Com uma narrativa ora intimista e ora em terceira pessoa, a autora conta a
história de um símbolo Carioca. Como capixaba, a analogia que posso fazer é
com a fábrica de chocolates
Garoto, localizada no coração da
cidade de Vila Velha.
Confesso que eu fiquei ainda mais curiosa sobre ambos, biscoito e livro, em
minha ida a Bienal no RJ em
2019, porém só esse ano consegui finalmente saciar minha curiosidade.
Degustei o biscoito enquanto lia o livro e, posso adiantar, recomendo ambos.
Agora vamos ao livro.
Recomendo a todo não carioca ler esse livro, quase como um bom manual para
entender um pouco de que é feito o
carioca da gema, e para o
carioca que vá ler um jeito de se entender nessa trindade que parece
fazer parte do DNA de todos eles: sol, mar, mate de barril e
biscoito.
A autora começou a história como toda boa história deve começar: pelo
início, de forma sucinta e explicativa, com o surgimento da cidade do Rio de
Janeiro e os eventos que propiciaram o aparecimento do homem que deu origem
a empresa de biscoitos
Globo.
Uma das características que admiro em biografias é sempre fazer o trajeto
oposto. Do sucesso ao início da ideia. E conhecer assim o caminho que trouxe
ao ponto presente e desmitificar a ilusória sensação que o sucesso veio
fácil.
Algo que achei marcante, durante toda a história, são os laços de amizade
que duram, perduram anos e décadas. Como a empresa de embalagens que é a
mesma desde sempre, funcionário que começou e se aposentou na empresa. Para
mim esse é um dos segredos desse biscoito. Mas a exceção à regra foram os
primeiros casamentos que não resistiram à dura jornada de trabalho,
aliviadas “pela esticada” para
encerrar a jornada com um copo de cerveja.
"Administrar, para eles, além de gerir pessoas e desenrolar toda a burocracia da empresa, incluía também conhecer e executar todas as etapas da produção e da comercialização."
Conforme a leitura prossegue, fica claro que a história da empresa
está intimamente ligada a da cidade do Rio e isso adiciona, além da
tradição, pertencimento. Adicionando a isso o fato de que nenhum dos donos
se manteve ao escritório. O conhecimento de cada etapa é algo que ainda nos
dias de hoje acontece.
A receita preza pela simplicidade e o segredo é o ingrediente humano.
Porque ao ler a explicação fica clara a diferença entre o biscoito globo e
qualquer outro de polvilho de outra marca. Não tem concorrência, porque,
após provar e comprar ambos, a diferença é absurdamente grande. O
Globo é de longe mais
saboroso.
"O Biscoito globo tem sua própria vitrine circulando pela areia, no ombro de cada um dos 350 a 5000 ambulantes que carregam sacos transparentes de 70x90 cm exibindo sua marca bem na altura dos olhos de qualquer banhista. E, como se isso não bastasse, sua vitrine é ainda sonora "Ó, o Globo!", " Salgado e doce, olha aí!"
O cuidado com que os vendedores ambulantes e autônomos são tratados é de
uma delicadeza e humanidade louvável na edição. Fiquei impressionada e
comovida de como, apesar de muitos, não são invisíveis aos donos e nem a
autora.
Depoimentos de clientes selam de vez a união das histórias entre produto e
consumidor. Afinal ninguém come biscoito, come Globo, seja salgado ou doce.
É muito divertido ler os relatos de quem come os biscoitos. E assim, como
deve ser, os personagens dessa história da vida real ganharam cada um o seu
“desfecho”, sanando a
curiosidade do leitor.
O trabalho gráfico da
Editora Valentina para esse
livro foi maravilhoso, a capa do livro é linda e o detalhe do recorte dá um
charme ainda mais especial. Além disso, juntando as 2 orelhas, forma a
embalagem do biscoito. A diagramação do livro está muito organizada e a
revisão impecável. Com imagens e fotos que valorizam ainda mais o
conteúdo.
Se não bastasse tudo isso, o livro foi finalista do
Prêmio Jabuti de Literatura na
categoria Capa. Que quando
lançado saiu com duas opções de capa disponível (doce e salgado em tiragem idêntica a de fabricação do biscoito 30%
doce e 70% salgado). Esse ousado projeto foi pensado pelo designer
Elmo Rosa.
Ficha Técnica do Livro
- Autora: Ana Beatriz Manier
- Editora: Valentina
- Páginas: 192 fls.
+ Ler Sinopse
Sou um ícone da carioquice, um amigo de infância, dizem até que já sou
membro da família. Memória gustativa de 99,9% dos que no Rio de Janeiro
vivem, viveram ou viverão. Sou repleto de curiosidades. Estreei por aqui no
Aterro do Flamengo, fiz fama em Botafogo. Sou sessentão, mas nem pareço. Sou
redondo e farelento, com muito orgulho. Sempre fresquinho, só ando de verde
ou vermelho. Tem quem goste de mim bem bronzeado. A maioria me prefere
salgado. O mate é meu melhor amigo, somos quase inseparáveis.
Adoro praia, estou sempre no Maracanã, não importa qual time esteja em
campo. É verdade o que que dizem por aí, não circulo por rua pouco
movimentada. Embora meus pais tenham raízes espanholas e portuguesas, sem
mandioca eu nada seria. Detesto publicidade, “Pra quê?”, pergunto, “Se já
sou tão querido!” Metido a iguaria, frequento festas descoladas, mas não
perco as infantis, não mesmo Tenho um parente que vive tentando me imitar,
nem ligo. Sou saudável e nutritivo, pode me traçar sem culpa. Uns gostam,
outros me adoram. Há até os que me idolatram, é sério (afinal, sou global).
Bem, há um ianque que me detesta, lá em Nova York, tá out ele. Minha receita
de sucesso? Sou feito com muito amor e carinho.






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