Olá, leitores!! Eu me encantei com a sinopse e as apresentações do livro
durante a pré-venda da editora e fiquei curiosa sobre ele. Então, após a
leitura, posso contar como foi minha experiência e, quem sabe, abrir o
caminho para que você tenha a sua.
Logo no início me senti como alguém sendo convidada ao palco. Com uma
narração quase onírica, vamos lendo e cada detalhe é praticamente impresso
na imaginação, criando o cenário. O convite é irresistível, porque não
existe melhor palco que o da própria vida, para se contar uma história. E
alerto que, desde o começo, fica marcante a cultura da cena, dos ambientes e
das marcações que fazem deste autor, tão brilhante e premiado ator.
A trama é dividida em dois atos. O primeiro fala sobre Agenor, um
senhor já velho e viúvo, com antigos hábitos e uma rigorosa rotina. Durante
o dia, tem a companhia de Cinira, empregada e amante, que se submete ao
patrão em troca de sonhos, em especial o de se casar com seu noivo. Porém,
na velha casa existe um segredo e, como é sabido, a existência de um
implica em alguém, neste caso Agenor, tentando escondê-lo e noutro alguém
buscando revelá-lo. Assim, vamos entendendo um pouco do que motiva a
existência do segredo, porque Agenor se mantém preso ao passado que virá em
busca do ajuste de contas.
Por vezes, a história traz do cotidiano, do corpo e da vida, algo vulgar,
cru e ainda sim natural. Em algumas passagens o desconforto é inevitável,
mas, ainda sim, proposital. Ao meu ver, deixando a trama visceral, humana,
real. Impossível não lidar com o racismo que nossa sociedade diz não
existir, entregando assim tudo que a sinopse prometeu, sem em momento nenhum
dizer que iria agradar. E talvez o brilhantismo da obra esteja nessa não
entrega do agradável e sim o olhar de quem saiu da caixa, do
conforto.
"Agenor — como é próprio e óbvio para esse tipo de personagem — não tem amigos, seus clientes são praticamente vozes."
A narrativa, com certeza, é fora da zona de conforto de muitos leitores, e
devo dizer que de modo algum desanima, pelo contrário, instiga a leitura.
Que tem o narrador em terceira pessoa,
“O dramaturgo”, que rege as
cenas e os destinos dos personagens, com uma ironia fina,
refinada, alternando a linguagem, ora formal e na norma culta e noutro
momento o popular, corriqueiro e cotidiano das periferias, fazendo assim um
jogo de contrastes, de quase antagonismo de universos que se encontram
e se repelem por serem distintos, coexistindo na mesma história. Esse
destaque fica evidente nos diálogos e também na ausência deles, quando
existe aceitação de que algumas coisas simplesmente são como são.
"Qual o contexto? Não sei. Querem mais personagens, mais tramas em suas vidas... ridículo, eu acho, desnecessário. Querem a objetividade, querem multidão, sentimento, histórias de amor, aventura... querem entender o que é real, o que é sonho, o que é vida."
O primeiro ato termina com um final que poderia encerrar o livro, se não
tão habilmente abrisse caminho para o segundo, deixando a sensação quase de
alívio por não ser exatamente um fim. E, preciso dizer, que é surpreende a
gama de emoções e pensamentos que me acompanharam nessa breve pausa. Quantas
referências culturais e também históricas eu pude observar, a dura realidade
de quem precisa lutar para sobreviver e, ainda sim, não faz mais que existir
e não viver.
"Nesse momento, entendo como somos imprescindíveis, como cada gesto nosso é fundamental para saúde do universo, como podemos destruir ou criar com uma palavra dita, mesmo que em segredo ou apenas pensada."
Nessa segunda parte temos o fruto da primeira. Antônio com a mente
abençoada pela linhagem do pai e avós e a libido recebida como herança
materna. Investigador da polícia civil, mostra-se dúbio todo o tempo,
vivendo a vida na zona cinza entre o bem e o mal. Afinal, mais uma vez o
passado vem receber a dívida, que sempre vence no tempo presente. Ambas as
partes se contrastam em seus momentos, mostrando diferentes sentimentos e
atitudes durante as mesmas situações que fazem parte da vida, da morte.
"A natureza acontece com sua matemática surpreendente, sem preocupação em dar satisfação a ninguém."
A leitura é densa e cheia de nuanças, não é uma história para ser lida de
uma vez, requer tempo e reflexão, uma pausa para absorver o que fica
subtendido. Assim me vi fascinada por tantas emoções. Espero que você viva a
experiência dessa leitura, que termina com o quase apagar das luzes, fechar
das cortinas e a espera para que os atores voltem ao palco e recebam do
público o merecido aplauso.
O livro em si é um espetáculo à parte. A encadernação perfeita, papel
amarelo e impressão para uma leitura muito confortável. Diagramação
excelente e cheia de detalhes, informações não tão óbvias. A revisão está
impecável sem erros de digitação ou ortografia. Enfim, a marca
Valentina de qualidade no
projeto gráfico.
Ficha Técnica do Livro
- Autor: Antonio Calloni
- Editora: Valentina
- Páginas: 136 fls.
+ Ler Sinopse
Caro Leitor, você deve estar, neste momento, se perguntando sobre Filho da
Noite, certo? Então... vamos lá: Desconfio que eu seja sombrio, vulgar (como
sempre), lírico, erótico, engraçado, romântico(?). Desconfio que eu namore
com o terror, com o suspense, com a loucura, com o estranho. Desconfio que
eu tenha um final feliz. Sou um romance em duas partes que talvez se
comuniquem.
Filho da Noite traz uma perturbadora narrativa, cheia de detalhes, um
verdadeiro delírio, ou não? O filho, o pai. O segredo, o casarão, as mãos
sujas de culpa e nenhum arrependimento. Sua narrativa tem elementos de
terror psicológico. Disponha-se a devorar dois livros que facilmente
poderiam desmembrar-se em muitos. “Como aperitivo, adianto que a segunda
parte do livro começa em clima de soft-pornô ou de romance noir. Nela, o
novo protagonista parece ser dono de sua história, até cair num labirinto
metafísico, espécie de looping do eterno retorno. E não me atrevo a revelar
o final para não estragar a surpresa e a alegria do leitor.
Toda vez que sê lê um novo livro, temos a tentação de imaginar a sua
genealogia. Para ajudar a decifrá-lo, por um lado, mas também para despi-lo
de sua dissonância, de sua diferença. Dentro dessa procura pela semelhança,
digamos que Calloni parecia cultivar a desordem de Clarice e a liberdade
linguística de Guimarães Rosa.” – Geraldo Carneiro.






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