Olá leitores, Ao terminar a história de Vidas Secas, estou ansiosa, triste. E não me entenda mal: nisso reside mérito do autor. Graciliano Ramos fez da história uma realidade enquanto eu a lia. Porque ele, durante toda a obra, usa a mais cruel de todas as torturas: a esperança.
Alguém preso em um poço que vê a luz acredita que pode sair de onde está. E, por isso, luta. Mesmo que seja uma luta quixotesca. Perde as unhas, os dedos e a sanidade porque acredita. E assim, a dura realidade de Fabiano encontra companhia na família que lhe dá esperança. Mesmo que a fome, a dor e a ausência de tudo sejam sua realidade, ele acredita.
"Tinham afinal um canto onde se apalpar. Um torinhó de palha, uma cerca de aroeira. E depois um curral e os cabritos."
É dessa maneira que acompanhamos a jornada desses retirantes, que nada mais são que almas viventes tentando sobreviver em meio à seca e às dificuldades. E temos em Baleia um dos elementos que mais me atravessaram durante a leitura. Afinal, já no nome, de um ser das águas, existe uma pergunta.
Quando falamos dos sentimentos mais básicos e primários de todo ser: medo, fome, sono e sobrevivência, eles a todos nivelam: fauna, flora e humanidade. Porém, o pior do ser pensante também se revela. É aquele que tira de quem nada tem e esmaga qualquer inferior para, em si, aumentar uma pseudo grandeza.
"Viriorariam um dia, seriam gente importante. Os meninos iriam para a cidade, seriam doutores."
Acompanha Fabiano, Sinha Vitória, os dois filhos e Baleia em sua caminhada pelo sertão nordestino. A seca determina seus deslocamentos, mas a luta daquela família não se resume à falta de água. A fome, a exploração, a falta de perspectivas e as relações de poder fazem parte dessa realidade. A narrativa, dividida em treze capítulos, acompanha diferentes momentos e personagens, construindo aos poucos o retrato de uma família que segue adiante porque precisa seguir.
"As palavras compridas e difíceis da gente da cidade [...] eram inúteis e talvez perigosas."
E ainda assim, como eles, continuamos, talvez seja justamente essa permanência que torne Vidas Secas uma leitura tão difícil de simplesmente encerrar e deixar para trás. Graciliano Ramos não nos oferece uma história confortável, nem permite que a esperança seja apenas uma coisa bonita. Aqui, ela também pode ser instrumento de permanência, porque enquanto se acredita que amanhã pode ser diferente, continua-se caminhando, mesmo quando tudo ao redor parece dizer o contrário.
Se chegou até aqui nesse texto, saiba que acho imperativo que esta obra seja lida, conversada e discutida. Precisamos desse choque de realidade porque continuamente usam a esperança como arma de dominação e submissão.
Não se engane: a verdade liberta porque torna a esperança em plano, e os planos se realizam não são apenas promessas.
Boa leitura,
”
Detalhes da Obra
- Autor: Graciliano Ramos
- Editora: Record
- Páginas: 174 fls.
- Ano: 2013
+ Ler Sinopse
"Uma leitura que incomoda, atravessa e permanece depois da última página, especialmente para quem deseja conversar sobre esperança e sobrevivência."



.png)
.png)


Nenhum comentário:
Postar um comentário