Há histórias que começam quando alguém decide sair de casa e descobrir, por conta própria, o tamanho do mundo. Em Agnes Grey, esse caminho passa por casas alheias, crianças para educar, regras sociais e uma jovem que deseja conquistar alguma independência em uma sociedade que reservava poucas possibilidades às mulheres.
Nossa próxima Leitura Compartilhada será o primeiro romance de Anne Brontë. Entre 9 de fevereiro e 2 de março de 2025, vamos acompanhar Agnes em sua experiência como governanta e conhecer uma obra que nasceu da observação muito próxima da vida de sua própria autora.
Será a 67ª Leitura Compartilhada do Lendo com Elis. Separe seu livro, encontre um cantinho confortável e venha conversar com a gente enquanto avançamos pelas páginas.
🖋️ SOBRE A AUTORA
Anne Brontë nasceu em 1820, em Thornton, na Inglaterra, e era a caçula das três irmãs Brontë que se tornariam escritoras: Charlotte, Emily e Anne. Cresceu no ambiente intelectual bastante particular da família, ao lado dos irmãos e sob a influência do pai, Patrick Brontë, pastor anglicano.
Sua trajetória profissional também teve importância direta para sua literatura. Anne trabalhou como governanta em diferentes períodos, experiência que lhe permitiu conhecer de perto a posição peculiar ocupada por essas mulheres na sociedade inglesa. Educadas e responsáveis pela formação dos filhos de famílias abastadas, as governantas pertenciam a uma espécie de espaço intermediário: não eram criadas, mas tampouco eram consideradas integrantes da família.
Essa experiência forneceu à autora uma perspectiva bastante concreta para escrever Agnes Grey. A protagonista não surge apenas da imaginação literária de Anne, mas de um mundo que ela própria conheceu.
Em 1846, Anne publicou poemas em conjunto com Charlotte e Emily sob os pseudônimos Currer, Ellis e Acton Bell. No ano seguinte, Agnes Grey apareceu como seu primeiro romance, também assinado por Acton Bell. Seu segundo romance, The Tenant of Wildfell Hall, seria publicado em 1848.
Anne morreria em 1849, aos 29 anos, antes da segunda edição de Agnes Grey, publicada em 1850.
📖 A OBRA E SEU CONTEXTO
Agnes Grey é uma jovem que deseja ajudar sua família e conquistar alguma independência. Quando surge a oportunidade de trabalhar como governanta, ela imagina que finalmente poderá sair de seu ambiente familiar, conhecer o mundo e colocar em prática aquilo que aprendeu.
A realidade, porém, é muito menos simples, como governanta, Agnes passa a viver entre dois mundos. Ela recebe uma educação que a aproxima das famílias para as quais trabalha, mas sua posição social não lhe permite realmente pertencer a elas. Ao mesmo tempo, também não ocupa o lugar de uma criada. Essa condição intermediária é fundamental para compreender a experiência da personagem e o próprio contexto social do romance.
A narrativa acompanha sua passagem por diferentes ambientes familiares e pelas relações que estabelece com aqueles que estão sob sua responsabilidade e com aqueles que a contratam. Educação, dinheiro, aparência, comportamento, religião, classe social e expectativas para as mulheres atravessam essa trajetória.
A escolha da profissão não era casual. Para mulheres educadas que precisavam trabalhar, a posição de governanta estava entre as poucas ocupações consideradas respeitáveis pela sociedade da época. A própria Anne Brontë havia trabalhado nessa função, primeiro em Blake Hall, em 1839, e depois em Thorpe Green, entre 1841 e 1845.
Por isso, Agnes Grey costuma ser associado às experiências pessoais da autora. Mas a obra não se limita a reproduzir acontecimentos de sua vida. A experiência profissional de Anne se transforma em matéria literária para observar relações de poder, educação, comportamento e as limitações impostas às mulheres.
O romance também chama atenção pela escolha da primeira pessoa. Agnes conta sua própria história, conduzindo o leitor por suas experiências, percepções e aprendizados. É uma forma particularmente próxima de acompanhar uma jovem que está tentando descobrir como viver em um mundo no qual independência e segurança raramente caminham juntas.
