou para a história da literatura pelo pseudônimo Stendhal. Sua trajetória antes da literatura passou pelo exército e pela administração napoleônica, experiências que o levaram a viajar pela Europa e, especialmente, a criar uma relação profunda com a Itália. Também escreveu ensaios, relatos de viagem, estudos sobre arte, crítica e textos autobiográficos.
Stendhal chegou relativamente tarde ao reconhecimento como romancista. Seu primeiro romance, Armance, publicado em 1827, teve pouca repercussão. O vermelho e o negro, publicado em 1830, foi o livro que começou a revelar a dimensão de sua literatura, embora o reconhecimento amplo de sua obra viesse sobretudo depois de sua morte. A cartuxa de Parma, publicada em 1839, consolidaria ainda mais sua posição entre os grandes romancistas franceses do século XIX.
Existe ainda uma aproximação particularmente interessante entre o autor e seu protagonista: Stendhal conheceu de perto o mundo político e social moldado pela ascensão de Napoleão e pela transformação da sociedade francesa depois de sua queda. Julien Sorel, por sua vez, vive em uma época em que os grandes feitos militares do passado já não oferecem o mesmo caminho de ascensão para um jovem de origem modesta. Seu fascínio por Napoleão nasce justamente dessa distância entre o mundo que ele admira e aquele em que realmente precisa viver.
📖 A OBRA E SEU CONTEXTO
Publicado em 1830 com o subtítulo Crônica de 1830, O vermelho e o negro acompanha Julien Sorel, filho de um carpinteiro de uma pequena cidade francesa. Inteligente, ambicioso e fascinado por Napoleão, Julien percebe desde cedo que seu nascimento determina o lugar que a sociedade espera que ele ocupe.
A narrativa começa na província, onde Julien passa a trabalhar como preceptor dos filhos do prefeito, e posteriormente o conduz a outros ambientes sociais, incluindo o seminário e os círculos da aristocracia parisiense. Nesse percurso, religião, política, dinheiro, posição social, desejo e aparência se misturam constantemente.
O próprio título já sugere algumas das tensões que atravessam a trajetória do protagonista. O vermelho pode remeter ao universo militar e à lembrança de Napoleão, enquanto o negro se associa ao caminho religioso que se apresenta a Julien como uma das poucas possibilidades de ascensão para alguém de sua condição. Mas as duas cores também podem ser vistas como parte de uma sociedade cheia de contrastes, em que aquilo que se mostra nem sempre corresponde ao que se deseja ou se pensa.
Embora seja frequentemente apresentado como um romance histórico e psicológico, o livro não funciona simplesmente como uma reconstrução de acontecimentos políticos. Stendhal utiliza a França da Restauração como matéria para observar pessoas concretas, seus interesses, suas contradições e as regras sociais que orientam suas escolhas. A política e a história estão presentes, mas muitas vezes aparecem filtradas pela vida cotidiana e pela maneira como cada personagem enxerga o mundo.
A própria construção do romance nasceu em um momento particularmente turbulento. Stendhal começou a trabalhar no livro no final de 1829 e assinou contrato para sua publicação em abril de 1830. A Revolução de Julho, que derrubou Carlos X, interrompeu temporariamente a impressão. O romance acabou sendo publicado em novembro daquele mesmo ano.
Há também uma curiosa relação entre ficção e realidade na origem da história. Stendhal se inspirou em casos criminais que haviam chamado atenção na França de seu tempo, mas transformou esse material em uma narrativa muito mais ampla sobre ambição, sociedade, sentimentos e possibilidades individuais. Em vez de simplesmente reproduzir acontecimentos reais, construiu sua própria cidade, seus personagens e suas circunstâncias para observar, através da ficção, o funcionamento daquela sociedade.
E talvez seja justamente aí que esteja uma das portas de entrada mais interessantes para a nossa leitura: acompanhar alguém que deseja subir na vida em uma sociedade que, ao mesmo tempo em que oferece novas possibilidades, continua profundamente presa às antigas hierarquias.
