Olá, leitores. Hoje venho falar do novo lançamento da Laurie Halse Anderson, autora do livro
Fale!, que você já pode conferir a resenha,
clicando aqui. Espero conseguir passar tudo que eu senti e vivi lendo essa
história.
Começamos conhecendo uma garota com problemas, afinal ela está em um
"castigo" escolar, que consiste
em atividades extras após a aula regular. Ela começa dizendo que seus
colegas são zumbis ou
"esquilos". E vamos vendo como
ela qualifica os que são diferentes dela ou iguais ao que ela gostaria de
ser. Afinal, somos apresentados à realidade de Hayley, pelo menos a
realidade que ela vive nesse momento, porque não deixa de se lamentar pela
opção do pai de voltar à cidade natal dela para tentar levar uma vida
“normal”. Porém logo fica claro
que ambos estão longe da normalidade.
As lembranças do tempo que passaram viajando de caminhão, onde seu pai
tentava fugir das lembranças que os assombram, se tornam cada vez mais doces
à medida que as coisas para Andy vão se complicando. Nesse meio tempo,
começaram a surgir os mistérios, de coisas não contadas ou fatos que não
veem a tona totalmente, alguns logo esclarecidos, porém que vão criando algo
ainda maior, e que foram me prendendo na leitura de uma maneira muito
fluida, que não dava nenhuma vontade de largar o livro apesar de que eu
realmente tinha que dormir (Quem nunca?).
"Fiquei olhando para os zumbis na calçada que recitavam suas falas teatrais, indo até a beira do palco, interpretando a vida real."
As coisas começam a ganhar um ritmo mais intenso. e até assustador, quando
o passado começa a bater na porta de Hayley e ficamos sabendo o que
aconteceu antes dos anos em que ela viajou com o pai pelo país. Porque temos
o contraponto do pai que não consegue esquecer e de sua filha que não
consegue lembrar. Ela cria escudos para se proteger dos problemas que sua
vida enfrenta, porém fica nítido que esses escudos funcionam tão bem quanto
uma peneira.
À medida que a história avança, Hayley tem que enfrentar na escola a vida
de uma adolescente e em casa a de única pessoa emocionalmente estável.
Afinal, ela é obrigada a ver seu pai ser lentamente derrotado pela depressão
e se entregando às drogas e à bebida para calar os demônios interiores.
Demônios esses que são mostrados em capítulos intercalados aos da filha e
deixam a leitura ainda mais profunda aos temas abordados. Como alguém, com
menos de 18 anos, pode lidar com algo que afeta tão profundamente aquele que
deveria ser seu protetor e cuidador, e a expõe aos traumas que trouxe das
guerras em que foi soldado, da ausência de uma figura materna que equilibre
sua vida, onde seu refúgio é na casa da sua amiga.
"Não se pode fugir da dor, garota. Lute com ela e fique mais forte."
Amiga essa que mostra a Hayley que, mesmo não tendo a mesma realidade que a
dela, ainda enfrenta problemas e que a vida perfeita não existe como ela
gostaria de imaginar, para além de sua casa. Aqui, preciso deixar
claro, que apesar da escrita da autora ser extremamente delicada e
cuidadosa, o impacto dos temas não é menor. Pelo contrário, parece tornar
tudo ainda mais intenso e verdadeiro. A cada avanço na leitura, as emoções e
pensamentos de quem ler ficam totalmente envolvidos pela história.
E um livro que poderia ser extremamente pesado e perturbador, ganha na
amizade e no interesse romântico de Hayley o
"alívio" aos temas abordados,
porque Finn, com seu jeito encantador e divertido, entra no seu mundo
sem pedir licença e faz com que ela comece a encarar o fato de que logo será
responsável pela própria vida e que o futuro é algo mais próximo do presente
que o passado.
"Quando eu estava com Finn, o mundo girava direitinho na sua órbita, e a gravidade funcionava. Em casa, o planeta se inclinava tanto que era difícil dizer qual era o lado para cima."
Porém, Andy cada vez mais coloca um
"tic-tac" sobre a vida da
própria filha, trazendo a sua ex-namorada de volta para a vida dele e de
Hayley, que se vê obrigada a aceitar as lembranças que voltam independente
de sua vontade de esquecer, que mesmo Finn tem seus próprios problemas para
enfrentar e que evitar a morte intencional ou não de seu pai pode estar
muito além de suas forças.
