Leitura Compartilhada :: Dom Quixote de La Mancha (Don quijote de la mancha)

Há livros que atravessam os séculos sem perder a capacidade de nos surpreender. E há aqueles que, além disso, parecem nos convidar para uma longa conversa sobre a própria natureza das histórias, dos sonhos e daquilo que chamamos de realidade.

É com esse espírito que vamos embarcar em nossa próxima Leitura Compartilhada: Dom Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes.

Prepare o café, o chá, a poltrona favorita e, se possível, um pouco de paciência para acompanhar uma aventura de mais de mil páginas. Afinal, desta vez não teremos apenas um cavaleiro, seu fiel escudeiro e algumas confusões pelo caminho. Teremos uma obra que brinca com os limites entre ficção e realidade, entre loucura e lucidez, entre aquilo que enxergamos e aquilo que desejamos enxergar.

Publicado originalmente em duas partes, em 1605 e 1615, Dom Quixote nasceu há mais de quatro séculos e continua encontrando novos leitores. A edição escolhida para nossa leitura é a da Penguin-Companhia, traduzida por Ernani Ssó, com introdução de John Rutherford e posfácios de Ricardo Piglia e Jorge Luis Borges.

Então, que tal cavalgar conosco pela Mancha?


🖋️ Miguel de Cervantes, o homem por trás do cavaleiro

Miguel de Cervantes nasceu em Alcalá de Henares, na Espanha, em 1547. Sua vida foi muito menos tranquila do que poderíamos imaginar para alguém que viria a escrever uma das obras mais importantes da literatura ocidental.

Antes de se tornar escritor, Cervantes foi soldado. Em 1571, participou da Batalha de Lepanto, onde foi ferido por um tiro de arcabuz na mão esquerda. Anos depois, durante uma viagem de retorno à Espanha, foi capturado por corsários e passou aproximadamente cinco anos em cativeiro em Argel, até ser resgatado.

De volta à Espanha, dedicou-se à literatura e publicou diferentes obras, entre elas La Galatea, peças teatrais e, posteriormente, as Novelas Exemplares. Mas seria um certo fidalgo de La Mancha que faria seu nome atravessar os séculos.

Cervantes morreu em Madri, em 1616, pouco depois da publicação da segunda parte de Dom Quixote. Sua trajetória pessoal, marcada por viagens, dificuldades financeiras, experiências militares, cativeiro e trabalho literário, parece quase tão aventureira quanto as histórias que criou.

E talvez exista aí uma das curiosidades mais bonitas sobre o autor: Cervantes conheceu suficientemente bem o mundo real para escrever uma obra tão interessada na maneira como nós, seres humanos, inventamos outros mundos para habitá-lo.

📖 Uma história que nasceu para rir dos livros

No início do século XVII, os romances de cavalaria ainda eram muito populares na Espanha. Eram histórias povoadas por cavaleiros valentes, donzelas, gigantes, feiticeiros, batalhas e feitos extraordinários.

Na história, um fidalgo chamado Alonso Quijano passa tanto tempo lendo romances de cavalaria que começa a acreditar que pode se tornar um cavaleiro andante. Assume o nome de Dom Quixote de La Mancha, escolhe seu velho cavalo Rocinante, imagina uma dama para quem dedicar suas façanhas e parte pelo mundo em busca de aventuras.

O problema é que o mundo que Dom Quixote enxerga nem sempre corresponde ao mundo que está diante de seus olhos, aí que entra Sancho Pança. Camponês simples, pragmático e cheio de bom senso, Sancho aceita acompanhar o cavaleiro como seu escudeiro na esperança de receber a prometida recompensa. A dupla formada pelo idealista Dom Quixote e pelo muito mais terreno Sancho se transforma no coração de uma narrativa que consegue ser divertida, absurda, melancólica e profundamente humana ao mesmo tempo.

E se enxergar o mundo de maneira diferente não for apenas loucura?

Essa talvez seja uma das perguntas que podemos levar conosco durante a leitura.

🕰️ Uma obra que mudou de tamanho ao longo dos séculos

A primeira parte de Dom Quixote foi publicada em 1605, em Madri, e teve uma recepção muito mais calorosa do que às vezes se imagina, o sucesso foi rápido. Ainda em 1605 surgiram novas edições e até versões pirateadas, enquanto a obra começava a circular para além da Espanha. Em poucos anos, chegaram traduções para outros idiomas e novas edições foram publicadas em diferentes cidades europeias.

A popularidade também criou um problema inesperado. Em 1614, apareceu uma continuação não autorizada, atribuída a um escritor que utilizou o pseudônimo Alonso Fernández de Avellaneda. Cervantes respondeu publicando sua própria segunda parte em 1615.

Assim, aquilo que havia começado como uma sátira aos romances de cavalaria acabou se transformando em algo muito maior.

📚 Recepção crítica: de livro engraçado a clássico universal

Para seus primeiros leitores, Dom Quixote era sobretudo uma obra extremamente divertida. Durante boa parte do século XVII, a narrativa foi recebida principalmente como uma grande comédia, cheia de situações absurdas e episódios capazes de provocar gargalhadas. A Cambridge History of Spanish Literature observa que essa percepção cômica predominou tanto na Espanha quanto fora dela.

Um homem que confunde moinhos de vento com gigantes, uma bacia de barbeiro com um capacete mágico e que insiste em interpretar o cotidiano segundo as regras de seus livros de cavalaria oferece material praticamente inesgotável para o humor.

