Olá, leitores. Hoje venho falar de um livro que nos remete a uma frase
muito usada no meio literário; que é a leitura que nos faz
“sair da zona de conforto” dos
livros que habitualmente lemos, porém asseguro que esse convite se faz ainda
maior nessa obra.
Compaixão, apesar do que alguns podem erroneamente pensar, não é um livro apenas de
autoajuda, e sim um texto que nos faz pensar, refletir e literalmente
“sair da zona de conforto”,
tanto literária, quando de nossa rotina de vida, tanto emocional quanto
diária. Um texto instigante e, de certa forma, duro para com nossos
paradigmas, e que de forma hábil me levou a repensar, perguntar, criticar
até que novos conceitos fossem formados, e um novo modo de ver e viver em
sociedade enquanto indivíduo ou integrante de um grupo fosse criado,
substituindo o anterior.
"Vamos nos acostumando aos clichês da ilusão do mundo perfeito, e nos tornando prisioneiros da imperfeição, aprisionados pela falsa sensação da zona de conforto."
Eu fiquei impressionada com a fluidez do texto, que fez com que eu me
sentisse em um auditório intimista, durante uma palestra interativa e, mesmo
com a seriedade dos temas propostos e abordados, leve e divertida. Ora, quem
nunca se viu em uma situação como a do autor, ao ser visto dirigindo um
carro velho, não tem como não deixar de sorrir diante o absurdo dela.
De forma simples, conceitos antropológicos são levantados a partir do ponto
de partida da compaixão, com ilustrações de vivências que mostram de maneira
clara e pedagógica os conceitos anteriormente colocados pelo autor. Outra
coisa que muito me impressionou, e de forma positiva devo salientar, foi o
fato de que questões como atitudes que em um primeiro momento são
“cheias de compaixão” e, quando
colocadas à luz da realidade, se mostram tão
“fakes” quanto as correntes que
circulam em aplicativos de conversas. E outras tão simples, como servir, são
na realidade o cerne da compaixão.
“Servir é a compaixão em ato, em plena ação. É o que nos dá a sensação de plenitude humana.” “E Servir não tem status, cargo, poder ou qualquer outra condição de mérito”.
Alguns pontos me tocaram de maneira profunda, como o fato da compaixão não
carecer de uma situação de vulnerabilidade para que a mesma seja praticada.
Apesar de que eu penso que, mesmo não estando vulnerável socialmente, o
conceito colocado possa ser aplicado quando a falta da compaixão acarreta a
falta de empatia e doenças sociais, como preconceito para com o diferente, a
minoria, “o outro”. De que, a compaixão enquanto assistencialismo não basta,
mesmo sendo necessária. Que o principal é
“não dar apenas o peixe, e sim ensinar a pescar”.
E sobre esse prisma, somos convidados a observar o tempo presente enquanto
esse está acontecendo e se tornando passado, e moldando o que virá ser nosso
futuro. Porém esse exercício mostra com uma clareza dura o que é o tempo das
redes sociais, das conversas cada vez mais via tecnologia e o afastamento
das pessoas na vida real. Que para mim, nesse ponto temos o maior incômodo
desse exercício. Que nos obriga a olhar mais de perto o que tendemos a não
nos dar conta, ou
“esquecemos” enquanto sociedade,
porque simplesmente não queremos ver. Por serem visões distintas quanto ao
tempo e ao social.
"Compadecer-se não significa ser piedoso, mas reconhecer que o ajudado é alguém que merece justiça. (...) acabamos tratando os de fora com certa invisibilidade, até para atenuar o nosso despreparo em aceitar o que nos é diferente."
