Leitura Compartilhada :: Madame Bovary: Mœurs de province

 

Há livros que chegam até nós como grandes clássicos e, antes mesmo de abrirmos a primeira página, já carregam uma história própria. Foram lidos, discutidos, criticados, adaptados e, muitas vezes, transformados em referência para tudo aquilo que veio depois, é o caso de 'Madame Bovary', de Gustave Flaubert.

Nesta Leitura Compartilhada, vamos voltar à França do século XIX para conhecer Emma Bovary, uma mulher que sonha com uma vida muito diferente daquela que encontra ao seu redor. Entre expectativas, romances, desejos e as limitações de uma sociedade provinciana, Flaubert constrói uma personagem que ainda hoje provoca perguntas, desconfortos e, principalmente, muitas conversas.

☕ Então, prepare seu café, seu chá ou aquela bebida que acompanha melhor uma boa leitura e venha conversar conosco sobre um dos romances mais importantes da literatura ocidental.

🖋️ Gustave Flaubert: o escritor da palavra exata

Gustave Flaubert nasceu em Rouen, na França, em 1821, filho de um cirurgião-chefe do hospital da cidade. Cresceu muito próximo do ambiente hospitalar e, embora tenha iniciado os estudos de Direito em Paris, acabou abandonando a formação para se dedicar à literatura.

Flaubert ficou conhecido pelo rigor quase obsessivo com que trabalhava seus textos. Para ele, encontrar a palavra certa não era um detalhe: era parte essencial do trabalho literário. 'Madame Bovary' levou anos de escrita, reescritas e correções, em uma busca incansável pela expressão que melhor traduzisse aquilo que desejava dizer.

O resultado foi um romance que ajudou a transformar a maneira como a literatura observava seus personagens. Flaubert não se limita a contar o que acontece com Emma; ele mergulha em suas expectativas, frustrações e contradições, construindo uma narrativa em que o mundo exterior e a vida interior da personagem estão constantemente em tensão.

E há ainda uma frase atribuída ao próprio escritor que atravessou os séculos:

'Emma Bovary c’est moi.'

Independentemente das muitas interpretações que essa declaração recebeu, ela combina perfeitamente com uma obra em que o autor parece observar sua personagem com uma proximidade desconcertante.

📖 Uma mulher, muitos sonhos e uma realidade provinciana

Publicada originalmente em 1857, 'Madame Bovary' acompanha Emma, uma jovem criada no campo e profundamente influenciada pelos romances sentimentais que lê. Ao se casar com Charles Bovary, um médico do interior, ela espera encontrar na vida conjugal a paixão e o encantamento que imaginou tantas vezes nas páginas dos livros.

Mas a realidade se mostra muito menos extraordinária, o casamento, a rotina e a vida em uma pequena comunidade não correspondem às expectativas de Emma. A distância entre aquilo que ela deseja e aquilo que efetivamente possui passa a alimentar uma insatisfação cada vez maior, levando-a a buscar fora da vida cotidiana a emoção, o luxo e o romance que acredita merecer.

Flaubert ambienta a narrativa na Normandia, região que conhecia profundamente. O romance mistura lugares reais, como Rouen e Tôtes, a localidades imaginárias, como Yonville, criando uma representação muito particular da vida provinciana francesa.

O subtítulo original, 'Mœurs de province', algo como 'Costumes de província', já aponta para uma dimensão importante da obra. Emma não existe isoladamente. Ao redor dela estão a pequena burguesia, suas convenções, ambições, aparências e valores, compondo um retrato social que é tão importante quanto a história individual da protagonista.

E talvez seja justamente aí que o romance continue tão interessante: por trás da história de uma mulher insatisfeita, existe uma sociedade inteira sendo observada.

🕰️ Um escândalo literário que atravessou o tempo

Hoje pode parecer difícil imaginar que um romance como 'Madame Bovary' tenha sido considerado ofensivo a ponto de levar seu autor aos tribunais. Mas foi exatamente isso que aconteceu.

A obra começou a ser publicada em capítulos na 'Revue de Paris' em 1856. As descrições consideradas sensuais e a representação dos relacionamentos de Emma provocaram uma reação das autoridades, e Flaubert, o editor Léon Laurent-Pichat e o impressor Auguste-Alexis Pillet foram acusados de ofensa à moral pública e religiosa e aos bons costumes.