Dom Quixote passou a ser estudado como uma obra fundamental para a história do romance e como um texto que questiona as fronteiras entre realidade e ficção, autor e personagem, leitor e narrativa. A própria estrutura do livro, com narradores, manuscritos fictícios e comentários sobre a história que está sendo contada, permite que Cervantes brinque com a ideia de quem possui autoridade para contar uma história.

Hoje, a obra é frequentemente associada à formação do romance moderno, embora estudiosos também chamem atenção para o risco de projetarmos sobre Cervantes conceitos literários desenvolvidos muito depois de sua época. Ainda assim, seu lugar central na história do romance permanece incontestável.

Talvez a grande aventura de Dom Quixote seja justamente nos fazer perguntar onde termina a realidade e começa aquilo em que escolhemos acreditar.

🌎 De personagem espanhol a patrimônio da literatura mundial

A permanência de Dom Quixote ao longo de mais de quatro séculos não aconteceu apenas por sua importância histórica.

A obra continuou sendo traduzida, ilustrada, adaptada e reinventada em diferentes países e linguagens. O Instituto Cervantes destaca a extraordinária circulação europeia do livro desde os primeiros anos do século XVII, com traduções para o inglês, francês e italiano surgindo ainda nas primeiras décadas após sua publicação.

Dom Quixote e Sancho Pança deixaram de pertencer exclusivamente à Espanha, tornaram-se personagens do imaginário coletivo. A história ganhou adaptações para crianças e jovens, histórias em quadrinhos, desenhos animados, peças de teatro, filmes e musicais. O próprio selo Penguin-Companhia ressalta como o Cavaleiro da Triste Figura passou a representar, para diferentes gerações, a persistência humana na busca por seus ideais, mesmo quando essa busca parece impossível, exagerada ou até ridícula.

E talvez seja justamente por isso que ainda vale a pena ler o livro inteiro, não apenas conhecer a famosa cena dos moinhos de vento, mas acompanhar a estrada, as conversas, as histórias dentro da história, as discussões entre Dom Quixote e Sancho e todas as pequenas contradições que fazem dessa dupla uma das mais inesquecíveis da literatura.

🗓️ Nossa Leitura Compartilhada

Período da leitura: 05 de setembro a 31 de dezembro de 2022

💬 Espaço para nossa conversa: Grupo de Leitura no WhatsApp

Capa do Livro

Ficha Técnica do Livro

  • Título original: Don quijote de la mancha
  • Autor: Miguel de Cervantes
  • Tradução: Ernani Ssó
  • Editora: Penguin-Companhia
  • Páginas: 1.328 fls.
  • Ano: 2012
+ Ler Sinopse
O clássico fundador do romance moderno em nova tradução de Ernani Ssó, com introdução do acadêmico britânico John Rutherford e posfácios de Ricardo Piglia e Jorge Luis Borges.

Dom Quixote de La Mancha não tem outros inimigos além dos que povoam sua mente enlouquecida. Seu cavalo não é um alazão imponente, seu escudeiro é um simples camponês da vizinhança e ele próprio foi ordenado cavaleiro por um estalajadeiro. Para completar, o narrador da história afirma se tratar de um relato de segunda mão, escrito pelo historiador árabe Cide Hamete Benengeli, e que seu trabalho se resume a compilar informações. Não é preciso avançar muito na leitura para perceber que Dom Quixote é bem diferente das novelas de cavalaria tradicionais - um gênero muito cultuado na Espanha do início do século XVII, apesar de tratar de uma instituição que já não existia havia muito tempo.

A história do fidalgo que perde o juízo e parte pelo país para lutar em nome da justiça contém elementos que iriam dar início à tradição do romance moderno - como o humor, as digressões e reflexões de toda ordem, a oralidade nas falas, a metalinguagem - e marcariam o fim da Idade Média na literatura.

Mas não foram apenas as inovações formais que garantiram a presença de Dom Quixote entre os grandes clássicos da literatura ocidental. Para milhões de pessoas que tiveram contato com a obra em suas mais diversas formas - adaptações para o público infantil e juvenil, histórias em quadrinhos, desenhos animados, peças de teatro, filmes e musicais -, o Cavaleiro da Triste Figura representa a capacidade de transformação do ser humano em busca de seus ideais, por mais obstinada, infrutífera e patética que essa luta possa parecer.

☕ Agora é hora de começar a viagem...

Talvez a melhor maneira de entrar em Dom Quixote seja não esperar que ele seja apenas aquilo que ouvimos dizer que é, não é somente uma história sobre um homem que enlouqueceu lendo livros de cavalaria, nem apenas uma comédia e não é somente um clássico que precisamos conhecer porque alguém um dia decidiu colocá-lo em uma lista de grandes obras da literatura.

É uma história sobre leitura, imaginação, amizade, idealismo, desilusão e sobre a curiosa capacidade que os livros têm de modificar a maneira como enxergamos o mundo.

Então, vamos?

Rocinante já está esperando, Sancho provavelmente também e quanto aos moinhos... Bem, isso nós vamos descobrir juntos.

Fontes pesquisadas

Para a elaboração das seções sobre Cervantes, contexto histórico, recepção e legado, consultei a Biblioteca Nacional da Espanha – biografia de Miguel de Cervantes, a Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes, a Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes – Don Quixote (1605/1615)

Os dados bibliográficos e editoriais foram conferidos na página oficial da Penguin-Companhia.

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