Uma biografia pode aumentar seu amor pelo dono da história, acrescentando à carreira a admiração pela pessoa, ou pode até tirar um pouco do brilho do que conhecemos quando descobrimos que aquela pessoa nos causa antipatia. E foi com essa dose a mais de sentimentos, além da curiosidade, que comecei a ler Para que serve esse botão?, autobiografia de Bruce Dickinson.
O fato de ser uma autobiografia me deixou muito feliz, justamente pela possibilidade de conhecer aquilo que o próprio Dickinson quis contar. Entre a infância e um pouco do que o fez como homem, vamos conhecendo primeiro a pessoa para depois ir de encontro à lenda. E essa construção foi uma das coisas que mais gostei no livro.
Logo nas primeiras páginas, uma das ideias que ficaram comigo foi a de que não existe acaso quando olhamos para uma trajetória como a dele. Bruce sempre teve talento para cantar, embora exista até um relatório escolar em que aparece como "não cantor". Mas o talento, sozinho, não explica a história. Para chegar onde chegou, foram horas e horas de trabalho, procura por contatos, bandas, oportunidades e pessoas que pudessem completar os projetos que tinha em mente.
Talvez por isso eu tenha terminado a leitura ainda mais convencida de que talento é uma combinação de dom e trabalho. Muito trabalho.
Bruce narra sua história com aquele jeito que eu associaria a um humor muito inglês, deixando aparecer curiosidades, ironias e também muita honestidade. Descobrimos coisas como seu verdadeiro nome, que obviamente não vou contar aqui, e encontramos histórias que ajudam a desmistificar algumas lendas construídas ao redor da banda.
Ele também não se limita ao Bruce Dickinson que conhecemos no palco. O livro mostra o garoto que queria tocar bateria, o vocalista procurando oportunidades no orelhão da faculdade, o homem que aprendeu a voar e que depois se dedicou às duras provas para se tornar piloto profissional. Há capítulos em que a vida longe da fama ganha bastante espaço, com seus trens, seus textos e seus outros interesses.
E há, claro, o Iron Maiden. O convite para integrar a banda, os shows, as brigas, o álcool e as drogas, as gravações, a loucura das turnês e a relação com o público brasileiro aparecem na narrativa, mas sempre dentro de uma história muito maior: a construção de uma carreira.
Uma das coisas que mais gosto no Iron Maiden é que, para mim, as músicas nunca são apenas letras. Elas carregam informação, referências históricas, literatura, mitologia e personagens que despertam curiosidade. O voo de Ícaro, Alexandre, o Grande e tantas outras histórias fazem com que uma música possa ser também uma porta de entrada para outro conhecimento. E, lendo a autobiografia de Bruce, essa característica ganhou ainda mais sentido para mim, porque percebi o quanto essa curiosidade por histórias, pessoas e referências também faz parte do homem por trás do vocalista.
Essa curiosidade aparece em outros momentos do livro. Bruce parece se inteirar da vida das pessoas que passaram por sua história. Mesmo quando essas pessoas já não fazem parte do seu cotidiano, continuam sendo importantes o suficiente para que ele procure saber o que aconteceu com elas.
Algumas referências, inclusive, mereceram uma nota de rodapé na minha cabeça. Algumas eu só consegui entender graças às leituras da Nora Roberts, outras pelo meu conhecimento das lendas da Irlanda e outras ainda pelas conversas e indicações da @chirleiw, que sempre me apresenta aos melhores livros da literatura inglesa. E, claro, pelo meu amor aos clássicos ingleses, porque Tolkien e Austen também aparecem por aqui.
Também gostei muito de perceber as escolhas pessoais de Bruce. Não fazer tatuagens e não usar drogas, por exemplo, não aparecem simplesmente como características excêntricas do artista, mas como escolhas influenciadas por experiências de pessoas próximas e pelas consequências que ele viu essas coisas produzirem na vida delas.
E há ainda o Bruce que não cabe no estereótipo do astro do rock: piloto, escritor, roteirista, apresentador, ator, esgrimista, empreendedor e tantos outros interesses que fazem dele uma pessoa difícil de colocar em uma única definição.
O livro também dedica espaço à sua batalha contra um câncer que quase o tirou dos palcos e da vida. Mas gostei de como essa parte está inserida em uma história muito maior. Não é uma narrativa construída para provocar pena, e sim mais um capítulo da vida de um homem que continuou vivendo, trabalhando e criando.
Amei também que ele tenha deixado de fora da biografia aquilo que poderia ser encontrado em jornais e revistas de fofoca e tenha escolhido falar sobre o processo criativo, trabalhoso e muitas vezes ingrato de ser um astro do rock equilibrando uma vida entre as turnês.
Para quem ama biografias, é uma super leitura, inclusive pelas várias indicações de livros que aparecem ao longo do caminho. Para quem é fã do Iron Maiden ou do rock n' roll, considero uma leitura obrigatória. E para quem quer entender por que uma banda consegue alcançar tanto sucesso e conquistar tantos fãs durante tantas décadas, o livro oferece uma pista bastante interessante: existe muito mais trabalho por trás de uma lenda do que aquilo que vemos no palco.
E talvez a melhor parte seja que, ao terminar a biografia, minha relação com Bruce Dickinson como cantor não mudou. Eu já gostava dele e continuo gostando. O livro não precisou transformar minha admiração, nem criar uma nova paixão para justificar a leitura. Ele apenas acrescentou outras camadas: o homem por trás do vocalista, o trabalho por trás do talento, a curiosidade por trás de tantas referências e uma trajetória que é muito maior do que aquilo que acontece no palco.
Para mim, isso é ótimo. Porque algumas leituras não precisam mudar aquilo que sentimos antes delas. Às vezes, basta nos permitir conhecer melhor aquilo que já amávamos.
Foi uma leitura que conseguiu me entregar mais do que eu esperava de uma autobiografia de um astro do rock. Comecei querendo conhecer melhor Bruce Dickinson e terminei interessada também na pessoa que existia antes e continua existindo além do palco.
Saio da leitura com ainda mais admiração pelo trabalho que existe por trás do talento e, principalmente, com a sensação de que algumas das coisas que já me encantavam no Iron Maiden, como a presença de referências históricas, literárias e mitológicas nas músicas, fazem ainda mais sentido depois de conhecer um pouco melhor o homem que está por trás delas. ps.: edição, diagramação e revisão impecável com algumas fotos e imagens raras.
Boa leitura e #uptheirons !
”
Detalhes da Obra
- Título Original: What Does This Button Do?
- (An Autobiography)
- Autor: Bruce Dickinson
- Tradução: Jaime Biaggio
- Editora: Intrínseca
- Páginas: 320 fls.
- Ano: 2018
+ Ler Sinopse
"Uma leitura para quem gosta de biografias, rock, cultura inglesa, história, literatura e mitologia, mas também para quem tem curiosidade sobre o trabalho que existe por trás de uma carreira extraordinária."



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