A peça retrata a trágica e visceral história da princesa Salomé e sua obsessão perturbadora pelo profeta João Batista, culminando no famoso pedido da cabeça do profeta em uma bandeja, depois da dança dos sete véus.
Talvez uma pessoa sem muita atenção não perceba que estamos próximos da festa de São João, e esta obra fala justamente da morte de João, o Batista: a fatídica noite em que teve sua cabeça cortada e oferecida em uma bandeja de prata.
"Mas não é de bom aviso achar símbolos em tudo que se vê. Fica-se com a vida cheia de horrores."
Ao contrário do que pode dar a entender, a peça não relata os acontecimentos tais quais aparecem na Bíblia, mas constrói uma trama justamente entre as lacunas do texto. E é aí que Oscar Wilde encontra espaço para imaginar aquilo que a narrativa bíblica não conta.
Quais motivos teriam realmente levado Salomé a fazer o pedido que fez, em detrimento de tudo o que poderia pedir? Por que a dança de Salomé agradou tanto ao rei? De que, exatamente, Salomé abriu mão ao escolher a cabeça de João Batista? E por que o rei fica tão perturbado e triste ao ouvir seu desejo?
São essas perguntas que Wilde explora ao construir sua Salomé.
Salomé não compreende o silêncio de João Batista. Para ela, o silêncio parece uma afronta, porque ela não consegue aceitar que seu desejo não seja correspondido. João Batista, porém, é um mártir, isto é, uma testemunha, mas não dos homens: de Deus. Ele rejeita o pecado e aconselha Salomé a abandonar a maldade, mas ela não aceita essa recusa.
"Ocultavas, com as costas das mãos e a capa das blasfêmias, a face; punhas uma venda nos olhos como aqueles que só querem ver seu próprio Deus... Viste Deus, Iokanaan, mas não me verás jamais, e, se me tivesse visto, amar-me-ias decerto!"
E talvez seja justamente aí que esteja uma das partes mais perturbadoras da peça. O que começa como desejo se transforma em obsessão diante daquilo que não pode possuir. Salomé não consegue simplesmente aceitar o silêncio de João; ela precisa romper essa resistência, ainda que o preço seja trágico.
O autor, ao responder essas perguntas e tantas outras que surgem nas entrelinhas da história, também cria uma peça cuja leitura é deliciosa, mesmo para uma leitora que, como eu, não tem o hábito de ler peças. E isso é simplesmente mais uma prova da genialidade de Oscar Wilde na construção de seus textos.
É lamentável que Salomé tenha sido ofuscada durante tanto tempo pelo escândalo que sucedeu à prisão de Wilde. A peça precisou esperar vários anos para conquistar os palcos e receber a admiração que, a meu ver, lhe é devida. Obrigada Jaque pelo presente! Eu amei!!
Boa leitura e divirta-se!
”
Detalhes da Obra
- Título Original: Salomé
- Autor: Oscar Wilde
- Tradução: João do Rio
- Editora: Clube de Literatura Clássica
- Páginas: 112 fls.
- Ano: 2020
+ Ler Sinopse
A obra foi escrita originalmente em francês por Wilde em 1891 e publicada em Paris em 1893, antes de ser traduzida para o inglês por Lord Alfred Douglas em 1894.
"Uma releitura breve e provocadora de uma narrativa Bíblica conhecida, especialmente interessante para quem gosta de descobrir o que um autor pode criar justamente a partir das lacunas de uma história."



.png)
.png)


Nenhum comentário:
Postar um comentário