Resenha :: Belas Maldições (Good Omens)



Belas Maldições, escrito em parceria por Neil Gaiman e Terry Pratchett, é daqueles livros que parecem ter sido construídos com a intenção de nos fazer rir enquanto, sorrateiramente, nos fazem pensar. Eu ganhei este livro da Luiza, do Livros de Bela, e ele acabou sendo minha primeira experiência com um texto de Neil Gaiman. Depois dessa leitura, consigo entender muito melhor o amor da Gabriela pelos textos dele. 

O mundo vai acabar no próximo sábado, mais precisamente, pouco antes da hora do jantar. O Grande Plano divino está em andamento e, aparentemente, não existe nada que possa ser feito para impedir o Armagedom. O problema é que uma freira satanista um tanto distraída acaba cometendo um pequeno, porém gigantesco, erro durante a troca de bebês e o anticristo vai parar no lugar errado. E, a partir daí, tudo começa a dar errado ou talvez a dar certo para quem não está muito interessado no fim do mundo.

É nesse cenário que encontramos Aziraphale, um anjo dono de sebo, e Crowley, um demônio que, além de ter sido a serpente responsável por tentar Eva, atua na mesma região. Os dois estão na Terra desde o Princípio e, durante todo esse tempo, cometeram o pequeno pecado de se apegar aos humanos eles gostam daqui e gostam tanto que não estão exatamente animados com a possibilidade de assistir à destruição do mundo. E é justamente essa amizade improvável — ou parceria, ou qualquer coisa que exista entre um anjo e um demônio que passaram tempo demais convivendo — que dá uma das melhores dinâmicas da história.

Minha primeira impressão foi de que estava diante de uma fantasia bastante tradicional em sua estrutura: personagens diferentes, cenários que se alternam, núcleos narrativos que vão se desenvolvendo paralelamente e, aos poucos, convergindo e me surpreendi com a leveza com que isso acontece.

A alternância entre personagens e cenários não deixa a leitura fragmentada. Pelo contrário. Tudo flui de maneira muito natural e linear, fazendo com que a gente acompanhe as diferentes partes da história sem aquela sensação de estar sendo arrancado de uma narrativa para começar outra.

E então existe o humor, um humor recheado de sarcasmo, ironia e uma inteligência refinada que aparece justamente quando menos esperamos é daquele tipo de humor que não precisa explicar a própria piada, você entende e ri.E, algumas vezes, percebe alguns segundos depois que havia uma segunda camada escondida ali.

A história ainda reúne uma jovem ocultista, um livro de profecias que prevê com precisão assustadora os acontecimentos do fim do mundo, caçadores de bruxas, uma antiga tradição familiar e, claro, os Quatro Cavaleiros do Apocalipse, tudo isso enquanto o relógio corre em direção ao sábado em que o mundo deveria acabar e uma das coisas que mais gostei foi justamente perceber que nada parece estar ali por acaso, desde os nomes dos personagens até os lugares, referências e situações, existe uma quantidade enorme de detalhes escondidos na construção da história e alguns, inclusive, merecem um Google depois da leitura.

É daqueles livros em que uma pesquisa aparentemente inocente pode revelar uma piada, uma referência ou uma escolha que deixa tudo ainda mais interessante mas, preciso falar também da edição que li:  A experiência de leitura foi maravilhosa, a introdução com as marcações de tempo e personagens tornou a leitura ainda mais prazerosa. A diagramação está primorosa, as folhas amarelas são agradáveis, as marcações e separações ajudam muito na organização do texto e as notas de rodapé são um espetáculo à parte, eu gosto muito quando a edição entende que um livro não é apenas o texto; O conjunto também conta uma história.

Nesse caso, todos esses detalhes contribuíram para que eu quisesse desacelerar a leitura, e foi exatamente o que fiz, li devagar, uma parte por dia. Foram cinco dias degustando a história, cinco dias rindo muito em algumas partes, parando em outras para pensar e aproveitando cada detalhe sem aquela ansiedade de simplesmente chegar ao final.


Capa do Livro

Ficha Técnica do Livro

  • Título original: Good Omens
  • Autores: Neil Gaiman, Terry Pratchett
  • Tradução: Fábio Fernandes
  • Editora: Bertrand Brasil
  • Páginas: 350 fls.
  • Ano: 1998 1ed.
+ Ler Sinopse
O mundo vai acabar em um sábado. No próximo sábado, para falar a verdade. Pouco antes da hora do jantar. Não há nada que possa ser feito para frustrar o Grande Plano divino. Mas quando uma freira satanista um tanto distraída estraga um esquema de troca de bebês e o pequeno Anticristo acaba sendo entregue ao casal errado, tem início uma série de erros cômicos que podem ameaçar o próprio Armagedom.

Aziraphale é um anjo que atua na Inglaterra e dono de um sebo nas horas vagas. Crowley é um demônio e ex-serpente responsável pela mesma região. Ambos veem nessa confusão uma grande oportunidade, porque os dois, que vivem entre os humanos desde o Princípio, apegaram-se demais ao mundo para desejar a grande batalha entre o Céu e o Inferno. Em sua jornada para evitar o Armagedom e encontrar o Anticristo, agora um menino de 11 anos vivendo tranquilamente em uma cidadezinha inglesa, eles acabarão trombando com uma jovem ocultista, dona do único livro que prevê com precisão os acontecimentos do fim do mundo, com caçadores de bruxas ainda na ativa e, quem sabe, até com os Quatro Cavaleiros do Apocalipse. Mas eles terão de ser rápidos. Não é só o tempo que está acabando...

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