Leitura Compartilhada :: A Intrusa


Há casas que parecem guardar tudo aquilo que acontece dentro delas. Um perfume que permanece no ar, um livro deixado aberto, uma mesa cuidadosamente arrumada. Em A Intrusa, Júlia Lopes de Almeida parte justamente dessa presença que quase não se vê para construir uma história cercada de expectativas, convenções e curiosidade.

De 9 a 30 de março, nossa 68ª Leitura Compartilhada vai nos levar ao Rio de Janeiro do final do século XIX para conhecer a história de uma jovem governanta que entra em uma casa sob uma condição bastante incomum: seu patrão não poderá vê-la.

Entre o que se revela e o que permanece escondido, teremos algumas semanas para acompanhar essa história e conversar sobre ela juntos. Vamos?


🖋️ SOBRE A AUTORA

Júlia Lopes de Almeida nasceu no Rio de Janeiro, em 1862, e construiu uma carreira literária bastante ampla, passando por romances, contos, crônicas, teatro, literatura infantil e jornalismo. Desde jovem esteve ligada à imprensa e publicou seus primeiros textos em Campinas. Ao longo de décadas, tornou-se uma escritora reconhecida no ambiente literário brasileiro, em uma época em que a presença feminina nesse espaço ainda encontrava muitas barreiras.

Sua trajetória também tem uma relação particularmente importante com a história da Academia Brasileira de Letras. Júlia participou do grupo que idealizou a instituição e foi a única mulher entre os idealizadores, mas não pôde ocupar uma cadeira porque a Academia foi constituída sem admitir mulheres. A cadeira número 3 acabou sendo ocupada por seu marido, o poeta Filinto de Almeida.

A Intrusa surge em uma fase de grande atividade literária da autora. Antes dela, Júlia já havia publicado obras como A Falência e Ânsia Eterna, e continuaria escrevendo romances, contos, peças e outros textos nas décadas seguintes.

Há ainda uma característica da trajetória de Júlia que combina especialmente com a história que vamos ler: muitos de seus romances chegaram primeiro aos leitores pelas páginas dos jornais, em formato de folhetim, antes de serem publicados em livro. Foi assim também com A Intrusa.

📖 A OBRA E SEU CONTEXTO

A Intrusa foi publicada inicialmente em folhetim no Jornal do Commercio, em 1905, e ganhou sua primeira edição em livro em 1908, pela Livraria Francisco Alves. A história se passa no Rio de Janeiro do final do século XIX, em uma sociedade marcada pela vida doméstica, pelas relações de família, pela posição social e pelas expectativas impostas às mulheres.

No centro da narrativa está Argemiro, um advogado viúvo que prometera à esposa, no leito de morte, não voltar a se casar. Sua filha, Maria da Glória, vive com os avós maternos, enquanto sua própria casa precisa de cuidados. A solução encontrada é contratar uma governanta.

É assim que Alice Galba entra em cena. Ou melhor, entra na casa sem que Argemiro possa vê-la. A condição estabelecida é tão peculiar que a presença da jovem passa a ser percebida de outras maneiras: pela transformação da casa, pelo cuidado com a menina, pelos objetos organizados e até pelos pequenos vestígios que deixam no ambiente a sensação de que alguém esteve ali.

Ao mesmo tempo, a chegada de Alice movimenta as relações ao redor de Argemiro. Sua sogra, pessoas próximas à família e outros personagens passam a interpretar a presença daquela mulher de maneiras diferentes. O próprio título da obra já abre uma pergunta interessante: intrusa para quem?

A narrativa trabalha justamente com esse jogo entre presença e ausência. Alice é uma personagem cuja personalidade vai sendo construída também pelas impressões que os outros têm dela, enquanto o leitor acompanha uma história em que aquilo que não é visto pode ser tão importante quanto aquilo que está diante dos olhos.

E há outro detalhe que vale levar para a leitura: A Intrusa nasceu como folhetim. A história foi inicialmente apresentada aos leitores em capítulos publicados no jornal, antes de ser reunida em volume. Esse percurso editorial ajuda a perceber a obra também como parte de uma tradição de leitura seriada muito presente na literatura do período.

A edição da Pedrazul que será nossa referência é de 2016, com 232 páginas. Estudos de crítica textual também mostram que existem variantes entre diferentes edições de A Intrusa, o que torna a escolha da edição de leitura especialmente interessante para quem gosta de observar a história de transmissão de um texto literário.

🕰️ RECEPÇÃO CRÍTICA: ONTEM E HOJE

Quando A Intrusa chegou ao formato de livro, em 1908, Júlia Lopes de Almeida já era uma escritora conhecida e respeitada. A publicação aconteceu depois de A Falência, de 1901, e de Ânsia Eterna, de 1903, em um período de prestígio de sua carreira.

Ao longo do século XX, Júlia Lopes de Almeida acabou ocupando uma posição curiosa: foi uma autora reconhecida em vida, mas posteriormente pouco presente na memória literária mais popular. Nas últimas décadas, pesquisadores e editoras passaram a recuperar sua produção, colocando novamente em circulação romances e contos que haviam ficado fora do centro das leituras brasileiras.

Hoje, A Intrusa também desperta interesse por aquilo que permite observar sobre seu próprio tempo. A casa, o casamento, a viuvez, a educação feminina, as convenções sociais e as relações de classe e raça aparecem entrelaçados à história. Ao mesmo tempo, uma leitura contemporânea inevitavelmente encontra nesse retrato marcas de uma sociedade que mudou, mas também questões que continuam provocando conversa.

Talvez uma das perguntas mais interessantes para levarmos conosco seja justamente esta: o que significa ser considerada uma intrusa quando uma mulher ocupa um espaço que a sociedade acredita não lhe pertencer?

🗓️ Nossa leitura

Nossa leitura acontecerá de 9 a 30 de março de 2025, com um cronograma para acompanhar a história e um espaço de conversa no grupo do Telegram.

💬 Grupo de conversa: https://t.me/LendocomElis

A proposta é simples: cada participante acompanha a leitura no seu próprio ritmo e encontra no grupo um espaço para compartilhar impressões, levantar perguntas, comentar descobertas e conversar sobre os acontecimentos da obra. Não é preciso ler exatamente no mesmo ritmo de todo mundo. 

A graça da Leitura Compartilhada está também em descobrir como uma mesma história encontra leitores diferentes.

Capa do livro A Intrusa, de Júlia Lopes de Almeida

Ficha Técnica do Livro

  • Título original: A Intrusa
  • Autora: Júlia Lopes de Almeida
  • Editora: Pedrazul
  • Páginas: 232
  • Ano: 2016
+ Ler Sinopse

Agora é preparar o cantinho de leitura e deixar que a casa de Argemiro nos receba. Talvez com um café por perto, algumas páginas por dia e aquela curiosidade gostosa de descobrir o que existe por trás de uma presença que quase ninguém consegue enxergar.

De 9 a 30 de março, vamos acompanhar A Intrusa juntos. E, quando as páginas começarem a revelar seus segredos, teremos o nosso grupo para conversar sobre tudo aquilo que a história deixou pelo caminho. ☕📖

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