Leitura Compartilhada :: A Isca e outras histórias: novelas



Há livros que parecem abrir uma pequena janela para uma cidade que já não existe. Pela fresta, chegam os costumes, os desejos, as aparências e também aquilo que as pessoas preferiam esconder.

É por essa janela que vamos entrar na nossa próxima Leitura Compartilhada. De 02 de fevereiro a 04 de março de 2026, vamos ler A Isca e outras histórias, de Júlia Lopes de Almeida, a 73ª obra do Lendo com Elis.

Publicado originalmente em 1922, o livro reúne quatro novelas que nos levam ao Rio de Janeiro do início do século XX, entre relações amorosas, interesses, enganos, convenções sociais e até uma passagem pelo sobrenatural.

Talvez seja uma boa pergunta para levar conosco desde o primeiro encontro com o livro: o que uma sociedade revela de si mesma quando deixamos de olhar apenas para aquilo que ela mostra?

Prepare o seu cantinho de leitura, escolha o seu café ou chá e venha descobrir essas histórias com a gente.


🖋️ SOBRE A AUTORA

Júlia Lopes de Almeida (1862–1934) foi uma das escritoras brasileiras mais atuantes de seu tempo. Romancista, cronista, dramaturga e jornalista, construiu durante mais de quatro décadas uma obra extensa, que atravessou diferentes gêneros e levou para a literatura temas ligados à vida familiar, às relações sociais, à condição feminina e ao cotidiano urbano. Foi também defensora da educação feminina e da abolição da escravatura.

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Sua trajetória literária ajuda a compreender por que A Isca merece ser lida para além da etiqueta de "obra antiga". Júlia escrevia observando atentamente a sociedade ao seu redor, especialmente o Rio de Janeiro em transformação. Décadas depois, estudos sobre sua produção continuam encontrando em seus textos representações da modernidade, inclusive por meio de elementos como o automóvel, o cinema e as transformações urbanas da capital.

Há ainda uma história da própria Júlia que atravessa a história da literatura brasileira. Ela participou das articulações que deram origem à Academia Brasileira de Letras e foi a única mulher entre os idealizadores da instituição. Seu nome chegou a ser considerado para integrar o grupo fundador, mas ela acabou excluída por ser mulher; a cadeira que poderia ter ocupado ficou com seu marido, o poeta Filinto de Almeida.

Quando A Isca foi publicado, em 1922, Júlia já era uma escritora experiente e com uma longa trajetória literária. Entre suas obras mais conhecidas estão A Falência, A Intrusa, A Viúva Simões, A Família Medeiros e Cruel Amor. A coletânea de novelas aparece, portanto, em uma fase madura de sua produção.

📖 A OBRA E SEU CONTEXTO

A Isca e outras histórias é uma coletânea de quatro novelas: A Isca, O Homem que Olha para Dentro, O Laço Azul e O Dedo do Velho. A edição da Galuba apresenta as histórias como textos pouco conhecidos da autora e destaca nelas a observação crítica da sociedade carioca do começo do século XX, especialmente em torno de amor, dinheiro e poder.

A primeira novela, que dá nome ao volume, coloca no centro das relações justamente aquilo que o título sugere: a possibilidade de alguém se tornar instrumento dentro de um jogo de interesses. A delicadeza, os sentimentos e as convenções sociais se misturam a estratégias que nem sempre são percebidas à primeira vista.

Em O Homem que Olha para Dentro, a narrativa se volta para a interioridade e para as inquietações de um personagem masculino. Já O Laço Azul parte de uma situação amorosa marcada pelo engano: Raul se apaixona por duas irmãs sem saber que elas são gêmeas. Em O Dedo do Velho, a coletânea muda de atmosfera e incorpora elementos sobrenaturais, acompanhando uma história em que paixão, mistério e assombração se encontram.

Essa variedade é uma das particularidades interessantes do volume. Não estamos diante de quatro histórias construídas exatamente da mesma maneira, mas de quatro caminhos diferentes para observar relações humanas, desejos e expectativas. O próprio conjunto faz a leitura circular entre o cotidiano social, o romance, o jogo de aparências e o insólito.

O livro original foi publicado no Rio de Janeiro pela Livraria Leite Ribeiro em 1922 e tinha 290 páginas no exemplar preservado pela Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin.

Mais de um século depois, a edição escolhida para esta Leitura Compartilhada é a da Galuba Editorial, publicada em 2024. Um detalhe editorial importante é que os textos foram atualizados para o acordo ortográfico vigente, tornando a leitura mais acessível ao leitor contemporâneo sem retirar da obra sua origem histórica.

