Resenha :: Ressurreição (Resurrection)

 Olá, leitores! Hoje quero falar de Ressurreição, de Tolstói, uma leitura densa, linda e sofrida na mesma proporção.

Uma das curiosidades desse romance é que, ao contrário da maioria dos romances, temos o relacionamento amoroso como pano de fundo para outras questões, que ganham o primeiro plano e conduzem a vida dos personagens. Enquanto isso, o personagem principal luta para deixar de ser uma engrenagem e passar a ser parte ativa da própria história, e a “mocinha” se torna heroína da própria vida e responsável por si.


"E o povo entrou nessa situação de modo tão gradual que ele mesmo não enxerga todo o seu horror e não se queixa disso conto, portanto também achamos que tal situação é natural e assim deve ser. "



Tudo começa quando Nekhliúdov está em um tribunal e reconhece, entre os acusados, alguém que, no passado, foi objeto de suas atenções libidinosas. Agora ele sente o peso de uma consciência tardia diante da possibilidade de ter tido parte, ou até mesmo toda a responsabilidade, no destino daquela que amou e esqueceu com a leviandade permitida por sua idade e posição social.

Surge, então, uma busca pelo perdão. E, durante essa busca, acontece também um processo de transformação: Nekhliúdov vai perdendo a venda social que o impedia de enxergar as distorções existentes na estrutura do governo, do Judiciário e da religião. Ele passa a perceber como essas estruturas afetam a vida das pessoas e como aqueles que estão à margem da sociedade acabam sendo tratados como peças descartáveis. Em nenhum momento, porém, senti esse mesmo peso recaindo sobre o imperador.

Assim como em minha leitura anterior do autor, noto que Tolstói tece a vida dos personagens com o mesmo fio, que ganha tons e cores no primeiro plano, mas continua tão igual no verso que, ao cortar um, todos caem como um castelo de cartas. E, ainda assim, chama a atenção para aqueles considerados tão desnecessários que não merecem sequer um nome especial, herdando o mesmo nome que foi dado a tantos outros que morreram antes.

É um livro dividido em três partes, no qual acompanhamos Nekhliúdov se desconstruir e buscar se tornar alguém mais justo e correto. Nesse caminho, ele acaba se deparando com seus próprios “moinhos de vento” e com estruturas muito maiores do que ele.

Talvez seja justamente essa transformação que tenha feito Ressurreição permanecer tanto tempo comigo. Tolstói nos coloca diante de questionamentos que, embora tenham sido formulados em outro tempo e em outra realidade, continuam atuais. E, tal como anuncia o Sermão do Monte, mais uma vez encontro aqui uma mensagem que atravessa a leitura: a verdade liberta.

Uma leitura densa, linda e sofrida. Daquelas que não deixam quem lê imune aos questionamentos que provoca e que continuam ecoando mesmo depois de terminada a história.

Boa leitura e divirta-se!

Capa do Livro

Detalhes da Obra

  • Título Original: Voskresênie (Воскресение)
  • Título em inglês: Resurrection
  • Autor: Liev Tolstói
  • Prefácio: Natália Ginzburg
  • Tradução: Rubens Figueiredo
  • Editora: Companhia das Letras
  • Páginas: 444 fls.
  • Ano: 2020
+ Ler Sinopse
Último romance do autor, publicado pela primeira vez em 1899.

No tribunal para compor o júri que vai definir o futuro de Máslova ― prostituta acusada de roubar e envenenar um cliente ―, o príncipe Nekhliúdov reconhece a serva por quem, no passado, se apaixonou. Depois de seduzi-la e abandoná-la, ele agora se vê às voltas com a difícil decisão de definir sua sentença. Ao abordar a tensão social, os privilégios da justiça e a situação carcerária, o autor de Guerra e paz e Anna Kariênina narra uma trama fascinante que tem como pano de fundo a Rússia às vésperas da revolução.

Para Natalia Ginzburg, que assina o prefácio desta edição, “nos romances de Tolstói, descoberta e compreensão se desenvolvem e crescem quase sob nossos olhos, num ritmo de festa solene; e cada romance, cada destino de cada personagem se encerra numa festiva e solene celebração da realidade”.
Minha experiência
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"Para quem gosta de clássicos que vão muito além da história de seus personagens e querem uma leitura que provoque reflexões sobre justiça, privilégios, responsabilidade e as estruturas sociais que determinam o destino das pessoas."

Minhas resenhas refletem sempre minha opinião sincera e pessoal.

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