🕰️ RECEPÇÃO CRÍTICA: ONTEM E HOJE
Quando apareceu, O vermelho e o negro não foi recebido de maneira unânime. A obra chamou atenção, mas também provocou desconforto. Parte da crítica se chocou com a representação pouco idealizada da sociedade francesa e, especialmente, com a maneira como Stendhal apresentava as relações amorosas e a moral de seus personagens. O romance chegou a causar mais escândalo do que entusiasmo entre alguns de seus contemporâneos.
Ao mesmo tempo, havia quem reconhecesse justamente nessa franqueza uma de suas forças. O livro colocava em cena a hipocrisia, os interesses e os padrões duplos de uma sociedade que preferia preservar as aparências. Essa combinação entre desconforto e reconhecimento ajuda a entender por que a obra não se tornou imediatamente um grande sucesso popular.
A distância do tempo, porém, modificou profundamente sua posição. Stendhal passou a ser reconhecido como um dos grandes escritores franceses do século XIX, e O vermelho e o negro ganhou importância na história do romance por sua atenção à vida interior dos personagens, à influência da sociedade sobre o indivíduo e às contradições entre aquilo que uma pessoa deseja e aquilo que o mundo permite que ela seja.
Hoje, o romance continua provocando discussões justamente porque Julien Sorel não é uma figura fácil de encaixar em uma única interpretação. Sua ambição, suas relações, sua inteligência e suas contradições permitem que a leitura atravesse questões como mobilidade social, aparência, desigualdade, individualismo, desejo e pertencimento.
Talvez seja interessante descobrir, durante esses dois meses, o que muda quando deixamos de olhar para Julien apenas como um personagem de 1830 e passamos a observá-lo também como alguém tentando encontrar um lugar em um mundo que estabelece, o tempo todo, quem pode chegar aonde.
🗓️ CRONOGRAMA E DINÂMICA DA LEITURA
Nossa Leitura Compartilhada acontece de 18 de setembro a 18 de novembro de 2025.
Durante esse período, teremos um cronograma para acompanhar a leitura e um espaço de conversa no Telegram, onde poderemos compartilhar impressões, dúvidas, descobertas e aquelas pequenas reações que surgem no meio de um capítulo e que ficam ainda melhores quando alguém do outro lado entende exatamente o que estamos falando.
💬 Grupo Lendo com Elis no Telegram: Telegram | Lendo com Elis
A dinâmica é simples: cada participante acompanha a leitura dentro do seu próprio ritmo, respeitando o cronograma proposto, mas sem transformar o clube em uma corrida para chegar ao final. A ideia é justamente criar um espaço em que diferentes experiências de leitura possam coexistir.
Algumas pessoas vão reparar primeiro nas relações entre os personagens. Outras podem se interessar pela política, pela sociedade, pela religião, pela ambição de Julien ou pela própria maneira como Stendhal constrói sua narrativa. E é dessa diversidade de olhares que nasce a conversa.
Ficha Técnica do Livro
- Título original: Le Rouge et le Noir
- Autor: Stendhal
- Tradução: Raquel de Almeida Prado
- Textos complementares: Leyla Perrone-Moisés e Heinrich Mann
- Editora: Penguin-Companhia
- Páginas: 648
- Ano: 2018
+ Ler Sinopse
Ficha Técnica do Livro
- Título original: Le Rouge et le Noir
- Autor: Stendhal
- Tradução: Raquel de Almeida Prado
- Textos complementares: Leyla Perrone-Moisés e Heinrich Mann
- Editora: Penguin-Companhia
- Páginas: 648
- Ano: 2018
+ Ler Sinopse
Agora é hora de abrir O vermelho e o negro e deixar que as duas cores do título apareçam aos poucos, não apenas na história, mas também nas pessoas, nos desejos e nas escolhas que vamos encontrar pelo caminho.
Pode ser com café, chá ou simplesmente com o livro aberto naquele cantinho em que a leitura acontece melhor. O importante é chegar com curiosidade e deixar espaço para que Julien Sorel, Stendhal e a França de 1830 encontrem cada leitor de uma maneira diferente.
Nos vemos nas páginas e, principalmente, na conversa. 📖



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