Há casas que guardam lembranças. Outras parecem guardar silêncios, ressentimentos e segredos suficientes para atravessar gerações.
De 12 de março a 06 de maio de 2026, nossa 74ª Leitura Compartilhada abre as portas da chácara dos Meneses em Crônica da casa assassinada, de Lúcio Cardoso. Publicado originalmente em 1959, o romance nos aproxima de uma família mineira em decadência por meio das vozes daqueles que viveram dentro, ao redor ou à sombra daquela casa.
Desta vez, talvez seja interessante entrar sem procurar imediatamente uma versão definitiva dos acontecimentos. Cartas, diários, confissões, depoimentos e lembranças vão chegando aos poucos, como papéis encontrados em antigas gavetas, e cada voz acrescenta alguma coisa à história ao mesmo tempo que pode colocá-la novamente em dúvida.
A casa está aberta. Escolha seu cantinho de leitura e venha compartilhar conosco essa travessia.
🖋️ SOBRE O AUTOR
Mineiro de Curvelo e posteriormente radicado no Rio de Janeiro,
Lúcio Cardoso construiu
uma trajetória que ultrapassou o romance: escreveu contos, novelas, poesia e
teatro, trabalhou com jornalismo e também se aventurou pelo cinema e pelas
artes plásticas. Seu primeiro romance,
Maleita, apareceu em 1934, ainda
próximo de uma vertente regionalista; pouco depois, sua literatura se voltou
cada vez mais para os conflitos interiores, para as zonas de sombra das
relações humanas e para uma narrativa de forte densidade psicológica.

Imagem colorida por I.A.
Quando publicou
Crônica da casa assassinada, em
1959, Cardoso já possuía uma obra extensa e uma linguagem literária
amadurecida. O romance é frequentemente compreendido como um ponto de
culminância de caminhos que ele vinha experimentando em livros anteriores e
em sua própria escrita diarística.
Há ainda algo especialmente interessante em sua trajetória: literatura, diário, cinema e pintura não permaneceram compartimentos completamente separados. Cardoso parecia perseguir, por diferentes linguagens, maneiras de representar atmosferas, conflitos íntimos e personagens em situações-limite. Depois de um derrame em 1962 comprometer sua capacidade de escrever, dedicou-se intensamente à pintura.
📖 A OBRA E SEU CONTEXTO
Os Meneses pertencem a uma família tradicional de uma pequena comunidade mineira. A antiga posição econômica já não é a mesma, mas ainda permanecem o nome, as aparências e, sobretudo, a chácara familiar, lugar que concentra parte importante da identidade daquele grupo.
Na casa vivem os irmãos Demétrio, Valdo e Timóteo. A chegada de Nina, uma jovem carioca que se casa com Valdo, introduz uma presença nova naquele universo regulado por costumes, tensões e silêncios antigos. Ao redor dela estão também Ana, esposa de Demétrio, e outras pessoas ligadas à família, cada uma observando os acontecimentos de um ponto diferente.
Mas Crônica da casa assassinada não nos oferece essa história por meio de um narrador que organize tranquilamente tudo o que aconteceu.
O romance é construído como uma reunião de documentos: cartas, diários, confissões, depoimentos, memórias e outras narrativas pessoais. Diferentes personagens contam aquilo que viram, ouviram, imaginaram ou acreditaram compreender. Os acontecimentos não aparecem necessariamente em ordem cronológica, e as versões podem se aproximar, divergir ou se contradizer. Há inclusive marcas de supressões e intervenções nos textos reunidos, reforçando a impressão de estarmos diante de um conjunto de manuscritos recompostos por uma presença organizadora que nunca se apresenta diretamente ao leitor.
Por isso, descobrir o que ocorreu entre os Meneses não é apenas acompanhar um enredo. É também reconstruí-lo.