O julgamento aconteceu entre 29 de janeiro e 7 de fevereiro de 1857. Flaubert foi absolvido, embora a decisão judicial tenha feito críticas severas a determinados aspectos da obra. Poucos meses depois, o romance foi publicado em livro e o processo acabou contribuindo para ampliar enormemente a atenção do público sobre ele, o curioso é que o escândalo não apagou o romance, pelo contrário.

Com o passar do tempo, 'Madame Bovary' deixou de ser lembrado apenas como o livro que havia provocado um processo e passou a ser reconhecido como uma das obras fundamentais do Realismo. A precisão da escrita de Flaubert, a análise psicológica de Emma e o olhar atento para a sociedade de seu tempo fizeram do romance uma referência para gerações de escritores e leitores.

🍂 E por que ainda lemos Madame Bovary?

O que acontece quando aquilo que imaginamos para nossa vida é muito maior do que aquilo que conseguimos viver? Até que ponto nossas expectativas são realmente nossas? Quanto das nossas frustrações nasce da realidade e quanto nasce da comparação entre a vida que temos e a vida que acreditamos que deveríamos ter?

O romance também permite conversar sobre consumo, aparência, casamento, desejo, insatisfação, expectativas femininas e as pressões sociais que moldam nossas escolhas. A própria L&PM destaca a obra como um estudo dos costumes da França interiorana do século XIX, uma crítica à pequena burguesia e, sobretudo, uma investigação profunda da infelicidade de uma mulher aparentemente bem casada.

Por isso, nossa leitura não precisa procurar uma única resposta para Emma, podemos gostar dela, nos irritar com ela, compreendê-la em alguns momentos e questioná-la em outros. Podemos discutir Flaubert, suas escolhas narrativas e a maneira como ele constrói esse retrato tão minucioso de uma mulher em conflito com a própria vida.

Afinal, é para isso que uma Leitura Compartilhada existe: para descobrir que um mesmo livro pode morar em muitas leituras diferentes.

'Entre o que sonhamos e aquilo que vivemos existe um espaço cheio de histórias.'

🗓️ Nosso cronograma de leitura

Agora é só separar um cantinho confortável, marcar as páginas e entrar no mundo de Emma Bovary.

Início da leitura: 30 de março de 2020
Término da leitura: 26 de abril de 2020

Durante esse período, vamos acompanhar a leitura e compartilhar impressões, descobertas, incômodos, teorias e, claro, aqueles momentos em que precisamos parar e conversar sobre o que acabou de acontecer.

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Pegue seu livro, venha para a conversa e, principalmente, venha sem medo de ter uma opinião diferente. Uma boa leitura compartilhada é justamente aquela em que cada leitor encontra alguma coisa que o outro não havia percebido.

Capa do Livro

Ficha Técnica do Livro

  • Título original: Madame Bovary: Mœurs de province
  • Autor: Gustave Flaubert
  • Tradução: Ilana Heineberg
  • Editora: L&PM
  • Páginas: 336 fls.
  • Ano: 2003
+ Ler Sinopse
Emma é uma mulher sonhadora, uma pequeno-bur­guesa criada no campo que aprendeu a ver a vida através da literatura senti­men­tal. Bonita e requintada para os padrões provincianos, casa-se com Charles Bovary, um médico interiorano tão apaixonado pela esposa quanto entediante. Nem mesmo o nascimento de uma filha dá alegria ao indissolúvel casamento no qual a protagonista sente-se presa.

Como Dom Quixote, que leu romances de cavalaria demais e pôs-se a guerrear com moinhos, ela tenta dar vida e paixão à sua existência, escolha que levará a uma sucessão de erros e a uma descida ao inferno.

🔎 Fontes de pesquisa

Para a elaboração das informações sobre Gustave Flaubert, o contexto de 'Madame Bovary' e sua recepção crítica e histórica, foram consultadas fontes da L&PM Editores, da Bibliothèque nationale de France (Gallica), da Région Normandie, além de documentos históricos sobre o julgamento de Flaubert.

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