Eu, realmente, amei a leitura dessa história, porque nos mostra uma Hayley
que cresce durante a história, amadurece enquanto pessoa e que a vida real
entra em seus dias de uma forma única para quem viveu sobre rodas durante um
período importante da sua vida escolar. A escola é retratada de uma maneira
real, onde temos professores que realmente tentam ensinar e despertar a
vontade de aprender, que se preocupam e outros que encaram tudo como um
emprego ou até penitência a cumprir.
"Uma pessoa que precisa anunciar que é digna de confiança merece mais é que a gente minta."
Que sem perceber projetamos nossos problemas em outras pessoas, e que essas
mesmas pessoas estarão ao nosso lado para nos dar um choque de realidade,
que pode ser o divisor que precisamos para que consigamos dar uma resolução
ao problema ou pelo menos vermos com outros olhos. E que o amor, de todas as
maneiras — seja entre amigos, namorados ou pai e filhos —, é sem dúvida uma
força que nos move em direção à vida, a continuar lutando e tentando. Me
deixando no fim do livro com o gosto da palavra
esperança no coração, marcando
a leitura.
Preciso acrescentar que mesmo para alguém que sofra de alguma das doenças
abordadas na história, a leitura É recomendada. Não tem gatilhos, e a forma
como tudo é tratado mostra as possíveis
"armadilhas" da doença. O que
pode ajudar a alguém a reconhecer que precisa de ajuda, ou que aquela pessoa
que você conhece pode estar passando por algo assim.
A edição está maravilhosa, com os capítulos curtos que são marca da autora,
em uma fonte maravilhosa para leitura tanto no físico quanto no
e-book; a diagramação perfeita e
sem erros de ortografia ou digitação. A capa do livro físico está linda e as
orelhas são dignas de uma leitura com atenção e carinho.
Ficha Técnica do Livro
- Título original: The Impossible Knife of Memory
- Autora: Laurie Halse Anderson
- Tradução: Pedro Jorgensen Junior
- Editora: Valentina
- Páginas: 352 fls.
+ Ler Sinopse
“Apesar das minhas melhores intenções, eu começava a entender como meu pai
via o mundo. As sombras que perseguiam cada ser vivo. Os segredos dentro das
mentiras, as mentiras dentro das fachadas hipócritas.”
A adolescente Hayley Kincain e o pai, Andy, passaram cinco anos viajando de
caminhão, fugindo das lembranças que os assombram. Agora, estão de volta à
cidade natal de Andy para tentar levar uma vida “normal”, mas os horrores
que ele testemunhou na guerra ameaçam destruir a existência de pai e filha.
De mãos e pés atados, Hayley é obrigada a vê-lo ser lentamente derrotado
pela depressão, e se entregar às drogas e à bebida para calar os demônios
interiores. É então que seu próprio passado vem à tona, e o presente se
estilhaça... anunciando um futuro totalmente incerto. O que você deve fazer
para proteger a vida de seu pai quando a morte o está rondando? Que atitude
tomar quando os papéis de pai e filha se invertem? E o que acontece quando
aquele garoto encantador e divertido entra no seu mundo sem pedir licença e,
pela primeira vez, você se vê pensando no futuro?
Atual, surpreendente, irresistível, A impossível faca da memória é Laurie
Halse Anderson no seu auge.






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Que livro e que resenha! Eu acho tão válido leituras assim e sempre encontro partes com as quais me identifico ou levo alguma reflexão para mim.
ResponderExcluirAdoro também o amadurecimento do personagem. Realmente esse parece ser um livro envolvente e muito emocionante. Eu não conhecia e agora fiquei com imensa vontade de ler. bjs
Também gosto muito quando uma leitura consegue provocar esse tipo de identificação e reflexão. E o amadurecimento do personagem foi uma das coisas que mais me chamou atenção. Espero que você consiga conhecer o livro! Beijos.
ExcluirOlá!
ResponderExcluirEu não conhecia esse livro, mas gostei muito da sua resenha. Parece ser realmente uma boa leitura, amo quando os personagens "crescem" no livro e ele também parece ser daqueles livros que nos fazem questionar e nos inspiram. Adorei!
Beijos.
Sim! Também gostei muito dessa ideia de acompanhar o crescimento dos personagens enquanto a história vai revelando suas camadas. Espero que você consiga ler. Beijos!
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