Resenha :: O alienista

a·li·e·nis·ta
adj m+f
adjetivo masculino e feminino
Que tem relação com a alienação mental ou seu tratamento.
sm+f
MED Especialista no estudo e tratamento de doenças mentais.
ETIMOLOGIA
der do lat alienus+ista, como esp.(michaelis.uol).
Olá leitores, ler um livro escrito em português do Brasil, de um Brasil que não existe mais, assim como a língua na forma em que era falada, visto o número de revisões e acordos pelos quais passou, além, é claro, do crivo do tempo, é algo mágico.

É um pouco como visitar outro país que não este: tão parecido e, ainda assim, capaz de causar estranheza. Eu confesso que não li nada sobre o texto antes, e minha referência que norteou o início da leitura foi o autor.

"A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente."

Confesso que a experiência foi ainda mais prazerosa por ler em e-book. Usei com larga fartura o dicionário online, que me bastava selecionar a palavra para “traduzi-la” para o cotidiano, enchendo assim minha vida de uma riqueza cultural indolor. Outro fator foi a “tradução” quase instantânea do texto em cenas imaginativas, deixando o texto claro e vivo em minha leitura.

A fluidez do texto e a excelente narrativa do autor garantiram não só o prazer da leitura, mas também o da história. Conhecer o médico Dr. Simão Bacamarte e a cidade de Itaguaí através da narrativa em terceira pessoa, que apresenta os fatos segundo as crônicas da cidade, foi uma experiência deliciosa. E assim, ao melhor estilo do dito popular “De médico e louco, todo mundo tem um pouco”, se desenrola uma história divertidíssima, que recomendo demais.

"A razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades; fora daí insânia, insânia, e só insânia."

Nessa leitura, vamos acompanhar o Dr. Simão Bacamarte, médico que decide dedicar-se ao estudo da loucura e funda, em Itaguaí, a Casa Verde. A partir daí, aquilo que parecia ser uma investigação científica vai ganhando proporções cada vez mais inesperadas, colocando em jogo os limites entre razão e loucura.

Machado constrói essa história com uma narrativa aparentemente simples, mas cheia de ironia e humor. A cidade de Itaguaí, seus moradores e suas reações diante das decisões de Bacamarte tornam-se parte de uma espécie de grande crônica dos costumes, em que a própria ideia de normalidade pode mudar conforme quem está estabelecendo suas regras.

"Nada tenho que ver com a ciência; mas se tantos homens em quem supomos juízo são reclusos por dementes, quem nos afirma que o alienado não é o alienista?"

Enquanto acompanhamos as experiências do médico, também somos convidados a olhar para a própria sociedade e para a facilidade com que classificamos aquilo que foge ao que consideramos normal.

Mas, para mim, há algo especialmente prazeroso em encontrar tudo isso dentro de uma linguagem que já não é exatamente a nossa. Ler Machado é também fazer uma pequena viagem no tempo. Algumas palavras pedem uma parada, uma consulta, uma pequena “tradução” para o cotidiano. E, no meu caso, longe de tornar a leitura cansativa, esse processo acrescentou uma camada à experiência.

Foi uma leitura fluida, divertida e muito mais viva do que eu esperava. E, talvez justamente por isso, saio dela com vontade de continuar visitando esse Brasil que já não existe, através das palavras de quem soube registrá-lo tão bem.

Sobre a edição, a que li foi a edição da Penguin-Companhia, formato digital com texto de apoio e introdução impecáveis assim como revisão e ortografia.

Boa leitura e divirta-se!

Capa do Livro

Detalhes da Obra

  • Autor: Machado de Assis
  • Introdução: John Gledson
  • Notas: Hélio Guimarães
  • Editora: Penguin-Companhia
  • Páginas: 104 fls.
  • Ano: 2014
+ Ler Sinopse
Clássico da literatura brasileira, este texto de Machado de Assis continua sendo, cento e trinta anos depois de sua publicação original, uma das mais devastadoras observações sobre a insanidade a que pode chegar a ciência. Tão palpitante quanto de leitura prazerosa, O alienista é uma dessas joias da ficção da literatura mundial.

Médico, Simão Bacamarte passa a se interessar pela psiquiatria, iniciando um estudo sobre a loucura em Itaguaí, onde funda a Casa Verde - um típico hospício oitocentista -, arregimentando cobaias humanas para seus experimentos. O que se segue é uma história surpreendente e atual em seu debate sobre desvios e normalidade, loucura e razão. Ensaio sobre a loucura e a lucidez, sátira política e comédia de costumes, esta edição de Machado de Assis conta com uma esclarecedora nota introdutória do crítico britânico John Gledson, um dos grandes intérpretes do autor brasileiro.
Minha experiência
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"Uma ótima porta de entrada para Machado de Assis e para quem deseja experimentar um clássico brasileiro através de uma história divertida, irônica e surpreendentemente viva, sem abrir mão da riqueza da linguagem de seu tempo."

Minhas resenhas refletem sempre minha opinião sincera e pessoal.

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