A própria casa ocupa um lugar singular nessa composição. Mais que cenário, acompanha materialmente a decadência da família: espaços, quartos, jardins e corredores participam da atmosfera de isolamento e deterioração. Estudos contemporâneos também têm observado no romance aproximações com elementos da tradição gótica, especialmente na relação entre espaço, confinamento, segredo e desagregação familiar.
Publicado em 1959, o livro surgiu em um momento em que importantes vertentes do romance brasileiro ainda eram associadas à representação social e regional. Cardoso, embora utilize Minas Gerais como território fundamental da história, desloca o centro da narrativa para a intimidade das personagens, para o desejo, a culpa, as relações familiares e as versões conflitantes da verdade.
Nossa edição de referência, publicada pela Companhia das Letras em 2021, traz posfácio de Chico Felitti e nova apresentação gráfica, com capa de Guilherme Xavier. O projeto de capa chegou a figurar entre os finalistas do Prêmio Jabuti de 2022 na categoria Capa.
🕰️ RECEPÇÃO CRÍTICA: ONTEM E HOJE
Quando Crônica da casa assassinada apareceu, em 1959, não passou silenciosamente pelo ambiente literário brasileiro. Sua forma pouco convencional e, principalmente, os conflitos familiares, morais e sexuais presentes na narrativa provocaram reações bastante diferentes.
Entre as respostas mais duras esteve a de Olívio Montenegro, que atacou o romance no Diário Carioca atribuindo-lhe um caráter “imoral”. Ao mesmo tempo, escritores como Manuel Bandeira e Aníbal Machado saíram em defesa da obra, chamando atenção para sua força literária, para a construção formal e para a profundidade de seus temas.
O tempo ampliou consideravelmente o espaço ocupado pelo livro. Hoje, Crônica da casa assassinada é frequentemente tratada pela crítica e pelos estudos literários como a obra central de Lúcio Cardoso e como um dos romances de destaque da literatura brasileira do século XX. Sua estrutura polifônica, o uso da escrita epistolar, a relação entre casa e decadência, os conflitos de desejo e repressão e as possíveis aproximações com o gótico continuam produzindo novas leituras.
Talvez esse seja um dos terrenos mais férteis para nossa conversa durante a Leitura Compartilhada: diante de tantas vozes, o que muda quando percebemos que conhecer uma história não significa necessariamente possuir uma única versão dela?
🗓️ CRONOGRAMA E DINÂMICA DA LEITURA
Nossa leitura de Crônica da casa assassinada acontece de 12 de março a 06 de maio de 2026.
Como nas demais Leituras Compartilhadas do Lendo com Elis, teremos um cronograma para orientar o avanço pelo livro e um espaço para conversar sobre personagens, acontecimentos, impressões e descobertas ao longo do caminho.
O cronograma funciona como companhia, não como obrigação. Cada participante pode adaptar o ritmo à própria rotina, avançar mais devagar quando precisar e construir sua relação particular com a obra.
A proposta continua sendo a mesma que nos reúne em torno dos livros: transformar a leitura individual em possibilidade de encontro, sem retirar dela aquilo que cada leitor precisa descobrir sozinho.
Ficha Técnica do Livro
- Autor: Lúcio Cardoso
- Editora: Companhia das Letras
- Posfácio: Chico Felitti
- Páginas: 560
- Ano: 2021
+ Ler Sinopse
8. ENCERRAMENTO
Talvez esta seja uma daquelas leituras para as quais vale reservar um pouco mais de silêncio: uma xícara de café ou chá por perto, algumas páginas sem pressa e disposição para escutar cada nova voz antes de decidir em qual delas acreditar.
Entre cartas guardadas, quartos fechados, lembranças incompletas e uma casa que parece carregar sua própria história, começamos mais uma Leitura Compartilhada.
De 12 de março a 06 de maio, estaremos com Lúcio Cardoso e os Meneses.
Espero vocês para abrir essas páginas comigo e, aos poucos, descobrir tudo o que essa casa ainda tem para contar.



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