A abordagem do discurso vazio de verdade, onde a retórica não condiz com as
atitudes, e até total falta delas, é direto e cercado de fatos que sustentam
a abordagem de forma precisa e concisa. Que mostra que ao fazermos escolhas,
além de uma renúncia, gera no ato uma responsabilidade. E com isso um
convite desafiador a tornar a compaixão um ato de cidadania, de respeito à
existência do outro enquanto pessoa dotada de direitos e deveres iguais ao
do que pratica a compaixão, assim nos levando a outros conceitos que devemos
não somente entender, mas colocar em prática no nosso modo de agir e viver.
E assim, somos levados de volta ao primeiro capítulo, onde somos
confrontados com o fato de que a morte é que coloca a vida em perspectiva, a
inevitabilidade do fim que refresca nossa memória para ausência da
imortalidade. Seja essa morte física ou social enquanto moral e
costumes.
Esse livro não é em momento nenhum um
"guia em alguns passos" para ser
alguém que viva a compaixão em plenitude. Mas sim, um convite aberto a
olhar, indagar e sim discordar da abordagem do autor de como o conceito está
distorcido e a vivência fora do contexto. Um desconforto altamente
recomendável a todos que sabem que
"pensar é existir". E que viver
é mais que existir, é agir!
Fica a super dica, inclusive como presente para o dia dos pais. Uma edição
impecável, uma capa lindíssima, diagramação fantástica em
papel pólen, um texto maravilhoso e sem erros de digitação ou
ortografia.
Ficha Técnica do Livro
- Autor: Fernando Moraes
- Editora: Novo Conceito
- Páginas: 120 fls.
+ Ler Sinopse
Nesta obra, Fernando Moraes nos faz pensar a compaixão dentro de um conceito
totalizante, que navega pelo nosso cotidiano e não somente dentro dos
contextos que a exigem. Com uma abordagem simples dentro de uma perspectiva
social, ele trata com cuidado a compaixão, transitando pela cidadania, pela
convivência social e pela vivência das pessoas, e, fundamentalmente,
mostrando como ela nos absorve, sem muitas vezes termos consciência disso.
Muito se fala nas rodas das ciências humanas sobre resiliência, alteridade,
empatia, altruísmo, sentimento de compaixão, pertença, solidariedade e
tantos outros conceitos, e em como buscamos reconhecer o outro, aquele
diferente de nós, aquele que muitas vezes é o nosso inferno, mas que também
nos faz inferno de alguém.
Para Fernando Moraes a compaixão é a consciência permanente de que existe o
outro. E solidariedade é o efeito natural de identificar o outro por essa
consciência e dar vida a essa relação. Sendo assim, uma não existe sem a
outra. Entretanto, mesmo tendo essa condição indissociável, costumeiramente
tentamos estabelecer interlúdios.
Segundo o autor, quando adotamos a compaixão como exercício cotidiano,
estamos na verdade dizendo aos outros: “Eu vejo vocês”. Compaixão como
convite à existência é o grande desafio aqui proposto.






.png)
.png)


ARRASOU no post <3 Sensacional. Fiquei imensamente curiosa para ler esse livro, que deveria ser lido pela humanidade, infelizmente o que vemos diariamente é pessoas julgando o próximo, ignorando completamente o sentimento alheio, apenas com falsos moralismos e discursos vazios. obrigada pela dica. Beijos.
ResponderExcluirObrigada! ❤️ Foi uma leitura que realmente me fez pensar muito sobre o assunto, principalmente sobre a diferença entre ajudar alguém e simplesmente querer parecer uma pessoa boa. Bjs
ExcluirQue resenha mais rica! Vi esse livro a pouco tempo e me chamou muito a atenção por abordar a compaixão de uma forma que me parece bem completa!
ResponderExcluirEntendo bem quando diz que algumas são fakes, tem gente que faz o bem pra se sentir bem e não pra ajudar propriamente :/
osenhordoslivrosblog.wordpress.com
Exatamente! Acho que foi essa discussão sobre uma compaixão verdadeira, e não apenas performática, que mais me chamou atenção no livro. Obrigada pelo carinho com a resenha! ❤️
Excluir