A publicação também tem uma história curiosa. Agnes Grey e Wuthering Heights, de Emily Brontë, foram publicados em dezembro de 1847 pela editora de Thomas Cautley Newby, em uma edição conjunta de três volumes, com o romance de Emily ocupando os dois primeiros e o de Anne o terceiro.
Naquele mesmo ano, Charlotte Brontë havia publicado Jane Eyre, que rapidamente alcançou grande repercussão. Assim, os três romances das irmãs chegaram ao público praticamente juntos, mas em circunstâncias muito diferentes.
🕰️ RECEPÇÃO CRÍTICA: ONTEM E HOJE
Quando apareceu pela primeira vez, Agnes Grey acabou ficando à sombra dos outros romances das irmãs Brontë. A publicação conjunta com Wuthering Heights fez com que o livro de Anne fosse inevitavelmente lido em comparação com o romance de Emily, enquanto a proximidade com Jane Eyre também levou críticos a estabelecer paralelos entre as protagonistas.
Algumas das primeiras críticas chegaram a tratar Agnes como uma espécie de versão menos marcante da personagem de Charlotte. Essa comparação, que hoje pode parecer limitadora, ajuda a perceber como a recepção da obra esteve durante muito tempo condicionada pela necessidade de encaixar as três irmãs em uma mesma narrativa literária.
Com o passar do tempo, porém, Agnes Grey passou a ser observado também por aquilo que lhe é próprio. A experiência da governanta, a posição social ambígua dessa profissional e a atenção dedicada ao cotidiano de trabalho ganharam importância nos estudos sobre Anne Brontë.
A obra continua despertando interesse justamente porque aquilo que poderia parecer uma história doméstica e bastante particular abre espaço para questões maiores: quem pode trabalhar, quem pode educar, quem tem autoridade e o que significa ser uma mulher instruída quando as possibilidades de autonomia são tão limitadas.
Hoje, a leitura de Agnes Grey também permite olhar de outra maneira para Anne Brontë dentro da própria família literária dos Brontë. Em vez de enxergá-la apenas como a irmã mais nova de Charlotte e Emily, podemos acompanhar a voz que ela construiu para si mesma e perceber as escolhas particulares de sua literatura. A crítica contemporânea tem recuperado justamente essa autonomia da obra e de sua autora.
Talvez seja interessante levar essa mudança de olhar para a nossa própria leitura: o que acontece quando deixamos de procurar em Agnes aquilo que encontramos em Jane Eyre ou O Morro dos Ventos Uivantes e simplesmente acompanhamos a história que Anne decidiu contar?
🗓️ CRONOGRAMA E DINÂMICA DA LEITURA
Nossa leitura acontecerá de 9 de fevereiro a 2 de março de 2025.
A proposta é simples: teremos um cronograma para acompanhar a leitura e um espaço de conversa no Telegram, onde poderemos compartilhar impressões, dúvidas, descobertas e aquelas pequenas observações que surgem enquanto estamos lendo.
📚 Grupo de conversa: Lendo com Elis
Não é preciso correr para acompanhar ninguém. Cada participante pode seguir seu próprio ritmo e construir sua própria relação com Agnes, com a narrativa e com as questões que aparecerem pelo caminho.
A Leitura Compartilhada não é uma corrida até a última página. É um espaço para ler junto, conversar e descobrir como uma mesma história pode encontrar leitores completamente diferentes.
Ficha Técnica do Livro
- Título original: Agnes Grey
- Autora: Anne Brontë
- Tradução: Paulo Cézar Castanheira
- Editora: Martin Claret
- Páginas: 288
- Ano: 2015
+ Ler Sinopse
Talvez Agnes Grey peça justamente uma leitura sem pressa. Uma leitura que acompanhe Agnes pelas casas onde ela trabalhará, observe as pessoas ao seu redor e perceba também aquilo que existe nas pequenas situações do cotidiano.
Então prepare o café ou o chá, escolha seu cantinho preferido e deixe algumas páginas abertas para a conversa, a partir de 9 de fevereiro, Agnes Grey estará esperando por nós.
Nos vemos entre as páginas. ☕📖



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