Assim, entre uma página e outra, teremos uma oportunidade muito bonita de observar não apenas as histórias contadas por Júlia, mas também o mundo que aparece por trás delas: uma sociedade em transformação, atravessada por novas formas de viver a cidade, por convenções sociais rígidas e por relações nas quais amor, dinheiro, desejo e poder nem sempre caminham separadamente.

🕰️ RECEPÇÃO CRÍTICA: ONTEM E HOJE

Júlia Lopes de Almeida não foi uma escritora marginal em seu próprio tempo. Pelo contrário: estudos e registros históricos mostram uma autora profundamente inserida no circuito literário e jornalístico da Primeira República. A própria Academia Brasileira de Letras registra que ela foi uma das escritoras mais publicadas daquele período.

O apagamento veio depois e esteve ligado, entre outros fatores, à exclusão das mulheres dos espaços institucionais de consagração. No caso de Júlia, a história da ABL tornou esse processo particularmente evidente: embora tenha participado das discussões que antecederam a fundação da instituição, seu nome não entrou na lista final de fundadores. A Academia só elegeria sua primeira mulher, Rachel de Queiroz, em 1977, oitenta anos depois de sua criação.

Nas últimas décadas, porém, sua obra voltou a despertar interesse acadêmico e editorial. A Isca, por exemplo, passou a ser estudada também como espaço de representação da modernidade brasileira, incluindo as transformações urbanas do Rio de Janeiro e a presença de elementos como o automóvel e o cinema.

Esse movimento de retorno é especialmente interessante no caso de uma coletânea como esta. Obras menos conhecidas podem revelar aspectos de uma autora que acabam ficando escondidos quando sua produção é lembrada apenas pelos títulos mais famosos.

Talvez seja justamente aí que nossa conversa possa começar: o que acontece quando uma obra retorna à mesa de leitura depois de décadas fora do centro da conversa literária?

🗓️ CRONOGRAMA E DINÂMICA DA LEITURA

Nossa leitura acontece de 02 de fevereiro a 04 de março de 2026.

O espaço para acompanhar o cronograma, conversar sobre as histórias e compartilhar impressões será o grupo do Lendo com Elis no Telegram:

Telegram — Lendo com Elis

Como sempre, teremos um cronograma de leitura para nos orientar e um grupo de conversa para acompanhar a experiência ao longo do caminho.

A ideia não é transformar a leitura em tarefa. Cada participante pode acompanhar o cronograma dentro do seu próprio ritmo e construir sua própria relação com as histórias. Algumas pessoas vão querer comentar cada detalhe; outras preferirão terminar uma novela antes de conversar; outras ainda podem simplesmente acompanhar em silêncio e chegar ao final com suas próprias descobertas.

O Lendo com Elis é, antes de tudo, um espaço de troca: para ler, conversar, descobrir autores, reencontrar livros e perceber como uma mesma história pode ganhar sentidos diferentes quando passa pela experiência de vários leitores.

Capa de A Isca e outras histórias, de Júlia Lopes de Almeida

Ficha Técnica do Livro

  • Título: A Isca e outras histórias: novelas
  • Autora: Júlia Lopes de Almeida
  • Editora: Galuba Editorial
  • Ano: 2024
+ Ler Sinopse
Conheça grandes autoras da literatura brasileira.

A Isca e outras histórias consiste em uma coletânea de quatro novelas pouco conhecidas escritas pela autora Julia Lopes de Almeida. As histórias são marcadas por uma crítica ácida à sociedade carioca decadente do começo do século XX, apresentando reflexões sobre amor, dinheiro e poder.

Nesse livro você vai encontrar os textos: A Isca, O homem que olhava para dentro, O laço azul e O dedo do velho – todos com o português atualizado para o acordo ortográfico vigente.

Julia Lopes de Almeida foi a única mulher entre os idealizadores da Academia Brasileira de Letras, ultrapassou os limites temáticos impostos às escritoras de sua época e abordou o cotidiano urbano do Rio de Janeiro, oferecendo uma visão sagaz da sociedade carioca do princípio do século XX.

Nesta edição da Galuba Editorial, os textos foram atualizados para o acordo ortográfico vigente.

Agora é hora de deixar a apresentação de lado e abrir o livro. Quatro novelas, quatro portas de entrada para o universo de Júlia Lopes de Almeida. Talvez encontremos nelas uma cidade que mudou muito desde 1922. Talvez encontremos comportamentos que parecem estranhamente familiares. Talvez algumas histórias nos levem para lugares completamente inesperados.

Prepare o café, coloque o chá para esquentar, escolha um cantinho confortável e venha acompanhar mais uma Leitura Compartilhada do Lendo com Elis.

A conversa começa na primeira página.

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